
20º Congresso Brasileiro de Limnologia reuniu mais de 2000 pessoas na Praça Cívica da UFJF. (Foto: Felipe Enzo)
No período do dia 20 à 24 de julho, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) sediou o 20º Congresso Brasileiro de Limnologia (CBL), sendo palco de um dos encontros mais importantes da ciência das águas doces na América Latina. O evento reuniu mais de 1400 participantes, englobando cientistas, estudantes de diversas etapas acadêmicas e gestores públicos. Foram cerca de 800 trabalhos enviados, 206 inscritos nos minicursos e sete livros lançados ao longo do evento. O congresso abriu as portas para a sociedade e registrou mais de 500 visitas ao longo dos quatro dias de atividades, estabelecendo um canal direto de diálogo com a população.
O ecossistema de discussões científicas e de formulação de políticas públicas do Congresso conectou diferentes setores da sociedade em prol do gerenciamento sustentável dos recursos hídricos. Nathan Barros, professor do Departamento de Biologia da UFJF e integrante da comissão organizadora do evento, ressaltou o papel central dessa articulação. “Conseguimos receber muitos gestores e colocamos esses gestores para dialogar com cientistas. E quem ganha nisso é a sociedade”, aponta.
De Juiz de Fora para o Ministério do Meio Ambiente
No âmbito prático e normativo, o encontro gerou contribuições substanciais para o debate ambiental brasileiro, resultando na criação de produtos orientadores e na redação da Carta de Juiz de Fora. “Um dos produtos é um plano metodológico nacional de emissões e sequestro de gás de efeito estufa na agricultura. Nós temos documentos que vão nortear as ações do Ministério do Meio Ambiente e a utilização da água na produção de alimentos”, conta Barros.
Além desses produtos colaborativos, a Carta de Juiz de Fora sintetizou as reflexões coletivas do evento. Barros conta que “a Carta foi escrita a muitas mãos e está sendo revisada e aprovada agora por todos os participantes do Congresso. A carta traz uma visão geral de tudo o que foi discutido no evento e os 11 pontos principais que, na nossa opinião, são pontos cruciais para a gente poder manter a água, a qualidade da água e a disponibilidade de água para as gerações futuras.”
Crianças exploram trilhas de conhecimento em limnologia

Travessia Jovem de Limnologia recebeu diariamente mais de 100 crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos. (Foto: Divulgação)
A Travessia Jovem de Limnologia recebeu diariamente mais de 100 crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos. A iniciativa educativa atendeu a duas frentes sociais: 40% do público infantil consistia de filhos de congressistas e 60% era formado por alunos da rede pública de ensino de Juiz de Fora. “Além de facilitar a inclusão das pessoas que têm filhos pequenos no evento, a ação também ajuda na formação de uma geração com mais consciência ambiental e com mais conhecimento em relação à necessidade de preservação e conservação dos ambientes aquáticos”, destaca Barros.
Durante a programação da Travessia, o público jovem percorreu oficinas imersivas, como exibições no Cinema 360° sobre o Rio Araguaia, dinâmicas práticas na oficina Missão Água Limpa sobre filtragem hídrica, e a montagem de terrários funcionais para compreender o equilíbrio dos ecossistemas. Giselle Magalhães, pesquisadora do Laboratório de Biologia Celular e parte da comissão organizadora da iniciativa, explica que a abordagem articulou sustentabilidade e bem-estar humano. “Na trilha de saúde ambiental, as crianças puderam compreender como a degradação ambiental, o desmatamento e a destruição de nascentes impactam diretamente a saúde humana e animal, favorecendo o surgimento de endemias e até pandemias. Dessa forma, perceberam que cuidar do meio ambiente também significa cuidar das pessoas”, conta.
Investir em comunicação científica para o público jovem é investir na formação de cidadãos mais conscientes e comprometidos com a conservação ambiental, Giselle Magalhães.
A programação integrou ainda apresentações artístico-culturais pelo Circo Afeto e foi encerrada com uma vivência no Jardim Botânico da UFJF. Giselle aponta que as atividades foram desenhadas alinhadas à Agenda 2030 da ONU e destacou o impacto no encerramento: “A Travessia foi encerrada com uma visita ao Jardim Botânico da UFJF, onde as crianças puderam vivenciar, na prática, os conceitos trabalhados durante toda a semana. O contato direto com a Mata Atlântica, as trilhas, os lagos e a biodiversidade permitiu consolidar os conhecimentos adquiridos, reforçando a importância da conservação dos ecossistemas e despertando o sentimento de pertencimento e responsabilidade ambiental”.
Concluindo sobre o papel das futuras gerações na proteção dos recursos naturais, a pesquisadora reforça que investir em comunicação científica para o público jovem é investir na formação de cidadãos mais conscientes e comprometidos com a conservação ambiental. “As crianças têm uma enorme capacidade de aprender, questionar e compartilhar o conhecimento. Ao vivenciarem a ciência de maneira prática, lúdica e significativa, elas se tornam multiplicadoras dessas informações, levando o que aprenderam para suas famílias, amigos e escolas. Nosso objetivo foi justamente despertar a curiosidade científica, fortalecer a conexão com a natureza e mostrar que compreender e proteger os ecossistemas aquáticos é um compromisso de todos”.
Premiação de trabalhos e lançamento de livros
Com o objetivo de estimular a formação de recursos humanos e a pesquisa científica em Limnologia, a Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno) concedeu o Prêmio Harald ao melhor trabalho de pesquisa realizado. O trabalho vencedor foi “Damming and ENSO events influence the compositional trajectories of fish communities”, da doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás (UFG), Catarina de Castro Alves Frischknecht, orientada por Luis Mauricio Bini.
Durante o congresso, sete livros foram lançados: “Diálogos Regenerativos para Futuros Sustentáveis”, de Fábio Scarano; “A Inteligência das Águas” de Felipe Figueira; Vocação de Semente” de Moema Viezzer; “Flora Ficológica do Parque Estadual das Fontes Do Ipiranga” de Carlos Bicudo; “Ecologia e Pesquisa Transdisciplinar no Setor Elétrico: Resultados e Aprendizados do Projeto IBI UHE Furnas & UFMG” de Marcos Callisto e Carlos Bernardo M. Alves; e “Zooplâncton: A Vida invisível na água doce” de Thaís de Melo, semifinalista do Prêmio Jabuti 2026.
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