A Diretoria de Relações Internacionais (DRI) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) abre a nova seção de entrevistas e conversas com a entrevista do embaixador Marco Antonio Nakata, diretor do Instituto Guimarães Rosa, órgão estabelecido em 2022 no âmbito do Ministério das Relações Exteriores, responsável pela promoção da cultura brasileira no exterior e pelo fortalecimento da diplomacia cultural. A entrevista, dividida em dois momentos diferentes, foi concedida à técnica administrativa em educação da DRI/UFJF, Edmárcia Andrade, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens/UFJF. O primeiro momento refere-se à entrevista realizada no dia 18 de julho de 2024, em formato remoto.
A conversa integra a pesquisa de doutorado da entrevistadora, dedicada à representação brasileira na 60ª Bienal de Arte de Veneza, em 2024. A entrevista contribui para ampliar a compreensão sobre os atravessamentos entre produção artística, representação nacional e relações diplomáticas na contemporaneidade. A iniciativa aproxima, assim, a pesquisa acadêmica desenvolvida na UFJF das ações de internacionalização da universidade, ampliando o espaço para pensar a arte como forma de intercâmbio cultural e de aproximação entre povos e instituições.
O espaço dedicado a esta entrevista parte do reconhecimento da DRI/UFJF de que as artes visuais constituem um espaço de diálogo, intercâmbio e construção de relações entre diferentes sociedades. Essa perspectiva encontra expressão na própria atuação da Diretoria, que criou a Galeria Mundi para ser um espaço destinado às artes visuais e à promoção do encontro entre produção artística, universidade e diferentes perspectivas culturais.
ARTES VISUAIS E DIPLOMACIA CULTURAL – Parte I
A partir da Bienal de Veneza, fundada em 1895, uma das mais importantes plataformas internacionais de arte contemporânea, a entrevista propõe uma reflexão sobre os caminhos pelos quais a arte brasileira circula internacionalmente e sobre os possíveis diálogos entre artes visuais, representação do país e relações internacionais. Mais do que uma plataforma de circulação artística, a Biennale, organizada historicamente a partir de pavilhões e representações nacionais, estabelece um espaço de legitimidade e disputa de narrativas no campo da arte contemporânea, como também no cenário geopolítico mundial. Portanto, um espaço privilegiado para a compreensão do papel das artes visuais na diplomacia cultural.
A estreia do Brasil em Veneza foi em 1950 e, desde então, o Itamaraty participa do processo de organização das representações, envolvido institucionalmente na articulação diplomática. Ao longo de mais de sete décadas, a participação brasileira acompanhou diferentes momentos da produção artística brasileira e das transformações políticas, culturais e diplomáticas do país. A presença do Brasil em Veneza permite, assim, observar como as artes visuais podem ultrapassar os limites do campo artístico e participar da construção de imagens, narrativas e formas de representação do país no cenário internacional.
Na entrevista, o embaixador Nakata reflete sobre o papel das representações do Brasil na Bienal de Arte de Veneza, sua importância para a diplomacia cultural brasileira, o soft power, e os diferentes atores e instituições envolvidos nesse processo. Entre eles, estão a Fundação Bienal de São Paulo, o Ministério da Cultura, por meio da Funarte, e o Ministério das Relações Exteriores, atualmente, por meio do Instituto Guimarães Rosa. A conversa aborda ainda as relações entre escolhas artísticas e institucionais, a participação do Itamaraty nas representações brasileiras e as possíveis contribuições da arte para a projeção internacional do Brasil, para a construção de sua imagem e para o fortalecimento de relações culturais e diplomáticas.
Andrade: Considerando que o Ministério das Relações Exteriores participa da representação brasileira na Bienal de Veneza desde a primeira participação, esse envolvimento adquiriu uma configuração particularmente significativa, em 2024, com a participação inédita do Instituto Guimarães Rosa. Diante disso, de que maneira o Itamaraty compreende e utiliza as representações brasileiras na Bienal de Veneza como instrumento de diplomacia cultural? Quais são os objetivos diplomáticos associados a essa participação e como eles se articulam às escolhas curatoriais e artísticas?
Embaixador: Esse é um tema que me é muito caro, eu tenho acompanhado a Bienal de Veneza, em caráter pessoal, por interesse próprio. Profissionalmente, eu acompanhei de 2010 a 2013, no período em que fui o chefe do setor cultural do Brasil na Embaixada em Roma. Eu acompanhava os trâmites, a produção do nosso pavilhão. Mas como um diplomata que está ali perto, tratando do assunto de maneira mais direta, mas não pensando em termos de estratégia diplomática cultural. Eu estou dirigindo o Instituto Guimarães Rosa há um ano e alguns poucos meses, então, eu não sei, evidentemente, o que aconteceu antes da minha chegada. Eu acompanho e, como você mesma disse, teve uma mudança recente da participação. [do Itamaraty]. Houve duas mudanças, na verdade. Um primeiro momento em que o Itamaraty delegou à Fundação Bienal de São Paulo a curadoria. Por muitos anos, o curador da Bienal de São Paulo era automaticamente, ou quase automaticamente, com muitas poucas exceções, designado para ser o curador do nosso pavilhão da Bienal de Veneza no ano seguinte. Então, não é que houvesse uma escolha, a escolha já estava feita, não havia participação do Itamaraty, nem do governo, nem do Ministério da Cultura, porque já havia esse entendimento.
Eu não sei como foi no ano retrasado, mas no ano passado, quando eu assumi, houve essa mudança e eles [Fundação Bienal de São Paulo] passaram a envolver outras instituições. A Fundação Bienal de São Paulo convidou o Ministério da Cultura e, sobretudo a Funarte, e o Ministério das Relações Exteriores, no caso, o Instituto Guimarães Rosa, para fazer parte de um conselho, um colegiado de instituições que apresentariam duas propostas de curadores e artistas, e depois nós nos reunimos para decidir em conjunto qual seria a proposta para fazer o pavilhão. Eu achei isso muito positivo porque ampliou o leque de escolhas, ampliou também a participação de outras instituições, então isso já achei que foi uma coisa acertada. Evidentemente, com isso, a questão da diplomacia cultural, que você está mencionando, pôde ser contemplada, porque a ideia que eu tenho quando eu faço, nesse caso, uma sugestão de curadores, penso na importância que isso terá para a cultura brasileira e para a divulgação dessa cultura no exterior. E o que eu acho importante, do ponto de vista diplomático, não é necessariamente o tema. Isso foi uma discussão que eu até tive com alguns colegas que achavam, por exemplo, que o Instituto Guimarães Rosa não deveria promover filmes como o ‘Cidade de Deus’, um filme que ressalta a violência no Rio de Janeiro. Eu discordo dessa ideia, pra mim, o que interessa não é o tema, se for assim, todos os filmes ficam meio chapa branca e aí vira publicidade, e não arte. O que é importante é vender o alto nível da qualidade artística dos atores, no caso dos filmes, do diretor, do produtor, do roteirista. Isso que é importante, as pessoas verem que tem um nível estético e artístico elevado. O tema em si não é fundamental.
E também do ponto de vista das artes visuais, no caso da Bienal de Veneza, se a gente consegue que o nosso pavilhão tenha artistas e curadores do mais alto nível, isso em si já é uma ação positiva de diplomacia cultural. Imagine, por exemplo, pra voltar na questão de filmes, há muitos filmes americanos, inclusive feitos por Hollywood, que ilustram a violência urbana nos Estados Unidos, às vezes, ataques terroristas, etc. Isso não quer dizer que você está fazendo uma propaganda negativa dos Estados Unidos. O que importa é a qualidade artística daquele filme.
Andrade: Para a escolha das obras que compuseram o pavilhão brasileiro, o Itamaraty possuiu algum grau de interferência?
Embaixador: Não. A nossa discussão se resumiu à escolha dos curadores. E os curadores já tinham escolhido os artistas e eles têm total liberdade de escolher e de compor a apresentação no nosso pavilhão conforme eles acham que seja necessário. E sobre esta essa parte, o Itamaraty não tem nenhuma participação direta. A gente apoia para eventuais necessidades de logística, uma coisa ou outra, mas a questão propriamente é curatorial. Isso quem trata, são os curadores escolhidos e a Fundação Bienal de São Paulo.
Andrade: Embaixador, como o senhor compreende o papel das representações brasileiras na Bienal de Veneza? Qual é, na perspectiva do senhor, a importância dessas participações para a construção e projeção da imagem do Brasil no cenário internacional?
Embaixador: Eu acho que é fundamental. A Bienal de Veneza, como você bem apontou, é a Bienal mais antiga e mais importante, mais influente do mundo, recebe a visita de centenas de milhares de pessoas. Ela dura normalmente de abril, maio, até o final do ano, novembro, dezembro. Quer dizer, há uma quantidade muito grande de turistas, muitos formadores de opinião, jornalistas, artistas, profissionais, etc. É uma vitrine da arte brasileira, enfim, de qualquer país na verdade, para o mundo. Esse ano, como você sabe, nós tivemos pela primeira vez um curador latino-americano, que é brasileiro, o Adriano Pedrosa, depois de mais de 130 anos de bienal. Então quer dizer, isso constitui, em si, uma grande oportunidade para o Brasil. Ele levou, se não me engano, 28 artistas, quase 30 artistas brasileiros, para o pavilhão principal, tanto o pavilhão central quanto o Arsenale, nunca houve na história da bienal uma representação tão grande de artistas brasileiros nos pavilhões principais. Então, realmente é uma oportunidade única. Eu acho que a nossa bienal [Bienal de São Paulo] também é muito importante. Muitos consideram a segunda mais importante. E cumpre um papel também, apesar de acontecer no Brasil, de divulgação, no sentido de que atrai muita gente. Tem muitos curadores, colecionadores, artistas, diretores de instituições culturais estrangeiras que vem ao Brasil para ver e acompanhar a Bienal de São Paulo.
Andrade: Embaixador, eu gostaria de fazer uma pergunta talvez um pouco mais técnica, relacionada à avaliação dos resultados de ações de diplomacia cultural. No caso específico das representações brasileiras em Veneza, existe algum mecanismo utilizado pelo Itamaraty ou, atualmente, pelo Instituto Guimarães Rosa, para mensurar ou avaliar o impacto internacional dessas participações? Por exemplo, existe algum acompanhamento sistemático da repercussão da exposição na imprensa estrangeira, da percepção sobre a imagem do Brasil, do alcance de público, da formação de novas parcerias institucionais ou culturais, ou mesmo de possíveis desdobramentos econômicos, turísticos ou comerciais decorrentes dessa presença? Pergunto porque, quando pensamos na diplomacia cultural e artes, sabemos que seus efeitos não se restringem necessariamente ao campo artístico. Uma exposição pode contribuir para a construção de uma determinada imagem do país, ampliar redes de relacionamento, gerar novas oportunidades de cooperação e, eventualmente, produzir efeitos em outras dimensões das relações exteriores. Então, minha pergunta seria: como o Itamaraty identifica e avalia esses resultados? Existe uma metodologia, um conjunto de indicadores ou algum tipo de acompanhamento posterior que permita compreender o retorno de uma representação como a do Brasil na Bienal de Veneza?
Embaixador: Deve haver uma forma de se se aferir o grau de influência e de impacto da presença, por exemplo, de um curador brasileiro. Mas é muito difícil. Teria de ter uma pesquisa muito profissional, eu confesso a você que, particularmente, desconheço como seria possível isso, mas eu imagino que esses institutos de pesquisa consigam ter uma ideia. Agora, você entende que essas questões são muito difíceis de se mensurar? Porque teve, por exemplo, a Anna Maria Maiolino que nesse ano ganhou o prêmio Leão de Ouro de melhor artista pelo conjunto da obra. Como isso impactou? Vendeu-se mais produtos brasileiros? As pessoas virão mais para o Brasil? Compraram mais obras de artistas brasileiros ou não? A pesquisa é possível? É, mas é de uma complexidade muito grande. Como saber, por exemplo, se os artistas que estavam lá tiveram uma ampliação das vendas? As pessoas passaram a consumir mais produtos brasileiros ou não? Agora, o que se chama de Soft Power, o poder brando, é quase imensurável. É muito fluido, mas é muito perceptível. O economista Gustavo Franco, eu me lembro uma vez, numa entrevista, em que ele disse ser impossível você ir, por exemplo, à Nova York, pedir investimentos estrangeiros sem que o país tenha Soft Power forte. Veja a França, quando um negociador francês de qualquer área chega num país ou faz uma negociação com uma empresa, o que está por trás é todo aquele imaginário da cultura francesa, da elegância francesa, da moda francesa, da gastronomia francesa, e isso tudo é um poder brando, porque não é o Hard Power que ele vai chegar e vai apontar uma arma e obrigar a pessoa a negociar. Mas é uma maneira de persuadir as pessoas por meio da cultura, da inteligência, das artes, da beleza.
Andrade: Embaixador, pensando especificamente na relação bilateral entre Brasil e Itália, existe algum acompanhamento, acordo ou mecanismo de cooperação específico relacionado à participação brasileira na Bienal de Veneza? Essas representações são consideradas pelo Itamaraty também como uma oportunidade de fortalecimento das relações Brasil–Itália, inclusive em dimensões culturais, institucionais e eventualmente comerciais? Há algum instrumento formal, convênio ou acordo bilateral que oriente ou acompanhe essa participação.
Embaixador: Não, o que acontece é pelo fato de a Bienal tem esse aspecto internacional, multicultural, com a participação de dezenas de países, não há uma especificidade em relação ao Brasil no que diz respeito ao impacto que isso gera. E quanto ao público, a impressão que eu tenho é ser majoritariamente estrangeiro. Tem muitos italianos que se interessam por arte, mas nas vezes que eu fui, pelo que eu senti, e é uma análise empírica e superficial, pois não fiz nenhuma pesquisa, acho que o público é mais internacional.
Andrade: Sim, pelos últimos dados da própria Biennale, 59% representa o público internacional, enquanto 41% representa o público italiano.
Embaixador: Então existe um impacto mundial. Não diria que tem um impacto na diplomacia bilateral.
Andrade: Embaixador, tratando agora das artes visuais, independentemente da representação em Veneza. Para o Instituto Guimarães Rosa, qual o papel das artes visuais para a nossa diplomacia? Como o Itamaraty vê, atualmente, as artes visuais na construção da imagem brasileira?Embaixador: É muito importante e tem sido cada vez mais. E estou dizendo do aspecto não apenas simbólico, cultural, mas também comercial. Porque a gente tem que analisar essa dimensão econômica, que é muito importante, com a participação de várias galerias brasileiras em feiras internacionais e com a valorização de muitos artistas brasileiros em leilões, em vendas internacionais, enfim, artistas que alcançam valores muito altos. E tem a dimensão propriamente dita estética e artística, que é mais importante, que a gente percebe desde o surgimento na cena internacional, de artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, artistas que tiveram exposições no mundo inteiro e influenciaram artistas estrangeiros. Eu acho que teve aí um turning point na história da arte brasileira, quando a gente passou de influenciados para influenciadores. E isso continuou, teve uma coerência, depois teve outros artistas, como Ernesto Neto e Cildo Meireles. São nomes de artistas que eu noto claramente terem influenciado. Você vai em uma exposição, você vê uma obra, e fala “isso aqui é Ernesto neto”, mas quando você vai ver é um outro artista, de outro país, que se inspirou ou foi influenciado pela obra do Ernesto Neto. Então eu acho que é importante termos presente essas duas dimensões: dimensão econômica de um lado, e dimensão cultural de outro lado.
E essas duas dimensões são importantes para que o Instituto Guimarães Rosa reconheça a importância das artes, do apoio que podemos dar às artes visuais como um instrumento de difusão da cultura brasileira de formação da imagem do Brasil no exterior. Claro que nós sempre esbarramos com os limites materiais, financeiros, orçamentários. Por isso, não conseguimos fazer grandes exposições, mas apoiamos muitas exposições. Apoiamos parcialmente uma exposição, por exemplo, de artistas afro-diaspóricos, que houve em Genebra. São apoios parciais, a não ser quando é fotografia por ser mais fácil de viajar, porque às vezes não precisa nem viajar, você pode mandar digitalmente e a galeria ou museu imprime no local. Performance também é mais fácil de viajar. Agora imagine, por exemplo, uma exposição como houve a da Tarsila do Amaral no MoMA [Museum of Modern Art, em Nova York] em 2018. É caríssimo. Só o transporte e o seguro são milhões de reais. E nós não temos recursos suficientes para apoiar esse tipo de exposição, e elas são patrocinadas por empresas privadas, Lei Rouanet, etc. Eu tenho um apreço pessoal por artes, não só artes visuais, acompanho o tema já há bastante tempo. As artes são bem consideradas pela diplomacia brasileira.