Novos espaços trarão oportunidades de educação ambiental, reprodução de plantas, criação de abelhas e pesquisas. (Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

O Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) ganhou oficialmente, nesta sexta-feira, 22, quatro novidades que trarão mais oportunidades de educação ambiental, reprodução de plantas, criação de abelhas e pesquisas, além de tornarem o local mais atraente para visitantes. 

Foram oficialmente inaugurados o Laboratório de Micropropagação de Plantas Ornamentais, o Orquidário Frederico Carlos Hoehne, o Meliponário de Abelhas Nativas e o roteiro sobre socioambientalismo com cinco mosaicos ao longo do trajeto. Saiba mais sobre cada um deles abaixo.

Esses novos equipamentos integram um bem público, em que não se emprega uma lógica econômica que poderia limitar o acesso da sociedade à área florestal, e englobam pilares de extensão universitária, ensino, pesquisa, inovação e cultura, como lembrou o reitor da UFJF, Marcus David, durante as inaugurações. 

“Todas essas funções da Universidade estão representadas nos equipamentos que inauguramos hoje. O trabalho aqui, no Jardim, foi de muita competência e criatividade, ainda mais ao ter passado por períodos de pouca disponibilidade de capital elevado para investimentos”, frisou o reitor, cuja gestão à frente da UFJF encerra-se em abril.

Veja fotos das inaugurações

Laboratório de Micropropagação de Plantas Ornamentais

O laboratório tem como objetivo a propagação em larga escala de plantas ornamentais, em especial bromélias. O método utilizado se baseia na clonagem de espécies selecionadas.

“A partir da propagação em larga escala será possível fornecer a visitantes plantas certificadas, o que contribui para a redução do extrativismo predatório e para a educação ambiental”, explica o coordenador do laboratório, professor Paulo Henrique Peixoto, que tem o apoio do professor Cristiano Ferrara de Resende e de estudantes de Ciências Biológicas da UFJF.

A cultura de tecidos vegetais (ou propagação in vitro) consiste em um método onde pequenos segmentos de plantas, como gemas ou sementes, são cultivados em condições assépticas em meios de cultura, contendo sais minerais e reguladores de crescimento, como hormônios vegetais.

Laboratório será utilizado para clonar espécies de bromélias visando a propagação em grande escala (Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

“Dessa forma, em um tubo de ensaio ou outros recipientes, é possível propagar, em larga escala, espécies de interesse econômico, ameaçadas de extinção ou que apresentem problemas de propagação pelos métodos tradicionais. O processo é um tipo de biotecnologia, por isso, chamamos esses laboratórios de ‘biofábricas’.” A partir de uma semente, por exemplo, poderão ser reproduzidas dez plantas e dessas iniciais outras mais, em uma sequência exponencial. 

As espécies cultivadas inicialmente serão bromélias, com destaque para três espécies que apresentam ocorrência comum no Jardim Botânico. Uma delas, a Portea petropolitana, é a espécie símbolo do local.

O laboratório é o primeiro projeto no Brasil a receber financiamento da Fundação Stanley Smith Horticultural Trust, com sede nos Estados Unidos. A instituição, sem fins lucrativos, apoia projetos em todo o mundo, desde a década de 1970, com prioridade ao apoio à horticultura ornamental, especialmente em jardins botânicos e arboretos.

Os recursos de 20,9 mil dólares (cerca de R$ 105 mil) foram utilizados na aquisição de equipamentos, vidrarias e materiais de consumo necessários à execução do projeto. 

Orquidário Frederico Carlos Hoehne

Com cerca de 600 exemplares de orquídeas em seu acervo, o Jardim Botânico inaugura oficialmente seu espaço dedicado a essas plantas. Nomeado Orquidário Frederico Carlos Hoehne, em homenagem ao juiz-forano que se tornou um dos maiores botânicos brasileiros, mas é quase desconhecido em sua terra natal. 

Filho de imigrantes alemães, Frederico Carlos Hoehne nasceu em Juiz de Fora, em 1882. Cresceu em meio ao encanto pelas orquídeas cultivadas por seu pai. Aos 25 anos, sugeriu a criação de um orquidário no Parque Halfeld. Apesar de a ideia não ter avançado, foi indicado ao cargo de jardineiro chefe no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Sua carreira incluiu importantes contribuições para a botânica brasileira, como a criação do Instituto de Botânica e do Jardim Botânico de São Paulo. Um autodidata e renomado orquidólogo, Hoehne deixou um legado de mais de 600 publicações e a descrição de numerosas espécies botânicas.

Saiba mais sobre o juiz-forano que dá nome ao Orquidário no artigo “Hoehne e as orquídeas de sua terra natal”.

Marcus David inaugura o Orquidário Frederico Carlos Hoehne, em homenagem ao juiz-forano que foi um dos maiores botânicos brasileiros (Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

O orquidário vem recebendo exemplares desde 2019, ano de abertura do Jardim. Desde então, chegaram remessas de coleções particulares desativadas, da UFJF, de apreensões do Ibama e de pesquisas realizadas na Floresta Atlântica e no Cerrado. O espaço passou por melhorias de infraestrutura, como três bancadas para acondicionamento das plantas, construídas  com madeira doada pelo Ibama.

“Os cuidados são contínuos, mas com uma atenção semanal mais detalhada, com controle de eventuais pragas, fertilização, replantios, quando necessário, e produção de algumas mudas”, lista o vice-diretor do Jardim, Luiz Menini, responsável pelo Orquidário.

A coleção possui aproximadamente 170 espécies e 40 híbridos, com foco em nativas da Floresta Atlântica, como a Miltonia clowesii. Há ainda exóticas, como a Dendrochilum glumaceum, originária das Filipinas, com um perfume adocicado e suave. O acervo também inclui espécies raras, de distribuição restrita ou sob ameaça de extinção. São exemplos a Cattleya harrisoniana, a Hadrolaelia purpurata e a Octomeria praestans.

Com a ativação do Laboratório de Micropropagação de Plantas Ornamentais, há a possibilidade de reprodução in vitro de orquídeas e a reintrodução de espécies na natureza.  

O público não tem acesso ao interior do Orquidário, mas pode avistar as plantas do lado de fora. Aquelas que estão em período de floração são posicionadas próximas ao gradil. 

Novo roteiro

Mosaicos no Jardim Botânico exploram socioambientalismo e conexão humana com a natureza (Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

O Jardim passa a oferecer a seus visitantes um quinto roteiro temático em seu programa de educação ambiental. Com a nova opção, focada em socioambientalismo, que abrange a relação das pessoas com a natureza, “o Jardim deseja dialogar com os seus visitantes de uma maneira mais profunda, reflexiva e complexa sobre a crise ambiental em que vivemos, a qual é, ao mesmo tempo, uma crise socioambiental”, explica o professor Gustavo Soldati, ex-diretor da instituição.

Em cada uma das cinco paradas do novo roteiro para a troca de ideias com os monitores de educação ambiental, há um mosaico associado ao tema a ser abordado. A obra foi criada pelo Coletivo Agrupa, composto por artistas, professores, alunos e ex-alunos da UFJF. A série no Jardim é a primeira realizada fora do campus pelo Agrupa.

“Fomos pensando nos elementos-chave que pudessem funcionar como um gatilho para o discurso proposto, como gentrificação e direito à natureza”, explica a pró-reitora de Cultura da UFJF, Valéria Faria, integrante do Coletivo. Os cinco mosaicos e seus temas são: Café – O acesso à natureza como direito humano; Enxada – Questão territorial e agrária e agroecologia; Cidade – gentrificação e urbanidade; Diamante – Financeirização da sociobiodiversidade; e Água – Ecologia política.

“A ideia é contribuir com esses temas para ajudar a pensar a sociedade. É preciso, por exemplo, discutir as causas da emergência climática, que repercutem no cotidiano”, destaca a professora e diretora da Faculdade de Educação da UFJF, Angélica Cosenza.

O roteiro é inspirado na luta social que impediu a transformação dos mais de 80 hectares de mata do Jardim em uma área privada. “Muitos conflitos existem no Brasil porque a natureza vem sendo apropriada como bem privado”, alerta. Conflitos como esses são uma oportunidade para reflexão e educação interdisciplinar. 

De modo semelhante, Gustavo Soldati compreende que o ambiente preservado deve ser provido aos brasileiros pelo Estado, assim como se fornece saúde, transporte e educação. “Mas não é só isso, é preciso entendermos que estes espaços de florestas e vegetações típicas são um bem comum a todos. A natureza não pode virar mercadoria e servir apenas a parte da população, não pode ser financeirizada, ser convertida em mercadoria.”

Conforme o professor, o roteiro também aborda a questão da agricultura empresarial como um dos principais fatores contribuintes para a perda da biodiversidade e o aquecimento global. A agricultura familiar, que se baseia na agroecologia, é uma alternativa viável para a produção de alimentos de qualidade e em quantidade. “Esse roteiro irá refletir a biodiversidade enquanto um conceito político, ou seja, como que a estrutura de nossa sociedade, caracterizada por desigualdades sociais abissais, também determina a forma como a sociedade se apropria e utiliza essa natureza.”

Originário de Benin, no oeste africano, o estudante Aurel Oguidi, que atua como monitor de educação ambiental no Jardim, está a postos para receber grupos escolares para percorrerem o novo roteiro. “O Jardim Botânico por si só é um lugar de educação. Esse lugar nos distancia um pouco da cidade, vir aqui pode ser um meio para se conectar com a natureza. E esse novo roteiro vai mostrar os benefícios do meio ambiente e como podemos vinculá-los ao nosso cotidiano”, explica.

Meliponário

Para completar o quarteto de novidades, o Jardim inaugurou um local específico para a criação, o estudo e o ensino sobre abelhas sem ferrão. É o Meliponário de Abelhas Nativas – o primeiro destinado à educação ambiental na Zona da Mata mineira. A criação é instalada ao longo da Trilha do Mel, também nova no Jardim.

O meliponário é formado por uma série de abrigos destinados à formação de colmeias de abelhas da tribo Meliponini, daí advém o nome meliponário. Em cada abrigo, tem uma caixa de criação racional de abelhas sem ferrão, também conhecidas como indígenas, existentes no Brasil muito antes das abelhas que são popularmente mais conhecidas.

“A caixa de madeira é formada por módulos separados para abrigarem o ninho e os potes de alimento – potes de mel e de pólen”, como detalha a coordenadora do projeto, Ana Paula Gelli, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas da UFJF.

Instaladas sob telhado verde, os abrigos se parecem com uma sequência de casinhas, construídas pelo criador de abelhas nativas e marceneiro Paulo César Munck. Inicialmente, as moradoras desse condomínio são exemplares de cinco abelhas nativas e sociais: jataí, mandaguari, uruçú-amarela e iraí. Elas estão ocupando 13 casas, mas há outras ainda não ocupadas. E ainda existe um hotel – isso mesmo um hotel – para abelhas solitárias, como a abelha da orquídea e a mamangava. 

Meliponário de Abelhas Nativas é o primeiro destinado à educação ambiental na Zona da Mata (Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

Filha de Munck, Marcela Dias sente-se profundamente gratificante por testemunhar o retorno de seu pai às atividades no Jardim Botânico e ver todo o seu árduo trabalho de pesquisa sendo compartilhado com a comunidade. 

“Ele fez descobertas significativas sobre várias espécies de abelhas aqui. Seu trabalho é de extrema importância, especialmente considerando o papel vital das abelhas na polinização. Em meio ao rápido crescimento urbano, é crucial manter espaços verdes e naturais como este jardim botânico. São locais essenciais para que as pessoas possam visitar, proporcionar experiências enriquecedoras para as crianças e desfrutar de ar puro”, ressalta.

Para conhecer o local, basta percorrer a Trilha do Mel, no caminho à direita do primeiro lago do Jardim. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Novos portais 

Para o diretor do Jardim Botânico, Breno Moreira, os novos equipamentos representam um marco significativo para a comunidade acadêmica e para os amantes da natureza, incrementam a promoção de educação ambiental e a conservação da sociobiodiversidade. 

“São muito mais do que adições físicas ao Jardim, podendo ser considerados novos portais para um mundo de conhecimento e descoberta, um convite para explorar e compreender a riqueza da sociobiodiversidade que nos cerca.”

Filhas e neta do criador de abelhas e marceneiro Paulo César Munck estiveram no evento.(Foto: Alexandre Dornelas/UFJF)

A pró-reitora de Extensão, Ana Lívia Coimbra, destacou que o Jardim Botânico trouxe novas dinâmicas à Universidade, como celeridade no atendimento a demandas e um funcionamento por 24 horas, seja com crianças durante o dia ou com pesquisadores até mesmo à noite. “Aqui, no Jardim, temos mais oportunidades de acesso à educação ambiental, ao lazer, à contemplação e, ao mesmo tempo, um espaço de produção de conhecimento, de formação de estudantes. É a universidade pública cumprindo sua função social”, destacou Ana Lívia.

A estudante Caroline da Silva Ferreira, do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, expressou sua empolgação com as inaugurações, uma expectativa que vem crescendo desde a abertura do Jardim Botânico, em 2019. “É gratificante acompanhar esse desenvolvimento do espaço e testemunhar sua transformação em um ambiente social, que visa atender a sociedade. Percebemos como a comunidade também desempenha um papel importante nesse ambiente.” 

Visitas ao Jardim

Nesse refúgio verde na cidade, as inaugurações reforçam  o compromisso do Jardim com um futuro sustentável, em que se busca despertar nos visitantes “os ideais conservacionistas e inspirações para um mundo mais justo e ecologicamente equilibrado”, segundo o diretor Breno Moreira. 

Uma vez que o Jardim é um laboratório vivo, os novos aparatos são um incentivo para se “estudar uma ampla gama de plantas e animais em seu habitat natural, contribuindo para avanços na compreensão da ecologia local e global das espécies que aqui vivem”, destaca.

Para conhecer as novas instalações e roteiro, é possível visitar o Jardim, de forma gratuita, de terça a domingo, das 8h às 17h, com entrada até às 16h. 

É permitido fazer piquenique no local, sem necessidade de agendamento. Escolas e grupos, por sua vez, devem agendar visitas mediadas pelo programa de educação ambiental por meio do site ufjf.br/jardimbotanico. Para ensaios fotográficos, permitidos nas segundas-feiras, também é necessário agendamento on-line. 

O Jardim Botânico está localizado na Rua Coronel Almeida Novais s/nº, no Bairro Santa Terezinha.

Confira as fotos das inaugurações. 

Outras informações:
(32) 3224-6725
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