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Tentando sair do buraco: as dificuldades para diminuir a exclusão digital

Por Flávia Junqueira
15 de outubro de 2007

 

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Muros altos, portão trancado. Pela fresta do cadeado uma senhora vê que alguém aguarda do lado de fora e abre o portão. Pode não parecer, mas esta é uma escola de ensinos fundamental e médio de Juiz de Fora. As escolas estaduais da cidade, em sua maioria, seguem o mesmo estilo de construção. Por fora e por dentro, os problemas comuns de uma escola pública também estão presentes em todas elas.

A vida contemporânea exige da população conhecimento múltiplo. É praticamente impossível conseguir um emprego sem saber lidar com toda a tecnologia que nos cerca. Porém, esta realidade de domínio da tecnologia ainda está longe para a maioria da população. O Brasil é um país de excluídos digitais, ou seja, o computador ainda está distante do convívio da população de baixa renda.

Pensando que a exclusão pode ser combatida criando a oportunidade para que, desde jovem, a população possa ter acesso ao computador, o Governo do estado de Minas Gerais disponibiliza nas escolas da rede A???????L????? computadores para os alunos. Porém, este ainda é um passo pequeno diante da cratera digital que isola esta parcela da sociedade.

A cratera local

A Escola Estadual Professor Cândido Motta Filho, situada no bairro São Benedito, é um exemplo disso. De acordo com a professora e ex-vice-diretora da escola, Inara Carvalho Teixeira, o professor interessado é que leva a turma para a sala de informática. “Nenhuma escola estadual tem esta disciplina, porque o estado não contrata professor de informática. Tinha uma professora aqui que levava os alunos para mexerem no computador, mas ela fazia por conta própria. Ela levava as crianças para fazerem coisas simples, como desenhar e copiar textos. Hoje ela já se aposentou, ninguém mais faz isso”.  

Hoje a Escola Cândido Motta não tem laboratório de informática. Inara explica que o Estado mandou computadores novos em 2005, mas eles estão encaixotados até hoje e guardados em um almoxarifado. Segundo a diretora da escola, Lúcia Barone, a central de informática está momentaneamente inutilizada, pois será instalada uma nova sala para estes computadorA???????L?????es. Ela chama atenção para o fato de a escola não ser um cursinho profissionalizante. “Estes computadores são um instrumento pedagógico. Alguns professores utilizam o equipamento como complemento para seu conteúdo. Não temos aulas para ensinar a mexer em programas. A escola não pode cumprir o papel de cursinhos de informática”. A sala momentaneamente inutilizada já está parada há alguns anos. Inara conta que a sala que existia até 2004 tinha computadores ligados em rede, que passaram a ficar abertos para o ensino médio. “Podia usar quando eles precisavam fazer algum trabalho, alguma pesquisa, mas isso não dá certo porque não tinha uma pessoa para cuidar dos computadores. Então foi estragando tudo, muita gente usando, muitos alunos que não têm cuidado, então não sobrou nada”.

Velhos problemasA depredação do patrimônio é um sério problema enfrentado pelas escolas, pois são diversos os casos de roubo e vandalismo em estabelecimentos de ensino públicos na cidade. Há três meses o Jornal Tribuna de Minas publicou diversas reportagens denunciando a violência nas escolas. Professores assustados relataram experiências e dossie_03_flavia05admitiram ter medo em alguns momentos. Computadores são alvos fáceis para ladrões, então a escola é obrigada a colocar o equipamento em salas com cadeados nas portas e janelas. Recentemente, a Escola Estadual Marechal Mascarenhas de Moraes, conhecida como Polivalente, no bairro Teixeiras, passou por um episódio envolvendo os mouses dos computadores. Um aluno da própria escola pegou os mouses e no fim do dia eles foram achados escondidos numa outra sala, enrolados em um casaco. A vice-diretora do Polivalente, Tânia Márcia Queiroz Mauad, diz que casos como estes são comuns.

 

Apesar deste fato, o quadro atual do Polivalente é um pouco melhor que o da escola do bairro São Benedito. De acordo com Tânia, a escola também recebeu computadores novos. Eles já estão instalados numa sala mas, assim como na Cândido Motta, eles ainda não puderam ser utilizados. “Os computadores estão prontos, mas nós temos que esperar um funcionário do estado para mexer, pois o sistema dos computadores é Linux, e não Windows.” Ela diz também que os funcionários estão sendo capacitados. “Já aconteceu a primeira fase do curso para que os professores aprendam a mexer neste A???????L????? sistema.”

A conseqüência para os alunos

Mesmo recorrendo a outros acessos, os jovens sentem falta da informática na escola. A estudante Micheli Silva de Andrade, aluna da sexta série do Cândido Motta Filho, afirma que tem contato com computador em lan house e na casa de primos, mas gostaria de ter computador com internet na escola. “Ia ser mais fácil se tivesse aqui, porque eu não precisaria ir à lan house.” Perguntada sobre o que ela vê na internet, Micheli disse que entra sempre no Orkut, site de relacionamentos, no MSN, programa de conversa instantânea, e no Google para fazer pesquisas para a escola. Amiga de Micheli, Andressa Maia concorda com ela e ainda admite ter algumas dificuldades ao lidar com o computador. “Às vezes aparece alguma mensagem que eu não entendo, então se tivesse aqui eu poderia perguntar para o professor quando eu não soubesse alguma coisa”, conta Andressa.

Nas escolas estaduais, o governo manda o equipamento e cada escola deve se organizar para a instalação e manutenção. Como o estado não contrata professores de informática, os docentes de cada disciplina têm que se adaptar para conseguir unir odossie_03_flavia02 conteúdo da matéria ao computador. Tânia lembra que esta adaptação não é simples, pois “a sala de informática é pequena e tem apenas dez computadores, enquanto na sala de aula são, em média, 35 alunos. Então precisamos pensar em um rodízio que não atrapalhe nem ao professor nem aos jovens”.

A atuação do Governo

O Governo de Minas tem um programa chamado Escolas em Rede, com a intenção de reduzir a exclusão digital na rede estadual de ensino. Criado em 2004, o projeto já distribuiu 24 mil computadores a escolas estaduais de ensinos fundamental e médio, beneficiando 680 mil alunos em todo o estado. Resta saber quando estes equipamentos estarão em funcionamento e à disposição de todos os alunos.