
Percília
Com quem ela não conhece, é meio calada, tímida. Depois, mais à vontade, começa a contar coisas da vida, com jeito manso, fala baixa, uma risada que parece não querer se mostrar mas que ilumina à sua volta. Aquilo que Percília diz é também muito claro, revela um caráter firme, lutador, de quem não tem dúvidas sobre o que quer nem sobre o que já quis em toda a vida.
Percília Margarida Silva Fortuna nasceu em 1931 em Silverânia, Rio Pomba, perto de Ubá, nas Minas Gerais. Ali viveu a infância, adolescência e parte da juventude. O pai, José Ananias da Silva, trabalhava na roça, recebia um pagamentozinho todo sábado, a conta de comprar o que comer durante uma semana, e só. Mas nem sempre dava, se almoça não janta, fome a família já passou. Eram doze filhos, meu Deus, aquela escadinha, Percília e onze irmãos, e a mãe, Maria Inácia de Jesus, esta trabalhando apenas a troco de comida. Na roça, assim, a gente não ganhava nada, não tem como um ajudar o outro, ninguém não tem mesmo, né?, era muito difícil. Dinheiro pouco, mas a saúde era boa, ainda bem que ninguém adoecia que precisasse comprar remédio.
Meninada descalça brincando e andando por aí, duas mudas de roupa, quando veste uma lava a outra. Criança cresce um pouquinho já é tempo de trabalhar. O fazendeiro dá um rancho para a família morar, e esta que dê um jeito de levar a vida. Ia aquela turma de menino trabalhar lá na roça. Capinar, e no tempo de colher, apanhar café. Plantar milho, arroz, feijão. O arroz era plantado no brejo, ficavam o dia todo Percília e os irmãos atolados na água, plantando arroz. Tinha pilão, sabe?, pra ponhar o arroz, soprava, separava daquele que a gente fazia pra comer, a gente mesmo que limpava o arroz. Plantavam muita verdura, abóbora, quiabo, comiam angu, canjiquinha. Macarrão, só no domingo.
Nada de escola. O pai, bravo, ensinava e castigava. Se ele mandasse uma coisa e os filhos não fizessem, quando chegava tinha que acertar as contas. Todos com medo de levar um couro. Em volta da casa tinha roça para uso da família. Antes de ir trabalhar, José Ananias marcava a tarefa de cada um ali naquele quintal enorme, grandão. Chamava e dizia tudo direitinho o que era para fazer, cuidar, capinar. À tarde voltava e ia ver o que os filhos tinham feito. Não fez, castigo na certa, batia mesmo, todos tinham que andar na linha.
— O meu irmão mais velho era muito levado, Deus que o tenha! Porque ele mereceu… Meu pai marcava o pedaço maior pra ele capinar. O que ele fazia? Ia, pegava a enxada lá longe, capinava e jogava o mato da gente tudo em cima da parte dele, pra esconder o serviço que não fez. Aí num instantinho acabava, e ainda ficava debochando da gente, já acabei, e vocês, cambada de moleza? Chegava de tarde, o meu pai passava a mão numa varinha assim, e ia levantando o mato que estava por cima, quando via na parte de meu irmão estava tudo lá. Fazia ele capinar, já escurecendo, então não enxergava nada e o meu pai lá… Aí ele apanhava.
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Percília vivia se mudando, de um lugar pra outro, que nem cigano. (Ilustração: Marlene Perlingeiro Crespo)
Percília vivia se mudando, lembrança forte de não ter onde ficar, de sair de um lugar para outro, que nem cigano. O pai dela não dava muito certo com os donos da terra, que mandavam todos embora, e toca a ir atrás de outro lugar para viver e trabalhar. — Moradia era assim, sabe? Ia a turma toda, andando pela estrada descalço, não tinha condução nem nada. A mudança, em cima de burro, não tinha nenhum móvel para levar. Enrolava colchão de palha de milho, punha de um lado e de outro do animal e já vai embora a mudança, as panelas dentro do caixote, que o pai amarrava. –– Aí, mania de pobre, a gente não estava aguentando com as coisas e ainda arranja cachorro, aquela cachorrada acompanhando na mudança! Dependendo do lugar não dava tempo de chegarem no mesmo dia, então dormiam ali mesmo onde a noite os encontrava na estrada.
Com tanta andança, o pai depois virou tropeiro. Percília, tão pequena. José Ananias andava o mundo com tropa, não era igual agora, que tem caminhão, tudo era poder dos animais. Colheita de arroz, de feijão, de milho, com a tropa vivia andando e levando mantimento que apanhava nas fazendas, ia entregar nas cidades. O pai viajava e a mãe coitada ficava na fazenda, trabalhando, lavando roupa. Tinha aqueles monjolos, fazia farinha de biju, farinha de mandioca, ralava aquela mandioca toda, não tinha máquina de ralar nada, eram aqueles ralos grandões, juntava aquela porção de senhoras para trabalhar, um ganho para cada pessoa, botava todo mundo para ralar mandioca, tudo na mão.
A mãe era mais calma, mas também impunha respeito. Não batia. Um olhar já bastava para se saber o que queria dizer. Quando chegava alguém na casa e ela estava conversando, não tinha menino ou menina que interrompesse, ela olhava de banda e saíam todos de fininho. Não podia passar nem perto. Lição era dada assim, em casa, porque escola, nem pensar. Ninguém estudava, em algumas fazendas ia uma professora dar aula, mas era difícil, os lugares, muito distantes, sem transporte. A mãe ia trabalhar, um cuidava de varrer o terreiro, o outro de molhar as plantas. –– Porque toda vida a gente gostou de planta…
Era a roça mas também o trabalho doméstico, não tinha folga de nada, cada um na sua obrigação. Tinha que cuidar da horta, molhar, não havia água dentro de casa, ‘bora buscar na mina, longe. Um enche balde d’água, traz para casa, outro cuida de arear as vasilhas, limpar fogão. A casa era de chão de terra mesmo, estavam sempre limpando, varrendo, a mãe gostava de tudo limpinho. Nada de ir atrás de brincar por aí, ficar conversando, os ranchos das famílias eram isolados uns dos outros. Ficavam então dentro de casa mesmo, ou no quintalzinho, esperando a hora da mãe chegar do serviço. Aí às vezes tinha um terço ou uma festinha, aniversário de alguma criança, então brincava, reunia as coleguinhas todas, brincava de roda, só brincadeira assim bobinha de jogar peteca, pular corda.
Já um pouco maior, Percília foi trabalhar de babá com a mulher do dono de uma venda ali perto. Era para ficar uns dias, ficou até os 19 anos, só saiu porque a mulher morreu, deixou oito crianças pequenas, e o pai de Percília não quis mais deixar a filha ficar lá. A irmã dessa senhora era governanta do bispo em Juiz de Fora, foi lá ajudar a ficar com as crianças, e falou que não ia deixar Percília voltar a trabalhar na roça, de jeito nenhum! Conversou com a mãe dela, arranjou emprego na cidade, de doméstica. A vida de capinar acabava para Percília, começava uma nova história, de trabalhar em casa de família.
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Os ensinamentos da mãe de Percília a ajudaram a saber cuidar de uma casa, cozinhar, lavar, passar, limpar. Ficou três anos com a primeira patroa, daí saiu em 1954, passou uns meses em Volta Redonda, gostava de um moço, mas não deu certo, e ainda foi roubada por lá, e ganhava menos… Então voltou para Juiz de Fora, arrumou outro emprego, precisava ganhar mais para ajudar a mãe e os irmãos que haviam ficado para trás. O pai havia saído um dia de tropeiro e nunca mais souberam dele, foi lá para os lados de Ponte Nova, não deu mais notícia, sumiu no mundo, a mãe, esperando o caçula. Percília foi trazendo as irmãs para a cidade, arrumava um trabalhinho para elas, trouxe até o irmão, sem emprego mesmo, mas ele foi fazer biscate e se virou. Eram os anos 1958, 1959, 1960.

Ao chegar em Juiz de Fora, Percília não sabia ler nem escrever. (Ilustração: Marlene Perlingeiro Crespo)
A moça não sabia nem ler nem escrever, não sabia nada, nem quando tinha nascido. A patroa quis mandá-la para as aulas noturnas do Grupo Central. — Na minha cabeça eu achava assim, que a gente aprendia a ler só quando era pequeno, e que depois que fica adulto achava que não entendia mais nada. Falei, ah!, não, não vou não, porque agora já estou grande, não vou aprender mais nada. Como as aulas já haviam começado (era mês de abril, até isso Percília lembra) achava também que as colegas dariam risada da cara dela. Mas a patroa não quis saber, teimou tanto, matriculou Percília, foi junto uns três dias. Difícil, o começo. A professora, paciente, ajudava. A patroa também, comprou caderno, livro, ficava com ela passando a lição. Ensinou também a ver as horas. — Ai meu Deus, como sofri! Mas foi bom. Porque aprendi alguma coisinha, né? Comecei a olhar as horas direitinho. Aí eu já fui gostando. Falei: opa!, as coisas estão melhorando!
Aos poucos a família se instalou em Juiz de Fora. Trouxeram também a mãe, para cuidar dela, sabiam da luta que era a vida na roça. Depois encontraram na cidade um tio, Vicente, que virara motorneiro, Percília não o conhecia, nem ele sabia da sobrinha. Foi o irmão mais velho que o encontrou, andando de bonde na cidade, puxando conversa, sabia que a mãe tinha um irmão ali, mas não sabia onde. Ficaram um se reconhecendo na fisionomia do outro, olho no olho. O tio era casado, levou a mãe de Percília para morar com ele, combinavam demais. Estava então quase todo mundo à vista, pertinho.
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Percília trabalhava e morava em casa de família. No início não tinha quem a ajudasse, então dependia de morar no emprego. Trabalhava muito, mas se divertia. Solteira, ia aos clubes para dançar, no Elite, ao lado do prédio da Caixa Econômica, ou no Pepe, na rua Halfeld, perto do Cine Palace, ou no clube do Sindicato. Num dos bailes conheceu o namorado de uma colega de escola. Daí ele brigou com a menina, e Percília começou a namorar o moço. Casou. Teve dois filhos. A vida de casada? — Foi péssima! Não gosto nem de lembrar. Foi muito ruim.
Ela prefere lembrar das festas daquela época. Brincava no carnaval de rua, não tinha negócio de arquibancada, ficava todo mundo no passeio. Começava lá na praça da Estação, subia a rua Halfeld, terminava no Parque Halfeld, acabava cedo, aí às dez, dez e meia, até meia-noite, então o pessoal ia para os clubes. — Era assim, as moças aqui não ficavam na rua igual ficam hoje em dia. Tinha horário das moças ficarem na rua… das moças direitas! Dez, dez e meia, por aí, todo mundo caçando caminho de casa.

Percília trabalhava e morava em casa de família. (Ilustração: Marlene Perlingeiro Crespo)
Em quase todas as casas em que trabalhou, Percília se deu bem com os patrões. Numa delas, ia com a família para Cabo Frio, acostumou com a casa cheia. Logo que Percília ficou noiva, o marido da patroa pegou um serviço em Brasília, uma cidade que ainda estava começando. O patrão apressou o casamento de Percília: não queria levá-la solteira. A patroa, Carminha, iria para lá depois, tinham só uma filha, e em Brasília quase não havia escola para a menina estudar. O marido de Percília também foi para nova capital, o patrão dela arranjou trabalho para ele. — Fiquei um ano, depois eu vim pra ganhar o primeiro filho, meu patrão falou assim, primeiro filho a gente não sabe, melhor ter o filho lá, Juiz de Fora tem mais recurso, depois você volta e fica com a gente.
O plano não deu certo. O marido de Percília bebia, aprontava, mentia. Criou tanto caso que o patrão mandou ele embora. — Tava eu lá, grávida, na rua da amargura outra vez. A sorte é que os patrões, quando foram para Brasília, mantiveram um apartamento mobiliado em Juiz de Fora, no Edifício São José, até se acostumar com a mudança, de repente não dá certo e voltam. E pagavam Percília para todo sábado cuidar do apartamento. — Ele era um pai!
O que ganhava olhando esse apartamento, é claro, não dava para viver. Ela foi então trabalhar na casa de uma mulher que tinha adotado oito crianças, teve que tomar conta até de neném pequeno, uma menininha de quatro meses. Esse desafio Percília enfrentou, tomava conta do bebê até a patroa voltar do serviço, às seis da tarde. O que atrapalhou foi que o marido de Percília adoeceu. Aí danou tudo, sabe?, deu sombra no pulmão, foi internar mas ele fugia! A patroa deu duas semanas de folga para ela resolver essa questão, tinha que ferver roupas, vasilhas, tudo que era de uso pessoal, de tempos em tempos tirar chapa do pulmão dela e dos filhos, para acompanhar se haviam contraído a doença do marido. Não tinha a cura que tem hoje pra problema de pulmão, era difícil, né?
As crianças tiveram que tomar remédio, Percília não precisou. Moravam num porão que só tinha uma porta, sem nenhuma janela, então mudaram para lugar mais arejado. O marido não poderia sair do hospital antes de seis meses de internação. Percília o visitava às quintas-feiras e aos domingos, levava o que podia, mas ele não queria saber, era teimoso, escapava. Queria ficar com os filhos, se misturava, ia para os bares, enchia a cara, daí começava a ladainha de novo, aquela trabalheira, ferver tudo, levá-lo de volta para o hospital. Foi uma vida! A patroa perdeu a paciência, um dia que ela chegou e falou: — Olha, eu gosto muito de você, tenho uma pena de você, mas se o seu marido ficar vindo aqui eu vou dispensar você, porque você cuida da neném, ele com esse problema não vai dar.
Percília apelou para a assistência social, explicou que acabaria perdendo o emprego, seguraram o marido no hospital até receber alta. Depois ele saiu, mas nunca mais trabalhou, Percília é que a vida toda deu as coisas para os filhos, o marido não parava com um tostão no bolso, bebia tudo. Enfraqueceu o cérebro dele, ficava mais no hospital do que em casa, depois morreu, faz 28 anos que ele faleceu, o menino tava com 12 anos e a menina ia fazer sete anos, oito anos, por aí.
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Quase todas as lembranças de trabalhar em casa de família são boas. Menos uma: ainda era solteira, fazia todo o serviço, almoço, café de manhã, arrumava mesa, tirava mesa, arrumava e limpava a casa, banheiro, saía pra fazer compras na rua. Mas a dona tratava a gente como um animal. Desceu uma vez e no lugar de dizer bom dia disse que me contratou porque precisava de uma cozinheira, mas que o arroz que eu fazia era capaz de matar um. Para quê foi dizer isso? Percília respondeu na lata que a patroa havia perdido um filho antes de ela trabalhar lá, mas não havia sido o arroz que matara ele não, pois nem o marido da patroa, que era médico, sabia o porquê de o menino haver morrido. A patroa virou as costas e saiu, entrou para dentro do quarto e não quis mais conversa com Percília. Eu não queria falar isso, mas ela me obrigou. Fiquei lá oito dias, o marido dela ainda tentou me convencer a ficar, mas pedi a contas, peguei o dinheiro, chamei um táxi e se mandei.
Não ficou nem um dia parada. Foi de manhã para a casa de uma amiga casada de pouco, que morava na avenida Sete. Na mesma tarde outra dona ficou sabendo de Percília e foi lá buscá-la, recebera recomendação dela, precisava de alguém para dormir, tinha um quartinho lá, independente, todo arrumadinho, vamos comigo. Foi essa nova patroa, Auxiliadora, sócia da Imape, antiga fábrica de sacolas plásticas, quem fez pela primeira vez o registro de Percília, quando chegou a lei das domésticas terem carteira assinada. E morava justo ao lado daquela outra que tinha perdido o filho. Quando Percília limpava o quintal, cuidava da cachorra, lavava o passeio, a ex-patroa-dos-oito-dias debruçava no muro, saía na janela, ficava olhando, e Percília: Ocê não gostou de mim, e agora fica aí me olhando? Tira os olhos de mim. Que Deus tenha ela no lugar que mereceu. Que ela já foi.
Muitos anos depois que entrou nessa casa um primo de Percília, José Alexandre, que era vereador, conseguiu arrumar emprego para ela na Prefeitura. Foi trabalhar de ajudante de cozinha no antigo Pronto-Socorro. No início trabalhava todos os dias. Mas aprendeu o serviço, ganhou confiança da chefia, aí a puseram para fazer plantões de doze horas, um dia sim, um dia não. Opa!, aí foi melhorando!!! Os filhos devagar arranjaram algum trabalho, depois o mais velho também se empregou na Prefeitura, e a menina, a mãe pôs em casa de família. Mesmo depois que entrou no Pronto-Socorro Percília continuava ganhando um dinheirinho extra lavando roupa para fora, quatro trouxas por semana, um dia lavando, outro passando e outro entregando. Descia com a trouxa na cabeça, entregava, trazia outra. Lavava em casa, não na bica, por causa do tanto de fofoca da mulherada, preferia tomar distância.
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A aposentadoria de Percília foi por idade, em 1991, comecei a trabalhar cedo, mas tem que provar, o governo não acredita na gente. Agora que aposentou parou também o serviço de lavadeira, fica sossegada, prefere assim, sem preocupação, gosta de cuidar da casa dela, saber da vida dos filhos, olhar a neta. Os filhos são ótimos para ela, só um casal, o mais velho com 47 anos e a moça, 44, os dois solteiros, a filha teve a única neta de Percília, menina agora com 13 anos, de quem ela já cuidou, levava e buscava na creche quando era menor e a filha saía para trabalhar. A filha se formou professora, trabalha de padeira no Bahamas, mora pertinho da mãe; o filho é funcionário público, formou-se técnico em contabilidade, trabalha na Prefeitura há mais de 20 anos, começou auxiliando em serviços de topografia, hoje está na área do IPTU. Morava também no Dom Bosco até que saiu o nome dele no apartamento de um programa habitacional do governo.
Os filhos e a neta são as pessoas mais queridas de Percília. E também os irmãos que vieram lá de Silverânia, alguns deles ainda moram no Dom Bosco, outros faleceram, um não se deu bem na cidade, retornou para morar na roça, reclamava que tudo era no comprado, foi viver para os lados de Viçosa, está viúvo, mas bem. Dois irmãos ela perdeu mesmo de vista, um viajou para Brasília, ninguém sabe por onde anda, e uma irmã foi para o Rio, desapareceu também, não escreve, não vem, ninguém sabe onde está.
A mãe morreu em 1985, antes teve catarata, bem que o médico avisou, se não operasse ia passar para a outra vista e ela ia ficar cega. Mas a mãe de Percília tinha medo de operar, quando quis fazer a cirurgia era tarde, não adiantava mais. Morava com um filho, ficava sozinha em casa, não queria deixar de fazer as coisas, não conseguia ficar parada, fazia mesmo sem enxergar, um dia Percília foi lá e viu a mãe tentando fazer café, despejando a água do café fora do coador, fogo aceso, perigo de incendiar tudo. Também não podia mudar, pois estava acostumada lá, e, cega, como ia se virar em lugar estranho?
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Desde que veio para Juiz de Fora, Percília morou na rua Barbosa Lima, no Centro, na rua dos Artistas, perto da Igreja da Glória, na rua Belo Horizonte, no São Mateus. Mas ficou mesmo é na Serrinha, no Dom Bosco, onde parou de pagar aluguel. Ganhou o terreno da Conferência São Vicente, fez primeiro um barraco de placa, depois foi arrumando do jeito que deu, até ficar numa casa arrumadinha. Já conseguiu a escritura de usucapião, agora cuida de acertar a situação do imóvel, está pagando a planta, para regularizar de vez. Vai longe o tempo em que se mudou para o bairro, ficou dezenove dias sem luz elétrica, só com lamparina a querosene, e tinha que carregar água da bica ou com mangueira ligada lá longe. A maior preocupação que passou nessa época era o receio da fossa transbordar: tomava muito cuidado, e se vaza tudo para dentro de casa? O vizinho é que mais usava, mas não ajudava, entupia, ela que resolvia, medo da fossa explodir. Já pensou aquela coisa toda espalhando? Pegou uma cavadeira, amassou o cano para a dita cuja não voltar para cima, comprou um monte de cal virgem, jogou dentro da fossa, e ela foi dissolvendo, secando. Depois veio o esgoto, e… opa!, agora está ficando bom!
Gosta do Dom Bosco, mas não é muito de conversar com a vizinhança, de ir à casa das pessoas, não quer saber de trelelé-trelelé. Animada, acorda, levanta, vai todo dia à missa, volta, participa da vida do bairro, vai à ginástica, ao shopping ou à ABAN (Associação Beneficente dos Amigos do Noivo, que ficou na antiga casa das irmãs vicentinas). Fez aulas de culinária, começou a aprender também música, atividades de bordado, crochê, tricô. Aula de culinária, está sempre de olho, fez no SESI, na Catedral, na Igreja do Bom Pastor, tudo que sai gosta de meter a cara. Distrai, né?, esquece muito, mas alguma coisinha a gente sempre aprende. É assim que eu vou levando a minha vida.

Viajar é uma das maiores paixões de Percília. (Ilustração: Marlene Perlingeiro Crespo)
Diz que com a idade dá um cansaço, não tem mais aquela vontade de fazer as coisas. Mas não fica parada. Está todas as semanas no Grupo Espírita Semente, nas atividades socioeducativas do Projeto Nucleação, desenvolvido pela Faculdade de Serviço Social da UFJF. Tem muita coisa que a gente ficou sem aprender, e vamos aprendendo agora com vocês, né? E o Nucleação tem uns passeios, é verdade, e ela adora passear. Vão a museus, e ela lembra que, quando era solteira e começou a ir à escola, a professora mandava os alunos ir passear lá no Museu Mariano Procópio, para na segunda-feira contar como é que foi.
Católica praticante, Percília vai todo dia à missa das sete da manhã na Catedral. Participa das reuniões do Apostolado e da Ordem Terceira, prepara as acolhidas. Sexta cedo, às seis horas, eu tenho que estar lá, pra ajudar dona Célia, né?, coitada, ela já está muito idosa, aí tem muita coisa pra ela fazer, tem que arrumar a mesa, o salão, é muito bom, sabe? Antes ia à missa com o filho, depois ele se tornou espírita – influência do primo, Carlos Ananias, presidente do Grupo Espírita Semente. O filho explicou, lá também falam muito de Deus, só tem gente boa, Percília sentiu muito mas entendeu, sem brigar nem nada, em todo lugar tem gente que quer fazer o bem. A filha e a neta continuam acompanhando-a, nas missas de domingo.
É pela igreja que ela mais passeia, e viajar é hoje uma de suas maiores paixões. Viaja sempre. Aparecida do Norte, Congonhas, Barbacena, nos encontros da Ordem Terceira e do Dom Orione. Ou nas excursões organizadas pelo Zé de Barros, do programa Hora Sertaneja, da Rádio Solar, em Juiz de Fora. Ele fez promessa, e vai todos os anos a Aparecida. Percília vai no grupo, à noite, volta no dia seguinte à tarde, ela e a neta. E acompanha também os encontros que são feitos em Aparecida na ordenação dos padres do Instituto Dom Orione. E todo dia 1º de maio tem a festa de São Geraldo, em Barbacena, vai muita gente mesmo… Para felicidade de Percília.
Opa!, agora tá ficando bom!