Press Release: Guia de Políticas Institucionais para a Equidade de Gênero na Academia
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O panorama de desigualdades de gênero está presente em muitas áreas de conhecimento na academia, entretanto, é mais acentuado e evidente em áreas como STEM (acrônimo em inglês para Science, Technology, Engineering, and Mathematics, ou Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Na Engenharia, por exemplo, as mulheres representam 37% dos(as) alunos(as) de mestrado e doutorado, 31% dos(as) professores(as) de ensino superior e 24% dos(as) docentes de pós-graduação (Nery et al., 2024; INEP, 2024b). Os desafios enfrentados pelas mulheres na carreira acadêmica vão além da sua sub-representação. Estudos apontam que as pesquisadoras possuem menor chance de publicarem seus artigos, de serem incluídas como autoras em artigos, de receberem citações e de patentear seus trabalhos (Budden et al., 2008; West et al., 2013; Bendels et al., 2018; Hunt et al., 2013).
Para romper essas disparidades e superar os estereótipos implícitos nas áreas de STEM, é essencial realizar um diagnóstico das desigualdades. Isso permite uma compreensão mais aprofundada da situação e a criação de estratégias que sejam mais eficazes. Neste sentido, buscamos contribuir para esses diagnósticos através do projeto 88887.744258/2022-00 intitulado “Diferenças de gênero na docência de Engenharias: diagnóstico e sugestão de conduta para os PPGs brasileiros”. Esse projeto é referente ao edital nº 37/2022, PDPG – Alteridade na pós-graduação, da CAPES. Ele foi dividido em dois trabalhos principais, a dissertação de mestrado da Iasmin Ferreira Nery e a tese de doutorado da Júlia Assumpção de Castro.
Na dissertação de mestrado, foi feito o diagnóstico, buscando quantificar a participação das mulheres nas engenharias e analisar as discrepâncias de gênero nos programas de pós-graduação (PPGs) de engenharia brasileiros. Observamos que existe uma sub-representação de mulheres na docência nos PPGs brasileiros, sendo as Engenharias III (Mecânica, de Produção, Naval e Oceânica e Aeroespacial) e Engenharias IV (Elétrica e Biomédica) aquelas com maior discrepância. Além disso, nos 10 anos analisados não houve tendências significativas de mudanças, mostrando um cenário estagnado. Também foi feita uma análise estatística das métricas de produção dos PQs da Engenharia Civil, com apoio das estatísticas Profa. Camila Zeller e Gabriela Paschoal da Silva, revelando que, mesmo com trajetórias acadêmicas semelhantes, os homens são mais frequentemente classificados em categorias superiores.
Leia a dissertação na íntegra: Por que tão poucas? Análise do efeito tesoura e leaky pipeline na carreira de mulheres pesquisadoras na engenharia
Figura 1 – Proporção de sexo, na área da Engenharia, entre discentes da pós-graduação, docentes, docentes de PPG e bolsistas PQ, entre 2018 e 2022. As linhas contínuas mostram as médias dos anos anteriores.

Na tese de doutorado, foram analisadas as políticas de equidade de gênero no ingresso, permanência e progressão das mulheres na docência. A análise abrangeu editais de credenciamento em programas de pós-graduação, concursos para docência e editais de bolsas de produtividade em pesquisa, considerando critérios avaliativos, linguagem e a presença de critérios específicos para a equidade de gênero. Os resultados indicaram o predomínio da valorização das publicações em periódicos, além de critérios subjetivos que comprometem a transparência. Observou-se baixa adoção de linguagem não sexista. Critérios específicos de equidade aparecem de forma limitada e majoritariamente associados à maternidade.
[Dissertação de doutorado ainda em andamento.]
Diante dos resultados encontrados, desenvolvemos o Guia de Políticas Institucionais para a Equidade de Gênero na Academia. O guia apresenta políticas institucionais voltadas à promoção da equidade de gênero na academia, dividindo-as em 6 grandes grupos: 1) Gestão, 2) Distribuição de recursos, 3) Conscientização, 4) Permanência e progressão na carreira, 5) Processos seletivos e editais, 6) Apoio à maternidade. O objetivo do documento é facilitar o acesso às políticas existentes e incentivar a análise da implementação das mesmas.
Leia o Guia: Guia de Políticas Institucionais para a Equidade de Gênero na Academia
Encorajamos a leitura e envio do guia para discentes, docentes, técnicos(as) administrativos e, especialmente, ocupantes de cargos de liderança tanto das instituições de ensino, quanto de órgão superiores, como as agências de fomento, CAPES, CNPq, Ministério da Educação, dentre outros. Assim, pretendemos facilitar a visualização e realização de diferentes ações capazes de reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e promover ambientes acadêmicos mais inclusivos e justos. Sem equidade não há mérito, há privilégio, e cabe a nós mudar esse cenário.
Sobre os membros da equipe de pesquisa:
Júlia Castro Mendes é professora do Departamento de Construção Civil da UFJF e docente Permanente dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFJF (PEC/UFJF) e da UFOP (PROPEC/UFOP). Co-líder do CIDENG – Grupo de Pesquisa em Ciência de Dados aplicada à Engenharia. Membro do conselho da WREN – Women’s Research Engineers Network. Graduada em engenharia civil pela UFJF, com mestrado e doutorado no PROPEC/UFOP, tem experiência na área de aprendizagem de máquina aplicada à construção civil, materiais e técnicas de construção inovadores, reaproveitamento de resíduos e eficiência energética em edificações. Sentido na pele como é ser uma mulher pesquisadora na Engenharia, também abraçou os estudos de gênero na STEM. Lattes.
Camila Borelli Zeller é professora do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Matemática da UFJF, na área de Matemática Aplicada. Atualmente, integra o CIDENG – Grupo de Pesquisa em Ciência de Dados aplicada à Engenharia. Graduada em Estatística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde também concluiu o mestrado e o doutorado em Estatística. Tem experiência em Estatística Teórica e Aplicada, com atuação principalmente em distribuições elípticas e assimétricas, misturas de distribuições, modelos de tempo de vida, algoritmo EM, diagnóstico e análise de influência, além de aplicações de métodos estatísticos e computacionais em diferentes áreas. Ao longo de sua trajetória acadêmica, tem contribuído para a formação de novos pesquisadores, incluindo a orientação de diversas mulheres em Estatística e áreas afins. Lattes.
Júlia Assumpção de Castro é doutoranda em Engenharia Civil pelo PROPEC – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Atuou como Professora Substituta no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais, Campus Juiz de Fora, no núcleo de Construção Civil. Participou do projeto de extensão Núcleo de Atendimento Social da Faculdade de Engenharia (NASFE) e atuou como monitora das disciplinas de Cálculo 1 e Mecânica. Principais campos de pesquisa relacionados com equidade de gênero na Engenharia, materiais de construção civil, avaliação do ciclo de vida e sustentabilidade de edificações. Lattes.
Iara Souza Ribeiro é engenheira civil, atuante na área de estruturas. Atualmente, trabalha na Ribeiro Cardoso Engenharia e Projetos, onde desenvolve laudos técnicos e projetos estruturais. É Doutora em Engenharia Civil pelo PROPEC – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Possui interesse especial em estudos de gênero nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e realizou pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal de Juiz de Fora (PEC-UFJF), com pesquisas voltadas à temática. Lattes.
Iasmin Ferreira Nery é engenheira civil e atua na fiscalização de obras e no acompanhamento de intervenções de infraestrutura hospitalar. Também realiza perícias judiciais para o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, atuando com vistorias, laudos, patologias construtivas e assistência técnica. Iasmin é Mestra em Engenharia Civil pela UFJF, na área de Materiais da Construção Civil, e sua pesquisa investigou as desigualdades de gênero na trajetória acadêmica de pesquisadoras das Engenharias. Hoje, como Coordenadora adjunta do Programa Mulher do CREA-MG, reúne experiência em execução e fiscalização de obras, planejamento físico-financeiro, controle de qualidade, perícias e estudos de gênero na STEM. Lattes.
Gabriela Paschoal da Silva é bacharela em Estatística pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e aluna do programa de especialização em Ciência de Dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, trabalha como analista de dados na Fundação Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF). Suas principais áreas de interesse incluem estatística aplicada, ciência de dados e questões sociais, com especial interesse em desigualdades de gênero, particularmente nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Em seu trabalho de conclusão de curso, investigou desigualdades de gênero entre pesquisadores dos programas de pós-graduação em Matemática e Estatística no Brasil. Lattes.