Aproximar a Universidade das comunidades do entorno, por meio do conhecimento. É o que é feito pela instituição no programa de extensão Boa Vizinhança Línguas, que completa 20 anos de seu lançamento em 2023. Na iniciativa, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) oferece cursos de idiomas, preferencialmente a moradores dos bairros próximos ao campus.

Atualmente, o programa conta com 446 alunos matriculados nos oito cursos de línguas: Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Grego Clássico, Latim, Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Português como Língua de Acolhimento (Plac). A cada semestre, a Universidade recebe 280 novos estudantes. Os cursos oferecem conteúdo básico de cada um dos idiomas e são divididos em três módulos, com duração total de 180 horas, distribuídas ao longo de 18 meses. Ao final, os estudantes recebem certificado conferido pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex).

Registro do lançamento oficial do Boa Vizinhança Línguas em 2003 (Foto: Arquivo Central/UFJF)

De acordo com a pró-reitora adjunta de Extensão e coordenadora do programa Boa Vizinhança, Fernanda Cunha Sousa, além do aprendizado do idioma, a iniciativa insere a UFJF nas perspectivas de vida dos alunos do programa. “Pessoas que passaram pelo programa relatam a mudança em suas vidas. E muitos deles contam que, a partir dessa primeira participação, abriu-se o desejo de se integrar à comunidade universitária.”

É o caso da estudante Ester Maria da Silva, que faz o curso de Libras do programa Boa Vizinhança. Moradora da parte alta do bairro Dom Bosco, Ester teve um contato inicial com a língua de sinais em sua graduação em Pedagogia, realizada na Faculdade do Sudeste Mineiro (Facsum), instituição privada de ensino superior. Posteriormente, a estudante buscou outros cursos sobre o tema, que sempre eram encerrados depois de um ou dois módulos. “Conheci alguns sinais, mas nunca consegui chegar a conversar com um surdo, a ponto de ele conseguir me entender.”

Estudante do curso de Libras do Boa Vizinhança, Ester se dedica à inclusão de pessoas surdas e planeja fazer mestrado em Educação na UFJF (Foto: Luisa Cattabriga)

Após se formar, Ester atuou na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, onde sua vontade de trabalhar com Libras encontrou vazão ao participar de um projeto sobre inclusão e acessibilidade do hospital. Ester decidiu tentar o ingresso no Boa Vizinhança após conhecer o projeto pela página oficial da iniciativa no Instagram e por meio de pessoas conhecidas que já tinham passado pelo programa de Extensão. Para a estudante, fazer o curso de Libras representa a oportunidade de iniciar uma nova etapa de sua trajetória como pedagoga.

“Acredito que não é um caminho que vai se encerrar quando chegar julho, que é quando acaba o curso, mas sim que vai começar um novo ciclo na minha carreira. Eu vou poder fazer parte, na prática, da inclusão das pessoas surdas”, afirma Ester, que planeja fazer mestrado em Educação na UFJF. “Muitas pessoas não têm entendimento do que é uma pessoa surda. Promover essa acessibilidade, essa inclusão, é uma forma de acolher esse mundo da língua de sinais.”

Transformar a vida por meio do aprendizado

Contribuir para o desenvolvimento da autonomia linguística aos alunos. Essa é a função do estudante do sétimo período da Licenciatura em Letras: Português-Francês, Cassius Cesária, como bolsista do curso de Português como Língua de Acolhimento (Plac) do programa Boa Vizinhança Línguas.

Segundo o estudante, o público do curso é formado, principalmente, por pessoas refugiadas. Dessa forma, os alunos têm urgência em conhecer a língua. “A maioria deles chega sem falar nada de Português. Nós incluímos conteúdos culturais, históricos, conversamos com os alunos sobre assuntos interdisciplinares, sempre usando a língua como ferramenta de trabalho.”

Ainda de acordo com Cassius, recentemente, o público do curso passou a ficar mais diverso, com a presença de pessoas estrangeiras não refugiadas que residem em Juiz de Fora. Na avaliação do estudante, o curso desempenha um papel fundamental na promoção da cidadania dos estudantes, visto que oferece a oportunidade essencial de se comunicar efetivamente no idioma oficial do Brasil.

Formatura do Boa Vizinhança Línguas em 2019 (Foto: Gabriela Maciel/UFJF)

“A língua perpassa vários aspectos da nossa vida. Para conseguir um emprego e desenvolver afetos, é importante saber se comunicar com ela. E é muito interessante estar junto a eles no processo de construir o conhecimento, para que eles possam entender e se fazer compreender no trabalho e na vida pessoal”, reflete. “A experiência que eu tenho no projeto reforçou para mim, que essa é a área em que eu quero seguir trabalhando no futuro.”

Avaliação semelhante é feita pela estudante Maria Fernanda Cassani, do curso de Licenciatura em Letras: Português-Italiano. A estudante é bolsista do Curso Básico em Língua Italiana do Boa Vizinhança e conta que, já na graduação, tem experiências de um docente: buscar conteúdos da atualidade para serem trabalhados nas aulas, ler textos para se preparar para as aulas, entre outras atividades. Para a jovem, o contato com pessoas de diferentes idades, profissões e condições socioeconômicas também é benéfico para a sua formação pessoal.

“Nós temos uma troca de experiências muito gostosa, por eu estar ali para facilitar o aprendizado deles, mediar, dar indicações. Mas eles são pessoas que sabem muito mais da vida, do mercado de trabalho, da cidade, porque a maioria é daqui e eu não sou, então me dão muitas dicas”, conta a estudante, natural de Além Paraíba, na Zona da Mata Mineira, divisa com o estado do Rio de Janeiro.

Maria Fernanda é bolsista do Boa Vizinhança desde fevereiro de 2023. “É uma oportunidade dos interessados buscarem outros conhecimentos e interações sociais, porque eles fazem muitas amizades dentro do curso. É de extrema importância dar às pessoas, a oportunidade de estudar e aprender”, afirma.

Integração com afeto

Alunos do curso de Libras do Programa Boa Vizinhança em sala de aula (Foto: Luisa Cattabriga)

Além dos cursos de línguas, a Pró-Reitoria de Extensão, por meio do programa Boa Vizinhança, oferece outros serviços para a comunidade do entorno do campus universitário. Essas ações passaram a acontecer com o retorno e ampliação do projeto, ocorridas em 2016. A oferta de cursos de línguas também aumentou, chegando ao número atual em 2018.

Para a correta identificação das demandas da população dos bairros, são feitos levantamentos junto a essas comunidades. Na sequência, a Proex promove a abertura de editais para a comunidade acadêmica, voltados à inscrição de projetos de extensão em resposta às demandas apresentadas.

Na avaliação da pró-reitora adjunta de Extensão e coordenadora do Boa Vizinhança, Fernanda Cunha Sousa, acolher as pessoas do entorno da UFJF tem um caráter simbólico relevante. “O programa integra continuamente a Universidade e a sociedade, inclusive com uma afetividade. É muito importante que esse vínculo esteja agregado ao saber acadêmico que se produz na Instituição.”

Pró-reitora adjunta de Extensão, Fernanda Cunha Sousa, é coordenadora do Boa Vizinhança (Foto: Carolina de Paula/UFJF)

Para Fernanda, essa integração é benéfica não apenas para os alunos do programa, mas também para a formação continuada de professores, estudantes e servidores técnico-administrativos da Universidade que participam do projeto. Nessa troca, é possível que haja uma melhor compreensão mútua. “Nós também estamos em constante transformação e aprimoramento. Estarmos conectados com demais segmentos da sociedade, torna o nosso trabalho e a formação do nosso estudante cada vez melhor e mais crítica. Ficamos mais cuidadosos, dispostos a ouvir e trocar.”

O programa Boa Vizinhança foi lançado em abril de 2003, na gestão da professora e atual prefeita de Juiz de Fora, Maria Margarida Martins Salomão, como reitora da UFJF (1998-2006). O programa passou por período de pausa e foi retomado em 2016, com a oferta de cursos de idiomas, além de outros serviços, sendo uma iniciativa consolidada promovida pela UFJF.

Para obter informações sobre o BV, acesse as páginas da Pró-Reitoria de Extensão da UFJF (site e Instagram).

Outras informações:

(32) 2102-3959/2102-3961 – Programa Boa Vizinhança Línguas

boavizinhanca.extensao@ufjf.br