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Ética e prevenção ao assédio orientam debate sobre relações de trabalho na UFJF

Encontro reuniu comunidade acadêmica, gestores e equipes técnicas para refletir sobre ambientes institucionais mais respeitosos e saudáveis 

 

A palestrante Marisa Augusta é coordenadora de Saúde do Trabalhador da Fiocruz (Foto: Twin Alvarenga)

Promover ambientes de trabalho mais saudáveis exige mais do que normas e protocolos: requer diálogo, reflexão ética e compromisso coletivo. Com esse propósito, a Comissão Permanente de Prevenção e Enfrentamento aos Assédios e outras Violências (COPPEA), realizou, nos dias 7 e 8 de julho, o evento “Ética Organizacional e Transformação das Relações no Ambiente Universitário”, que contou com o apoio da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEPE).

A programação reuniu, ao todo, cerca de 194 participantes no Anfiteatro das Pró-Reitorias. No primeiro dia, 96 pessoas da comunidade acadêmica participaram presencialmente ou on-line. No período da tarde de terça-feira, as atividades foram voltadas aos gestores da Universidade e, no dia 8, à equipe técnica, ampliando o debate sobre prevenção das violências, ética organizacional e promoção de relações de trabalho mais saudáveis. 

Na abertura do evento, a presidente da Comissão, Renata Faria – assistente social da Coordenação de Saúde, Segurança e Bem-Estar (COSSBE) da PROGEPE – destacou que esta é a segunda edição da iniciativa. Enquanto o encontro realizado em 2025 teve como foco o letramento sobre assédio moral e sexual, neste ano a proposta foi avançar na construção de uma cultura preventiva, centrada no cuidado com as relações éticas.

Para o pró-reitor de Gestão de Pessoas, Warleson Peres, a PROGEPE tem participação significativa na composição da Comissão e em consonância com os trabalhos da COPPEA. “A pró-reitoria busca potencializar as ações de capacitação e promover diálogos sobre a temática, nessa necessidade que é contínua de combate e enfrentamento aos assédios e outras violências”, assegura.

Por uma cultura de prevenção

A palestra principal foi ministrada pela coordenadora de Saúde do Trabalhador da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Marisa Augusta de Oliveira, enfermeira do trabalho e doutora em Bioética. Logo no início de sua apresentação, ela convidou os participantes a ampliarem o olhar sobre o tema. “Mais do que falar das violências que nos separam, prefiro falar do que nos une.”

Ao longo da exposição, Marisa Augusta ressaltou a importância de compreender corretamente os conceitos relacionados ao assédio moral para que eles possam orientar as práticas institucionais. Segundo ela, esse tipo de violência não deve ser analisado apenas sob a ótica individual, mas como um fenômeno que se desenvolve dentro das organizações, influenciado tanto por fatores internos quanto por transformações contemporâneas do mundo do trabalho, como a plataformização, a diversidade de vínculos e a crescente lógica da competitividade.

A palestrante explicou que o assédio moral possui características próprias que ajudam a diferenciá-lo de outros conflitos existentes no ambiente de trabalho. Entre seus marcadores estão a direcionalidade, a intencionalidade e a frequência das condutas. Também apresentou as diferentes tipologias do assédio moral, ressaltando que – embora o vertical descendente seja o mais comum –, existem outras formas, tais como o horizontal, o vertical ascendente e o misto. 

Outro ponto enfatizado foi o papel das pessoas que testemunham situações de violência. Segundo Marisa Augusta, a omissão diante de uma conduta abusiva pode ser tão grave quanto a própria prática do assédio, reforçando a responsabilidade coletiva na construção de ambientes organizacionais seguros.

Diálogo e acolhimento 

Ao todo, 194 pessoas participaram dos encontros promovidos pela COPPEA (Foto: Twin Alvarenga)

Ao abordar estratégias de prevenção, a pesquisadora defendeu que situações de conflito devem ser conduzidas, sempre que possível, por meio do diálogo e da transparência, preservando os limites éticos e a confidencialidade das pessoas envolvidas. Ela ressaltou ainda que medidas de proteção e acolhimento precisam ser adotadas independentemente da formalização de denúncias.

Para Marisa Augusta, essas ações são fundamentais para interromper situações de sofrimento, proteger pessoas em situação de vulnerabilidade e evitar o agravamento dos conflitos. Assim como há a perspectiva pedagógica: “toda manifestação de sofrimento indica um mal-estar organizacional que merece atenção”. 

Um desafio presente nas instituições públicas refere-se à multiplicidade de vínculos funcionais e de normas que disciplinam cada categoria profissional. Em sua avaliação, é necessário que as organizações priorizem as pessoas, e não apenas as diferentes formas de contratação, superando uma lógica excessivamente segmentada.

Também foi explicado sobre as intersecções do assédio moral, que incluem outras formas de violência presentes nas organizações, como racismo, capacitismo, misoginia, violência psicológica, exclusão social e intolerância religiosa. A especialista lembrou ainda que as “consequências do assédio moral extrapolam a esfera individual e podem ser observadas e sentidas em diferentes níveis, impactando também o coletivo.”

Como reflexão final, Marisa Augusta defendeu que as instituições precisam investir na criação de estruturas confiáveis de acolhimento e escuta, além de ampliar os espaços permanentes de diálogo e investimento em formação ética e direitos humanos. 

Entre as provocações deixadas ao público, destaca-se: “Como agir para além das campanhas, dos protocolos e das denúncias frente a um fenômeno que se expressa nas relações? Como garantir mais espaços de diálogo, mais encontros e mais reflexões éticas? Como desburocratizar as relações?”

Construção coletiva

Participando do debate, a servidora técnica-administrativa em Educação, Elaine Pereira de Bem, que integrou a diretoria do Sintufejuf e participou da construção da Política de Prevenção e Enfrentamento aos Assédios e Outras Violências da UFJF, defendeu que as discussões tenham continuidade.

Como a Universidade reúne uma comunidade diversa, o enfrentamento às violências depende de mobilização permanente e construção coletiva. Ela também lembrou que a política institucional da UFJF já contemplava os riscos psicossociais antes mesmo da entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) para a iniciativa privada, demonstrando o pioneirismo da instituição na incorporação dessa temática às suas ações de prevenção.

Para o gerente de Saúde do Trabalhador da COSSBE, Paulo Sérgio Pinto, o encontro foi muito relevante por possibilitar um diálogo importante sobre ética organizacional na Universidade e seus impactos para os trabalhadores. “Refletir coletivamente a partir de situações do cotidiano institucional nos permite aprimorar as ações desenvolvidas pela COSSBE e fortalece nossa atuação como espaço de acolhimento, escuta e cuidado aos servidores”, compartilha.

 

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