‘O Anjo Ferido’ inspirou a resposta do professor Fabio Scarano sobre sustentabilidade (Foto: Galeria Nacional da Finlândia/Hannu Aaltonen)

Ao visitar o museu de arte Ateneum, em Helsinque (Finlândia), o professor Fabio Scarano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se deparou com um quadro que lhe chamou atenção: “Anjo Ferido”, de Hugo Simberg, concluído em 1903. A pintura veio a ser a resposta a uma pergunta vinda de um aluno que intrigou o docente por um bom tempo. Questionou se ele já viu ou tem uma imagem da sustentabilidade – termo tão utilizado ou mesmo esvaziado atualmente, visto como solução para presente e futuro melhores.

O quadro retrata dois garotos carregando um anjo ferido em um tipo de maca. Embora retrate um ferimento, tenha tons mais escuros, somado ao semblante melancólico dos personagens, o quadro para o professor indica como os seres humanos podem ser capazes de socorrer até anjos. Esse traço se relaciona à origem etimológica da palavra sustentabilidade. Vem do latim “sustentare”, que significa cuidar, apoiar. Cuidar de si, do outro e do mundo. 

E para essa ética do cuidado é necessário vencer desafios, se reconectar consigo e com o mundo, de acordo com o palestrante, convidado do 20º Congresso Brasileiro de Limnologia (ramo que estuda rios, lagos, reservatórios e outros), que está ocorrendo, nesta semana, no campus da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A sociedade, de forma geral, está cansada, alienada e hiperconectada, conforme os filósofos Byung-Chul Han e Hannah Arendt (1906-1975), citados pelo professor. Ante o cansaço, mal se consegue imaginar e ter atenção – disputada função cognitiva afetada, em especial, pelo excesso de telas, atualmente. Isso também atinge a formação de memória, em uma sociedade que já possui dificuldades em valorizar seu passado. 

“Quem tem baixa memória e baixa atenção antecipa mal o futuro. E quem antecipa mal está fadado a sumir”, resume. Explica, por exemplo, que essa capacidade de se antecipar está presente em todo organismo vivo, de bactérias a seres humanos. Quando há falhas no reconhecimento, surge o risco de desaparecimento.  

Ao mesmo tempo, o sujeito moderno se alienou da natureza, como se não fizesse parte dela. No entanto, essa concepção não está presente em povos indígenas, por exemplo, que se veem parte intrínseca do todo, e com quem a sociedade pode aprender. 

“A gente se separou também do outro, não nos importamos com quem está ao nosso lado. E a tecnologia que trazia a promessa de mais tempo livre, trouxe, pelo contrário, mais ocupação e trabalho.” Mesmo o tempo livre, sob lógica neoliberal, está associado a um tempo que ainda precisa ser bem aproveitado, não bastam apenas momentos contemplativos. “Usamos o tempo para os fins que o imaginário social determina, como parecer ser mais produtivo.” Por isso, conforme o professor, um ponto crucial é saber o que fazer com o tempo de que cada um dispõe.

Professor Fabio Scarano destaca capacidade de povos originários em se anteciparem em relação ao futuro (Foto: Raul Mourão/UFJF)

A palestra de Scarano é toda pontuada por pinturas e fotografias. Há uma intenção clara: reforçar os sentidos das palavras e criar imagens de futuros. E assim como os artistas, há séculos, pintavam o que imaginavam do porvir, o sujeito contemporâneo poderia exercer essa prática com mais frequência. “Construir imagens de futuro é importante para poder caminhar em direção a essas imagens, ao que a gente deseja”, ressalta Scarano, que é também curador-geral do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Outro aspecto do quadro “Anjo Ferido”, destacado por Scarano, é a presença de uma venda no ser celestial, indicando a ideia de justiça. Nota ainda algumas plantas rasteiras no chão. São as primeiras a nascerem após a neve de inverno. Representariam cura e esperança. Em conexão aos saberes do escritor Antônio Bispo dos Santos (1959-2023), citado pelo palestrante, “a vida é começo, meio e começo”.

Utopias e esperança

Todo organismo vivo se antecipa ao futuro, como uma função adaptativa (Foto: Raul Mourão/UFJF)

Inspirado em uma história atribuída ao Padre Toledo (1731-1803), um dos líderes inconfidentes, Scarano conta que o religioso à época do Brasil Colônia, diante da insatisfação com as cobranças de imposto, lançou a ideia: “e se a gente se livrasse de Portugal?”. Uma ideia ousada demais, a princípio, mas necessária. Outros “e se…” são bem-vindos, conforme o palestrante, para que mais futuros sejam vislumbrados. 

O exercício imaginativo e pragmático se conjuga com utopias, esperança e mesmo fé. A “utopia concreta e do ainda não”, do pensador alemão Ernst Bloch (1875-1977), indica um permanente estado de que as coisas ainda não estão melhores, mas podem ser. O mundo ainda pode melhorar, a utopia seria motivadora para atitudes e ações. E isso envolve ter esperança em si e irradiar para os outros, além da fé de que é possível mudar. Nesse ponto, o professor ressalta o fato de o congresso, em Juiz de Fora, ter cerca de 1.500 participantes e outros 700 terem ido a evento regional sobre botânica em Viçosa (MG). Esses seriam sinais de ressurgimento da fé nesse campo de estudo e em mudanças.

“É preciso erguer uma nova imagem de futuro. Ter esperança começa em nós e em esperar também do coletivo. E fé para acreditar que as coisas podem ser melhores do que são.” Para uma reconexão com o mundo, é preciso estar presente, perceber, ter atenção. “Todo dia, se você estiver atento e presente, você tem um momento de receber uma graça, de reconexão com o mundo e consigo. A graça mora na transcendência, no “transumanar”, de Dante Alighieri (1265-1321). Se entrar no automático, você perde presença, atenção, memória.” 

O 20º Congresso Brasileiro de Limnologia prossegue até esta sexta-feira, 24, principalmente, na Praça Cívica, no campus. Além de inscritos, o evento também abre diariamente 300 vagas gratuitas para qualquer pessoa interessada. Basta ir presencialmente à tenda de credenciamento, na praça. Confira a programação completa.

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Outras informações:
20º Congresso Brasileiro de Limnologia
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