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Onça macho, com 51kg e 1,81m, é transferida para área de proteção ambiental

Animal recebeu cuidados e um colar de monitoramento para então ser deslocado para área de proteção ambiental (Fotos: Raul Mourão/UFJF e Marcos Perobelli/UFJF)

Juiz de Fora se despede de um dos principais personagens que tomou conta de conversas em mesa de bares, na fila da padaria e em redes sociais nos últimos 17 dias: a onça-pintada. O animal foi capturado na noite de domingo, às 20h27, em uma armadilha de caixa, posicionada em uma trilha no lado direito do primeiro lago do Jardim Botânico da UFJF.

“Era um local por onde ela passava recorrentemente”, afirmou o professor do Departamento de Zoologia da UFJF Artur Andriolo na noite da captura. Ele acompanhou a presença do animal desde o início dos trabalhos juntamente com o professor do Colégio de Aplicação João XXIII Pedro Nobre. As quatro caixas metálicas foram instaladas entre quinta, 9, e sexta, 10, e somaram-se as outras seis armadilhas de laços que já estavam em funcionamento no local.

O felino está robusto, com todos os dentes e sem arranhões. “Isso é típico de um animal que ainda não brigou, não enfrentou outro macho e está se dispersando. A pelagem está boa, sem carrapatos”, constatou o professor Fernando Azevedo, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), membro da equipe.

Tal como se suspeitava por meio de fotos e vídeos, trata-se de um macho. Tem 51,6 quilos, 1,81 metro de comprimento (do crânio à cauda) e aproximadamente 4 anos. A idade foi estimada pelo tamanho e estado dos dentes. O canino superior direito mede 3,9 centímetros. “Eles estão bem formados, com pouca coloração amarelada e poucos sinais de desgaste”, explicou Azevedo.

Captura e cuidados
“Já estávamos pensando em outros planos”, disse o professor Pedro Nobre. Isso porque às 5h de domingo a onça havia passado ao lado de uma das armadilhas de caixa, no lago superior, e não demonstrara interesse. “Era preciso ter paciência mesmo.”

Foi questão de tempo. Horas mais tarde, o barulho no Jardim em período usual de passagem do felino reacendeu o ânimo da equipe. “Foi muito legal. Escutei um ‘catran’, ‘catran’. Já pensei na armadilha. Levantei, fui à janela da sala onde monitoramos, joguei a luz da lanterna bem forte na direção da caixa do outro lado do lago. Falei com o pessoal: ‘se não me engano, caiu a tampa da armadilha’. Caiu mesmo. Quando vi dois olhinhos brilhando, falei pra todos: ‘Tem bicho lá dentro’. Daí desencadeou o processo”, conta o médico veterinário Paulo Roberto Amaral, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio).

A onça na caixa ficou agitada, arrancou cerca de 15 centímetros da parte inferior da grade e ficou avançando na direção do professor Fernando Azevedo. Foi neste  momento que Amaral aproveitou para atirar um dardo com anestésico e tranquilizante. Em cerca de oito minutos, já estava dormindo, conforme o especialista.

Em seguida, a onça foi levada para uma bancada no pátio do setor administrativo, onde recebeu cuidados veterinários. A equipe coletou amostras de sangue, urina e pelo. Parte do material será levado para análise no Cenap/ICMBio, localizado em Atibaia (SP). “Elas serão incluídos em um banco de dados sobre a espécie e, a partir delas, será feita uma série de verificações”, afirma Paulo Roberto.

Equipe estava a postos para fazer todos os procedimentos técnicos, exames e logísticos após a captura (Fotos: Raul Mourão/UFJF e Marcos Perobelli/UFJF)


De acordo com o reitor Marcus David, o planejamento e a integração entre diversos agentes de segurança e do meio ambiente foram determinantes para o desfecho exitoso. Ele agradeceu a equipe de trabalho envolvida e reafirmou a preocupação da universidade em tomar as decisões de forma coletiva e embasada tecnicamente.

“Pesquisadores de instituições públicas foram responsáveis pela estratégia desse trabalho”, o que, segundo ele, confirma o papel das universidades em devolver à sociedade conhecimento e tecnologia.

Para a pró-reitora de Extensão, Ana Lívia Coimbra, a estratégia de mobilização usada pela Universidade visando à conscientização ambiental foi fundamental para garantir a segurança do felino e das pessoas. “A situação trouxe um debate muito grande nas redes, que revelou a preocupação da população com o animal.”

Área livre e mais segura

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Onça-pintada está em área com mais três fêmeas e um macho (Foto: Raul Mourão/UFJF)

A onça foi levada pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), em uma caixa metálica, do mesmo modelo usado para captura, forrada com espuma. No trajeto, o felino foi monitorado pelo médico veterinário Paulo Roberto Amaral, do Cenap/ICMBio. Em outro veículo, viajaram os professores Artur Andriolo, Fernando Azevedo e Pedro Nobre, acompanhados da reportagem da Diretoria de Imagem Institucional.

O animal foi inserido em uma área florestal ampla, em Minas Gerais, distante de área urbana, com menos riscos de incidentes do que em Juiz de Fora. “Aqui não caberia outro indivíduo. Na nova área, existem um macho e três fêmeas. Assim temos a possibilidade de reprodução. Ele é essencial para a espécie”, explica o professor Azevedo. Sobram menos de 300 onças-pintadas vivendo em Mata Atlântica.

A equipe estacionou o furgão em uma estrada de terra vicinal, indicada pelos profissionais locais, e aguardou cerca de uma hora e meia até que a onça ensaiasse os primeiros passos na caixa. Quando o professor Azevedo retirou a tampa, o receio era o animal, mesmo sonolento ir em direção da equipe. Parte se posicionou dentro do furgão com porta entreaberta em silêncio.

Em menos de um minuto, caminhou ainda sonolento para frente, voltou e foi andando em direção do professor, que seguiu a recomendação usual: levantou os braços. O animal voltou, com a  coordenação motora ainda pesada até que entra na mata lateral. O barulho

O nome do local está mantido em sigilo a pedido da área florestal que irá recebê-lo. Dessa forma, tenta-se evitar a atração de caçadores para a região e de outros agentes que possam representar riscos ao animal.

Onça-pintada já no local para onde foi transferida (Foto: Raul Mourão/UFJF)

Em sua passagem por Juiz de Fora, foram identificados perigos de o animal ser atropelado, ferido ou abatido, ante a uma situação de ameaça em uma de suas visitas urbanas. O animal foi filmado em frente a hotel, ruas e próximo a uma praça, no Bairro Industrial. Provavelmente atacou um galinheiro em duas noites seguidas, no Bairro Parque das Torres.

Com a transferência da onça, o Jardim Botânico prepara-se para ser reaberto. Segundo o diretor, Gustavo Soldati, reuniões com os comitês que compõem a administração do espaço serão realizadas, nos próximos dias, para organizar a reabertura do local. A previsão é de que isso ocorra em duas semanas. A presença da onça será incorporada ao processo de educação ambiental nas atividades e roteiros de visitação do Jardim.

“O inusitado nesta história é a onça aparecer em Juiz de Fora. Gostamos também da reação acolhedora da população, que a adotou. Esta é uma oportunidade para discutir, em educação ambiental, a expansão urbana  e a presença de animais silvestres”, afirma o professor Pedro Nobre. Outro ponto singular desse contraste para os veterinários Ricardo Arrais e Paulo Amaral foi estar à procura de uma onça, durante a noite e a madrugada, e em alguns dias almoçar em shopping em frente à Mata.

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Estratégias de monitoramento e captura

Captura do animal foi feita por meio de caixa metálica usada como armadilha (Imagens: Raul Mourão)

O primeiro registro em vídeo do animal foi feito em torno de 21h15 do dia 25 de abril pelo vigilante Wamildo Jesus Ribeiro ao redor da sede administrativa do Jardim Botânico.

Na manhã do dia seguinte, a UFJF decide fechar temporariamente o Jardim Botânico. Em entrevista à imprensa o reitor anuncia a vinda de um profissional do Cenap/ICMBio, órgão federal de referência em situações emergenciais. Ele chega na mesma noite e acompanha a instalação de câmeras, conhecidas como armadilhas fotográficas, pelos professores Artur Andriolo e Pedro Nobre.

No sábado, 27, pegadas e fezes do animal são encontradas no Jardim e no estacionamento da Igreja Batista Resplandecente Estrela da Manhã. Mais cinco câmeras são instaladas e registram a passagem do animal na área. Vídeos e fotos da onça também foram feitos em área urbana, em frente a hotel, ruas e próximo a uma praça no Bairro Industrial. As imagens foram determinantes para a decisão de captura e translocação do animal.

No dia 3 de maio, armadilhas de laço, camuflado no solo, começam a ser instaladas e, dias depois, quatro armações de caixa com iscas dentro também são montadas à espera do animal. Após dez dias, a onça é então capturada pela equipe.