| Título da dissertação: | Discurso feminino, epistolaridade e representação nas Heroides de Ovídio |
| Resumo da dissertação: | Este estudo aborda as Heroides de Ovídio, uma coleção de epístolas poéticas cuja autoria é atribuída a personagens da mitologia greco-romana (salvo uma única exceção, cuja carta é atribuída a uma figura histórica), em sua maioria mulheres. Um dos objetivos de nossa pesquisa é promover a valorização da voz feminina na obra selecionada, relacionando aspectos do campo da linguagem às questões contemporâneas de gênero. Diante da escassez de textos antigos escritos por mulheres, a análise das Heroides, compostas num contexto cultural predominantemente masculino, pode revelar-nos informações valiosas sobre a perspectiva feminina. O poder autoral das personagens femininas das Heroides se inscreve num sistema intratextual de composição que forma uma comunidade simbólica de leitura e escrita feminina, constituída pela presença compartilhada dessas mulheres no corpus. A partir disso, compreendemos que as heroínas-autoras da obra assumem ativamente os papéis de leitoras, escritoras e comentadoras de seus mitos, convidando-nos à revisão de narrativas antes concebidas sob uma perspectiva masculina e inserindo-se de forma consistente no legado textual da Antiguidade como um círculo de mulheres intelectuais. A prevalência da voz feminina nesta obra encoraja-nos a olhar para estas mulheres como autoridades poéticas que não se furtam de explorar recursos institucionais do âmbito da linguagem e do discurso na (re)textualização de seus enredos. Discutimos, em especial, a forma como as heroínas ovidianas empregam elementos epistolares e teatrais para se tornarem protagonistas de suas histórias. Com efeito, observamos nas Heroides que motivos elegíacos, como os sintomas do amor, e tópoi epistolares, como a escrita in absentia, combinam-se com preceitos concernentes ao teatro. A escrita em primeira pessoa e a delimitação do espaço-tempo narrativo permutam a epistolografia e o drama, de modo que as cartas das Heroides incorporam convenções do palco e erguem um teatro epistolar. Ariadne (Her. 10), por exemplo, detalha em sua epístola eventos que apenas ela testemunha, oferecendo ao leitor a pictografia desses fatos e representando seu sofrimento amoroso através da ênfase dramática na descrição de sua gestualidade. Tal espaço poético que possibilita a visualização de “cenas exclusivas” dos mitos se articula também nas missivas de Enone (Her. 5) e Fedra (Her. 4), sobretudo quando postulam a presença de um público leitor-espectador para os episódios narrados e para suas próprias figuras, ao centro do palco que é a página. Assim, essas mulheres constroem suas narrativas a partir dos textos das demais, constituindo-se como modelos mútuos de escrita feminina, o que funda um processo de produção que articula a alteridade e a autorreferenciação na revisão de seus mitos. Esses aspectos demonstram tanto a formação da rede virtual de leitura e escrita feminina quanto sua intrincada produção poética, sustentada pela intratextualidade e pela exemplaridade. Nossa pesquisa propõe uma leitura intratextual do teatro epistolar arquitetado por Ariadne, Enone e Fedra, cotejando suas epístolas para evidenciar, de um lado, os bastidores de escrita dessas heroínas e, de outro, o papel ativo do leitor-espectador na composição e recepção dessas representações do discurso feminino nas Heroides. |
| Data e horário | Dia 12 de setembro de 2025, às 14:00 horas, via Webconferência. |
COMPOSIÇÃO DA BANCA:
| Nome do(a) Prof.(a) | Vínculo institucional | Função na banca | |
| 01 | Carol Martins da Rocha | UFJF | Orientadora e Presidente |
| 02 | Isabella Tardin Cardoso | UNICAMP | Membro Titular Interno |
| 03 | Giovanna Longo | UNESP | Membro Titular Externo |
| 04 | Fábio da Silva Fortes | UFJF | Suplente Interno |