Extração de frutos da palmeira-juçara no Jardim Botânico em 2019 (Foto: Raul Mourão/UFJF)

Que o açaí amazônico é um dos alimentos preferidos de muitos brasileiros, todo mundo sabe. Mas existe uma palmeira, a juçara, presente em Juiz de Fora, da qual são extraídos frutos para a produção do “açaí da Mata Atlântica”, ainda pouco conhecido, mas saboroso como a versão mais popular. Na próxima terça-feira, 16, a partir das 8h, o Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) irá oferecer uma oficina gratuita sobre todo o processo de produção desse “açaí”, desde o plantio da palmeira-juçara e a colheita do fruto ao beneficiamento do produto e degustação.

Além da oficina, o Jardim inaugura, no mesmo dia, a Casa de Vegetação, um espaço dedicado ao estudo e à produção de mudas da palmeira-juçara (Euterpe edulis), que é fundamental para o equilíbrio ecológico. Seus frutos são fonte de alimento para diversas aves e mamíferos, ajudando na dispersão de sementes e na regeneração da floresta. É desses frutos que é produzido o açaí. 

Mas a juçara, nativa da Mata Atlântica e presente no Jardim Botânico, está ameaçada devido à extração ilegal de palmito, que fica no interior do tronco. Para obtê-lo é preciso cortar a palmeira, que não brota novamente, pois o palmito é a ponta apical de crescimento das folhas, a “gema de crescimento” da planta. Dessa forma, a extração compromete sua reprodução e afeta toda a biodiversidade ao redor. O consumo do açaí representa o uso sustentável da palmeira-juçara e uma alternativa econômica.

Casa de Vegetação

Professores e estudantes testarão técnicas de produção de mudas de palmeira-juçara na Casa de Vegetação do Jardim Botânico

Novo projeto a ser instalado no Jardim Botânico, a Casa de Vegetação representa uma esperança para a sobrevivência da palmeira-juçara. Sob coordenação do professor Fabrício Alvim, do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas da UFJF, a iniciativa vai reunir estudos sobre as melhores técnicas para a produção de mudas da planta. Em seguida, os exemplares serão empregados para reflorestamento e distribuídos para a população. 

“Nossa ideia é testar diferentes técnicas de produção. E isso vai envolver a qualificação de pessoas, por meio de trabalhos de conclusão de curso, dissertações”, explica Alvim. O projeto tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Exemplares adultos da palmeira são abundantes no fragmento florestal do Jardim, que tem a “Trilha da Juçara” em homenagem à planta. O visitante percorre cerca de 700 metros, em meio à floresta, por um caminho pontilhado pelas árvores em destaque. O fim do trajeto surpreende, desembocando em uma galeria natural, formada pelas copas de jabuticabeiras.

Com a casa, “o Jardim reafirma o seu compromisso com a conservação da biodiversidade, a formação de cidadãos e o desenvolvimento sustentável da nossa região”, acrescenta o diretor do espaço, Breno Moreira. 

A Casa se soma a outros projetos que brotaram nessa parte da Mata do Krambeck, nos últimos anos, como o Meliponário de Abelhas Nativas, Trilha do Mel, exposições artísticas voltadas para a sensibilização ambiental e novos roteiros interpretativos. “O Jardim Botânico se consolida como um importante espaço de produção e compartilhamento de conhecimentos.”

Oficina

Palmeiras-juçaras são abundantes no Jardim Botânico (Foto: Raul Mourão/UFJF)

Intitulada “Plantio e produção de palmeira-juçara”, a oficina irá ocorrer das 8h às 12h, no Centro de Educação Ambiental do Jardim. Faz parte de uma iniciativa estreante, em Juiz de Fora, o projeto “AMA Juçara – Açaí da Mata Atlântica”, do Instituto Estadual de Florestas (IEF). Todas as vagas da atividade foram preenchidas.

“O propósito principal é conservar a palmeira-juçara, levar oportunidade de alternativa de renda para produtores rurais – uma renda associada à floresta,  à conservação – e produzir alimento saudável”, explica o coordenador do projeto, Eduardo de Ávila Coelho, tanto que um dos lemas da iniciativa é “Juçara na terra, açaí no copo”.  

Iniciado em 2023, no Parque Estadual do Ibitipoca, em Lima Duarte (MG), o projeto é desenvolvido no interior e no entorno de unidades de conservação do IEF, como o Parque Estadual da Mata do Krambeck, vizinho ao Jardim Botânico, e o da Serra do Brigadeiro, em Araponga. O coordenador do projeto, Eduardo de Ávila Coelho, recorda que a ideia remonta a 2012, quando dois ribeirinhos da Amazônia visitaram Ibitipoca. Em uma comunidade do entorno, avistaram um cacho de açaí maduro e iniciaram a extração. “Foi a primeira vez que participei da produção de açaí da Mata Atlântica.” 

Nesta semana, a iniciativa foi uma das vencedoras da 16ª edição do Prêmio Hugo Werneck de Meio Ambiente & Sustentabilidade, um dos mais importantes da área no país. O projeto obteve reconhecimento na categoria Melhor Exemplo em Biodiversidade Flora.  A partir do prêmio e do apoio estadual, Coelho espera ampliar o âmbito de atuação do projeto – atualmente local e regional – para outras localidades de Minas Gerais, inclusive em áreas fora de parques, e o uso do açaí em merenda escolar. 

Confira a programação da oficina:
8h: Recepção dos participantes
8h30: Apresentação do evento
9h: Palestra sobre o Projeto AMA Juçara
9h30: Café com broa
10h às 12h: Oficinas de coleta e beneficiamento, com degustação de açaí

A oficina é organizada pelo Jardim Botânico, o projeto AMA Juçara, o Instituto Estadual de Florestas (IEF/Governo do Estado de Minas Gerais), a Secretaria de Desenvolvimento Agrário da Prefeitura de Juiz de Fora, a Embrapa Gado de Leite e o Laboratório de Ecologia Vegetal da UFJF. Tem o apoio da Fapemig e The Nature Conservacy Brasil.

Projeto AMA Juçara incentiva o plantio da palmeira-juçara e a produção de açaí, como alternativa econômica para produtores rurais (Foto: Raul Mourão/UFJF)


 
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