A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) se despede hoje, 24, do 20º Congresso Brasileiro de Limnologia (CBL), maior evento sobre águas da América Latina. Ao longo da semana, a praça cívica da UFJF foi tomada por plenárias que reuniram cientistas, gestores, representantes do poder público, empresas e membros da sociedade civil de todo o país para discutirem diferentes temáticas relacionadas a água, seus usos e conflitos.
Um dos pontos altos da programação foi a plenária “Brasil rumo à conferência das Nações Unidas sobre a água”, ocorrida na terça-feira, 21, que orientou a redação da Carta de Juiz de Fora. A Carta é um documento final com propostas que serão levadas para a próxima edição da Conferência das Nações Unidas sobre a Água, prevista para ocorrer entre 8 e 10 de dezembro de 2026, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Valdelice Veron ao lado do também palestrante do evento e pesquisador Francisco Assis Esteves, da UFRJ. (Créditos: Lv Mídias e Doizz criativo)
Temas e convidados
Divididos em blocos, os presentes discutiram os seis eixos centrais da conferência da ONU sobre o tema: água para as pessoas, água para o planeta, água para a prosperidade, água para a cooperação, água para processos multilaterais e investimento para a água. As representantes dos povos Guarani-Kaiowá, Valdelice Veron; da juventude consciente, Luiza Vieira Caleia; do ecofeminismo, Moema Viezzer; e do Quilombo do paiol, Mãe Zezé, abriram os trabalhos na proposição de enfrentamentos aos problemas ligados à falta e ao excesso de água no Brasil.
Com a presença de Nathan Barros, professor do Departamento de Biologia da UFJF e integrante da comissão organizadora do evento, outros especialistas no assunto compuseram os blocos seguintes, como Nelton Friedrich, Samuel Barreto e Franklin de Paula Junior, todos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR); Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe); Renata Araújo, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad-MG); e Aparecida Vargas, do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap), entre outros convidados.
“Para fazer o papel falar, tem que ir nas terras indígenas para ver como os agrotóxicos estão matando nossas águas, matando nossas crianças e mulheres pelo envenenamento da água”, instiga Valdelice Veron, liderança Guarani-Kaiowá.
Para fazer o papel falar
Valdelice Veron é liderança indígena, mestra em Desenvolvimento Sustentável e doutoranda em Antropologia, e defende que a Carta de Juiz de Fora inclua as violências do descaso sofridas pelos povos tradicionais. A liderança luta, há anos, contra o genocídio indígena, pelas questões climáticas e pela demarcação das terras indígenas que estão sobre o Aquífero Guarani, grande reservatório subterrâneo de água sob partes dos territórios de quatro países: Uruguai, Argentina, Paraguai e, principalmente, Brasil, que abriga cerca de 71% da área total do Aquífero.
No solo do Mato Grosso do Sul, de onde vem a liderança Kaiowá, as demarcações seguem em ritmo lento. Em sua fala, Valdelice destaca os geracionais e constantes conflitos fundiários que envolvem a demarcação de terras para os povos Guarani e Kaiowá e relembra a trajetória sangrenta que acometeu e acomete, ainda hoje, a sua família.
Na plenária, Valdelice disse que é preciso “fazer o papel falar” para que não haja mais descaso com os povos tradicionais, e sim demarcação e homologação de terras sagradas tanto para os Guarani-Kaiowá quanto para a sociedade não indígena, que também depende do aquífero pela sua influência no clima e no abastecimento de rios e nascentes.
“Meu bisavô morreu pelos não indígenas, meu avô morreu pelos não indígenas, meu pai morreu pelos não indígenas e eu sou marcada para morrer” – Valdelice Veron.
Para a futura matriarca, o descaso com a homologação de territórios tradicionais produz não só a morte do conhecimento, das florestas e do povo Guarani-Kaiowá, mas a morte lenta (igual às demarcações por fazer) de toda uma sociedade que precisa da água para viver.
“Ninguém consegue proteger aquilo que não foi ensinado a amar”
Luiza Vieira Caleia, ativista mineira que luta pela preservação do meio ambiente, vai ao encontro de Valdelice ao defender que o documento final retirado do debate deva citar as violências do descaso e as múltiplas dimensões que envolvem a água. Luiza sustenta que, assim como os povos tradicionais, a juventude também é silenciada, “a exemplo do que se vê sobre a violência de gênero contra meninas ser maior do que a violência de gênero contra mulheres”, afirma.
A jovem faz parte da LCOY Brasil, organização que realiza conferências lideradas por jovens sobre mudança do clima no Brasil, e contribuiu com a declaração nacional escrita e enviada oficialmente à COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima realizada em Belém, no Pará, em novembro de 2025. Além disso, Luiza integra o Girl Up, movimento de meninas unidas pela justiça de gênero, e também construiu a declaração de meninas sobre o clima, divulgado em 2025.

Mãe Zezé do Quilombo do Paiol ao lado de Luiza Vieira Caleia da juventude consciente. (Créditos: Lv Mídias e Doizz criativo)
Em sua fala, a ativista destaca que as soluções para os problemas da água devem estar baseadas nas experiências de quem os sofre, como os 2,1 milhões de jovens brasileiros que vivem sem acesso adequado à água potável e as 224 mil crianças e adolescentes que estudam em escolas públicas sem nenhum tipo de acesso à água.
Luiza também lembrou o artigo 225 da Constituição Brasileira, que estabelece que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é direito fundamental de todos e que a sua preservação é dever de toda a coletividade. Dever que garante a qualidade de vida das presentes e futuras gerações e que protagoniza a mudança de percepção necessária sobre o uso da natureza. Essa natureza que, para Luiza, não foi amada pelas antigas gerações e nem é protegida pelas atuais.

A ecofeminista Moema Viezzer. (Créditos: Lv Mídias e Doizz criativo)
Água como direito universal
A plenária que discutiu as propostas do Brasil para a conferência internacional também contou com a ecofeminista Moema Viezzer, que reforçou o citado por Luiza sobre a necessidade de mudança de percepção sobre o uso da água: “Atualmente, vemos a água como bem de consumo, não como direito universal”, declara.
A escritora e socióloga brasileira criticou a mercantilização da água que, em 2020, passou a ser negociada na bolsa de valores, e defendeu que não existe direitos humanos universais sem existir água boa para todos. “E ‘água boa para todos’ não deve significar apenas água para os seres humanos, mas também para a biodiversidade, para os animais, os vegetais, os povos tradicionais etc.”, lembrou Moema.
Policrise e preservação dos ecossistemas
Nos blocos seguintes, os convidados provocaram os presentes a traçar uma estratégia de país melhor a partir da premissa de que se vive, hoje, as consequências de uma policrise.
“À conferência mundial, devemos mandar mais que uma carta. Devemos produzir um mapa dos caminhos das águas a partir da ideia de que vivemos as consequências de uma policrise: a crise da (in)justiça social, a crise do clima, do meio ambiente, da fome, do alimento, do petróleo”, aponta Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe).

Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe). (Créditos: Lv Mídias e Doizz criativo)
Samuel Barreto, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), reforçou o enfrentamento às policrises ao especificar que a origem do problema do clima deriva da crise da água e de todas as outras crises naturais. Ele lembrou que quase 40% das soluções climáticas do mundo advém das soluções da natureza e tem esperança no despertar da sociedade para manter o que ainda funciona e antecipar-se ao esgotamento dos recursos naturais.
“Há necessidade de gestores estarem por dentro de todas as escalas de informação, da aldeia indígena ao gabinete do tomador de decisões” – Jean Ometto.
O congresso
O XX Congresso Brasileiro de Limnologia encerra sua programação nas dependências da UFJF e em espaços de Juiz de Fora nesta sexta-feira, 24. Todos os dias, 300 vagas foram disponibilizadas gratuitamente para a participação do público geral, interno ou externo à Universidade. A presença da sociedade civil não especialista no assunto enriqueceu os debates com pluralidade de ideias e realidades e contribuirá para a redação final da Carta de Juiz de Fora.
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