
Crianças que participaram dos jogos melhoraram capacidade de reconhecer e nomear emoções (Foto: Equipe Curiosamente)
Um jogo desenvolvido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mais sete instituições do Brasil, do Canadá e dos EUA melhorou a capacidade de crianças em reconhecer e nomear emoções e a compreender situações que podem provocar determinadas emoções em si e nos outros. O estudo obteve aprovação internacional, ao ser publicado na Nature Communications Psychology (Comunicações em Psicologia), uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo. A iniciativa ainda recebeu financiamento internacional e está sendo aplicada em escolas em Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina.
O jogo, chamado CuriosaMente, fez parte de uma intervenção psicológica desenvolvida a partir de conhecimentos de neurociência, psicologia do desenvolvimento e educação. É composto por dois joguinhos físicos: “Caçadores de Emoções” e “Caçadores de Mentes”, com foco em habilidades socioemocionais e voltados para crianças em período pré-escolar, entre 5 e 6 anos. Outra versão também abrange conhecimentos de matemática.
“Os jogos utilizam contação de histórias, personagens, elementos simbólicos e situações de faz de contas para criar experiências de aprendizagem. A criança entra na narrativa, assume o papel, encontra desafios, imagina possibilidades e constrói soluções junto com outras crianças”, explica a professora Nara Andrade, uma das autoras da pesquisa e professora do Departamento de Psicologia da UFJF. “Brincar não é um intervalo de aprendizagem. Brincar é uma forma de conhecer o mundo”, acrescenta.
A iniciativa foi selecionada para integrar o projeto de financiamento internacional “Caminhos da Pré-Escola”, em que intervenções com resultados positivos são incorporadas a políticas educacionais. O Curiosamente já chega a 2 mil crianças em Juiz de Fora (MG), Florianópolis (SC) e Feira de Santana e Salvador (BA).
E pode ter o alcance ampliado nos próximos anos de forma presencial e on-line. Em meados de 2028, os jogos e sua metodologia devem estar disponíveis na internet. “Queremos que esse conhecimento seja transferido, disponibilizado e efetivamente utilizado pela sociedade”, anseia Nara, que coordena o Laboratório Interdisciplinar de Neurodesenvolvimento Humano (Linha/UFJF). Para essa ampliação, a equipe conta com o apoio do Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt) da UFJF.
Como funcionam

Em Caçadores de Emoções, crianças escolhem expressões mais compatíveis às situações ilustradas e fotos (Foto: Equipe Curiosamente)
Em “Caçadores de Emoções”, as crianças jogam, em pares, usando um tabuleiro. Precisam reconhecer e interpretar emoções por meio de expressões faciais em fotos, ilustrações e histórias. À medida que vão acertando, aproximam-se da chegada.
Um dos desenhos, por exemplo, mostra um menino com um sorvete caído no chão. Logo abaixo, a criança deve escolher qual imagem de expressão facial representaria melhor a emoção sentida pelo personagem, seja de alegria ou tristeza. O jogo tem dez níveis de complexidade, em que trabalha emoções primárias, como alegria e medo; secundárias, a exemplo de culpa e inveja; e mistas, tais como amor e desprezo.

‘Brincar é uma forma de conhecer o mundo’, afirma profª Nara Andrade, da Psicologia
Já “Caçadores de Mentes” possui 16 cartas com ilustrações para serem trabalhadas habilidades relacionadas à teoria da mente, que envolve compreender que outras pessoas podem ter desejos, conhecimentos, crenças e perspectivas diferentes de si. A partir desses aspectos, a criança é motivada a interpretar e supor o comportamento de outra pessoa.
Uma das cartas mostra uma menina segurando uma fatia de bolo e um pirulito, possivelmente interessada nos dois itens. Ao lado, um menino com duas caixas ilustrativas de pensamento: uma com o polegar para cima, em positivo, para o bolo; outra para baixo, em negativo, para o pirulito. Na parte inferior da carta, o pequeno jogador deve escolher, entre duas imagens, a que mais representa o desfecho da interação entre a menina e o menino.
A situação indica que duas pessoas podem ter desejos diferentes uma da outra – gostar de bolo ou pirulito -, e isso pode ocasionar comportamentos distintos, como a escolha por um objeto que não é o mesmo de um interlocutor. Parece simples, mas quem nunca desejou que o outro escolhesse a mesma coisa que si mesmo?
Por que é importante

Primeira infância é um período sensível ao neurodesenvolvimento humano (Foto: Equipe Curiosamente)
A realização da intervenção com crianças, em idade pré-escolar, é motivada pela possibilidade de habilidades emocionais aprendidas no início da vida se perdurarem.
“A primeira infância é um período particularmente sensível do neurodesenvolvimento humano. Nos primeiros anos de vida, os neurônios se conectam em uma velocidade que não se repete em outro momento da vida. E são as experiências que decidem quais conexões permanecem. Cada interação, cada brincadeira, cada vínculo participa da construção do cérebro da criança”, explica Nara.
As habilidades socioemocionais são um conjunto amplo e complexo de habilidades. Incluem a capacidade de reconhecer, nomear e compreender emoções, tanto as próprias quanto as dos demais.
“Mas também de aprender a lidar com as nossas emoções, com as frustrações, resolver conflitos, cooperar, construir relações, compreender diferentes perspectivas e tomar decisões considerando a si mesmo, o outro e o contexto. São habilidades essenciais para a convivência, a construção de vínculos, o bem-estar e a saúde mental”, resume.
Três grupos

Pesquisadoras seguiram diversos critérios para manter a qualidade do estudo, com grupos de controle e equipes diferentes para aplicação e avaliação (Foto: Equipe Curiosamente)
Ao todo, participaram do estudo 107 crianças, entre 5 e 6 anos, distribuídas em três grupos para efeitos de comparação e qualidade da pesquisa: um em que a brincadeira era um jogo de matemática do Curiosamente; outro sem qualquer jogo ou intervenção; e, por fim, um com o CuriosaMente, focado em habilidades socioemocionais.
A pesquisa durou dez semanas e foi realizada com crianças que estavam no último ano pré-escolar, de seis escolas públicas, em Salvador (BA), pertencentes a famílias com baixa renda. Uma das instituições parceiras do estudo é a Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Para comparar os resultados entre os grupos, cada criança participou de duas avaliações psicológicas – realizadas um mês antes e um mês depois da intervenção com o jogo. Entre outros aspectos, os testes envolviam reconhecer e nomear emoções, diferenciar uma emoção da outra e averiguar a capacidade de supor o estado mental de outra pessoa.
Para fins de qualidade da pesquisa, foi aplicado o método “duplo-cego”: quem aplicava a avaliação não sabia a que grupo cada criança pertencia. “Uma das revisoras da revista descreveu a pesquisa como pioneira e como modelo exemplar de intervenção em habilidades socioemocionais”, afirma a professora.
Ganhos

Foco dos dois jogos são o desenvolvimento de habilidades socioemocionais (Foto: Equipe Curiosamente)
As pesquisadoras observaram que as crianças que participaram da brincadeira com o CuriosaMente obtiveram ganhos em reconhecimento e nomeação de emoções e na compreensão de situações sociais associadas a emoções. Antes da intervenção, esse grupo tinha até mesmo índices inferiores aos dos outros dois conjuntos. “Mas também houve habilidades na qual não encontramos evidências de efeitos significativos, especialmente algumas dimensões relacionadas à teoria da mente.”
Já as crianças que não tiveram contato com o novo joguinho não mostraram progresso em habilidades socioemocionais. Em alguns casos, as crianças dos dois grupos sem a intervenção tiveram declínio em traços de cognição social.
Em consonância com outras pesquisas, os ganhos verificados mostram que jogos interativos e estruturados são fortes ferramentas na educação na primeira infância para alavancar o aprendizado emocional e social, mesmo ante adversidades.
Pobreza e efeitos

Desigualdades sociais e exposição à violência trazem impacto no desenvolvimento de habilidades emocionais (Foto: Equipe Curiosamente)
Outros pontos importantes destacado pelas pesquisadoras são as marcas deixadas pela pobreza e as desigualdades sociais no neurodesenvolvimento. Também questionam que, mesmo sabendo dessas marcas, poucas intervenções ocorrem em países não desenvolvidos econômica e socialmente.
Diversas investigações científicas, listadas pelas autoras, associam pobreza, isolamento social, exposição à violência e lacunas no apoio familiar a interferências no aprendizado e dificuldades cognitivas, sociais e emocionais.
Essas falhas podem ter impactos, ao longo da vida, e afetar a qualidade de vida. A pobreza até mesmo afeta bases cerebrais relacionadas ao desenvolvimento social, cognitivo e emocional, de forma que pode comprometer aprendizados futuros.
“As desigualdades sociais, étnico-raciais, de gênero, por exemplo, e de pessoa com deficiência também produzem desigualdades nas oportunidades de desenvolvimento. As crianças não chegam à escola com as mesmas experiências, os mesmos recursos, as mesmas oportunidades”, explica Nara.
Apesar dos benefícios evidentes, as intervenções, como os jogos de cognição social, raramente são adaptados à realidade local das comunidades e há lacunas em evidências empíricas quando aplicadas em países de baixa renda ou média renda, como Bolívia, Brasil e China. Um dos destaques da pesquisa é ir contra esse paradigma e atender a realidade desses países.
O próprio CuriosaMente se inspirou em um jogo aplicado na Índia por parte da equipe e fez um modelo próprio para a realidade local. Para chegar à versão final do jogo, a equipe, além de se basear em pesquisas, contou com a colaboração de professores do ensino básico, outros profissionais de psicologia e de crianças.
Como toda pesquisa, esta também apresenta limitações, como a quantidade relativamente pequena de participantes, as especificidades do contexto geográfico e cultural que impedem a generalização dos resultados e possíveis melhorias para abarcar mais traços de teoria da mente. No entanto, como também apontam as pesquisadoras, a aplicação trouxe evidências iniciais e promissoras da intervenção. “O passo seguinte é justamente avaliação em maior escala.”
O estudo foi desenvolvido por dez pesquisadoras de oito instituições dos três países. Além da UFJF e da UFBA, assinam o artigo integrantes da Universidade Federal de Santa Catarina, das universidades de São Paulo, Nova York (EUA) e Montreal (Canadá), da Universidade Harvard (EUA) e do Centro de Pesquisa Azrieli do Hospital Ste-Justine, também de Montreal. Já o programa “Caminhos da Escola” é financiado pelo Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (J-Pal), com sede nos EUA, Fundação Bracell e Itaú Social.

Projeto deve ser ampliado para mais escolas e, em 2028, ficar disponível on-line (Foto: Equipe Curiosamente)
Outras informações
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