A ARTE COMO PRESENÇA INTERNACIONAL: O BRASIL INDÍGENA NA BIENAL DE VENEZA
Neste ciclo de entrevistas, a conversa com a artista indígena Olinda Tupinambá*, que participou da representação oficial do Brasil na 60ª Bienal de Veneza, em 2024, com o filme-arte Equilíbrio, ajuda a refletir sobre as relações entre arte e diplomacia cultural e sobre como as artes visuais podem participar da construção das imagens e das narrativas que o Brasil apresenta ao público internacional. A Bienal de Veneza é um dos mais importantes espaços internacionais de circulação, legitimação e debate das artes visuais, assim, a presença brasileira constitui um espaço de projeção global, no qual produção artística, identidade e diversidade cultural se encontram.
A artista fala sobre a ocupação de espaços historicamente marcados por perspectivas hegemônicas, as disputas de narrativas no campo das artes visuais e as possibilidades de a produção artística expressar questões políticas, ambientais, culturais e territoriais. Ao comentar sua participação no pavilhão brasileiro, Olinda também discute as relações entre representação artística e representação nacional, oferecendo elementos para pensar de que maneira a arte pode estabelecer diálogos entre diferentes sociedades e contribuir para a presença cultural do Brasil nas relações internacionais.
A entrevista foi realizada em 1 de outubro de 2025 pela técnica administrativa em educação da Diretoria de Relações Internacionais/UFJF, Edmárcia Andrade, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens/UFJF, e integra a pesquisa da entrevistadora, dedicada à representação brasileira na 60ª Bienal de Veneza, em 2024.
*Olinda Muniz Silva Wanderley (1989, Pau Brasil, Bahia) é multiartista indígena pertencente aos povos
Tupinambá e Pataxó Hã-hã-hãe. Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo,
ela vive no território Caramuru-Paraguaçu, no sul da Bahia, onde fundamenta sua prática no que
denomina como “artevismo”, uma fusão entre arte, política e ativismo socioambiental.
Andrade: Olinda, mudou alguma coisa depois de Veneza?
Tupinambá: Sim, eu acho que em relação ao trabalho, principalmente ligado à arte mesmo, a gente começou a ter muito mais convites, muito mais coisas aconteceram. Nesse sentido de participar de… feiras de arte, de fazer performance em vários contextos, tanto em festival de cinema, como dentro de instituições de arte e também instituições que não são ligadas necessariamente à arte.
Andrade: A minha pergunta para você é… como artista que participou… qual o papel, a importância da Bienal de Veneza no mundo contemporâneo? Não só para as artes visuais, mas no contexto político, social, enfim… nesse mundo que a gente está vivendo hoje. Como você vê a importância da Bienal de Veneza?
Tupinambá: Então, é uma pergunta complexa. Porque quando a gente — principalmente para mim — eu não cresci em uma cultura que tinha essa coisa da arte, se pensava sobre isso. Era uma coisa que eu via muito acompanhando na televisão, mas não era uma realidade que eu vivia. E aí, quando eu começo a adentrar esses espaços, também é um espaço que você começa a conhecer. Acho que comecei a pensar um pouco mais sobre isso a partir do momento que começo, de fato, a sair da aldeia. Fiz alguns trabalhos no Brasil, mas até então era uma coisa que eu ficava meio “ah, artista”, quem é que dita quem é artista ou não? Isso era uma coisa que eu ficava pensando muito. Acho que a Bienal me deu essa clareza da importância de ocupar esses espaços, no sentido de pensar que são disputas narrativas, enquanto linguagem, a arte. Estar ali também é um modo de descentralizar aquilo que estava se fazendo, se falando em relação à arte, uma coisa mais hegemônica. Quando a gente chega ali e vê essa diversidade, tinha vários artistas de vários lugares do mundo. Mas eu acho que a arte tem esse poder dessas contranarrativas, da gente poder também trazer a nossa própria narrativa. Mas aí também, pensando sobre isso, eu acho que a Bienal me traz muito mais perguntas do que soluções, sabe? Em relação ao meu próprio trabalho, o que eu gostaria de fazer, também de que forma posso continuar fazendo o que eu gosto sem deixar com que o mercado influencie no que estou fazendo. Eu acho que comecei a entender também um pouco mais das relações e, para mim, isso foi a coisa que mais chamou atenção, eu não tinha o olhar dessa dimensão do que era a Bienal. Eu sabia que era esse evento realmente conhecido, que eu já estava acompanhando algumas coisas, mas eu não entendia que ali estava de fato os críticos, os colecionadores. Eu acho que a Bienal também te abre um pouco desse olhar “o que é isso, o que é a arte, como é que isso funciona de fato”. E também até me botar nesse lugar, do quanto estar ocupando esse lugar, é uma coisa que o mercado também vai ditando. Então acho que a Bienal me abriu os olhos para, talvez, é um mercado às vezes meio injusto, não necessariamente você está ali por causa do seu trabalho em si. Entendo como se fosse um campo meio que minado, sabe? Você vê essas relações, cobram essa coisa da imagem, de estar nos eventos e como é isso. Mas acho que a arte tem um papel importante também, nesse sentido de se posicionar, estar ali. A gente, enquanto artistas indígenas, não estava sozinho, tinha uma narrativa, todos os trabalhos estavam muito ligados às comunidades, ao que cada um estava desenvolvendo. Então, trazia um pouco dessa vontade do governo de olhar para as questões indígenas, para esses artistas que estavam surgindo. Mas de uma certa forma, sinto que o próprio mercado, no início, tinha essa coisa de pensar na arte indígena como cumprir uma cota quando se falava na coisa da representatividade, o próprio movimento cobrando isso, ninguém falar de nós sem nós. Mas ao mesmo tempo, acho que o mercado se surpreendeu porque os indígenas que começaram a produzir e levar isso a sério, enquanto um trabalho, uma coisa que queriam fazer para sua vida, se dedicaram, estão se dedicando a trabalhar com isso e, também, estão se descobrindo nisso, de falar, “sim, eu sou artista”. Conhecendo outras coisas, fazendo essas relações, de muita gente que, às vezes, não é indígena, ou que usa muitos elementos dos povos indígenas para fazer, para trabalhar, e fala: “como assim? Ah, então isso é arte, tá bom. Então eu vou fazer arte.” O que era uma situação que se passava muito na cabeça da gente, vou fazer aqui um trabalho artístico, era aquela relação de fazer coisas, mas sem um pensamento de venda, de que aquilo ali movimentava. A gente está nesse lugar agora de também poder conhecer isso. De uma certa forma, tudo isso é novo, se a gente for pensar sobre artistas que ganharam visibilidade, a gente fala de Jaider [Esbell], Daiara [Tukano], Denilson [Baniwa], são artistas há muito tempo no mercado e, também, foram eles que ajudaram a abrir caminho, no sentido de que estavam fazendo e estavam com esse diálogo com as instituições e, de repente, isso abre portas para outros artistas. Como acredito que eu, Ziel, e todos que estão conseguindo se manter ativos, estão abrindo portas para outras pessoas, as relações que temos travado nem sempre são amistosas porque, às vezes, é um novo espaço, tem que dialogar com as instituições, também tem essa coisa de entender especificidades que têm a ver com o próprio trabalho, que têm que ser negociado.
Tenho feito muita performance com Ziel, e a gente sempre tem esse diálogo porque usa o cachimbo, tem fumaça, sempre fico falando com ele que a presença da gente tem que ser dialogada, nunca é uma coisa “venham fazer”, porque a gente trabalha com pintura corporal, com fumaça, com canto. Então sempre existe uma coisa, porque dentro dos museus, sempre tem “ai, porque não, porque é fumaça, não pode isso, não pode…”, então são coisas que eu gosto de pensar sobre essas relações, e o próprio trabalho, como isso dialoga, o que vale a pena fazer, o que não vale. Eu lembro que depois da Bienal, a gente tinha sido convidado a fazer uma performance na Itália, de novo. Eles falaram que a instituição que eles convidaram era toda branca. Eles falaram “Ah, só que vocês estão sempre pintados, vocês topariam ficar dentro de um casulo, e aí filmaria esse casulo” E eu falei não (risadas), porque para mim está estranho isso, como se quisesse a coisa artística, mas a presença da gente ali não fosse bem-vinda. No sentido de que faz parte do nosso trabalho, então para mim era mudar de mais, sabe? Eu estava ali, mas não estava. Ainda brinquei com eles, é meio que urna funerária. Mas acho que, ao mesmo tempo, não sei se todas, mas as instituições são feitas de pessoas e às vezes esquecemos disso, nas relações, nessas diplomacias de conversa mesmo. “Não, porque isso e não sei o quê, porque o sistema, não sei o quê”, só que alguém opera esse sistema, o sistema é operado por pessoas. Então eu acho, que de uma certa forma, esses tensionamentos são uma forma de dialogar e pensar essas novas relações futuras. Talvez não seja a gente que vai mudar, mas pelo menos as tensões existem e aí se conversa, se discute, sei lá, talvez em algum momento apareça algum dirigente que pense mais sobre isso e que queira mudar essa relação e, aí, provavelmente, eu não vou conseguir essa tal mudança, mas espero que os outros consigam, que seja mais fácil quem está chegando.
Andrade: Mas, voltando ao nosso recorte, queria ouvir sua percepção sobre o papel da representação oficial brasileira na Bienal de Veneza. Desde a primeira participação do Brasil, em 1950, existe o envolvimento do Itamaraty nesse processo, dentro dessa estrutura de participações oficiais dos Estados. Na sua visão, qual é a importância de o Brasil estar presente em Veneza como uma representação oficial? E que significado isso ganha para um país do Sul Global, dentro de um evento historicamente marcado por referências europeias e ocidentais?
Tupinambá: Acho que o Brasil é um país de diversidade. Acho que esses deslocamentos me fazem pensar muito sobre isso, a diversidade e, olhando artisticamente, acho que somos muito ricos, temos artistas muito bons. Essas representatividades fazem com que as pessoas também entendam mais um pouco mais sobre essa diversidade. Pessoalmente, para o Brasil, essa diversidade mostra a capacidade que temos artisticamente, de representações. Somos muito diversos e a arte também traz isso, essa diversidade. Acho que talvez, não sei como é que de fato isso chega para o governo e tudo, mas acho que a arte pode desempenhar esse papel de trazer um pouco mais de orgulho e fortalecimento para o próprio povo, de identidade mesmo. Acho que a gente precisa muito da arte para valorizar nossa cultura, de uma outra forma, de valorização da identidade, porque até nessas itinerâncias que fiz no Brasil, vejo o quanto o país na verdade precisa disso. E acho que deve levar para fora. É isso. Mostrar diversidade, cultura, a identidade, sabe? Porque é muito legal quando a gente vê. Eu estava falando até um pouco sobre isso com o Ziel, ontem, que depois da Paulo Gustavo e da Lei Aldir Blanc, o quanto as cidades se movimentaram artisticamente, culturalmente. A quantidade de pessoas que está produzindo, fazendo filme, Isso movimenta uma cadeia que não é só quem está trabalhando ali, mandando um projeto, são várias pessoas trabalhando, e as pessoas da comunidade se envolvem, e a comunidade se enxerga naquilo. Então, você é de um lugar, quando faz trabalho artístico quer mostrar o máximo de quem é. Mas não só o artista vem com uma bagagem que é cultural, que é de onde você vive, mora, é identidade, é cultura. Então acho que esses processos de internacionalização fazem com que a gente se mostre para o outro, no sentido dessas mudanças, de quebra de fronteiras. A arte tem servido para as pessoas conversarem e se mostrarem, de uma certa forma, através da arte.
Andrade: Aproveitando essa sua fala, qual a função da arte para você, no fim das contas? Qual o papel da arte? A arte deve desempenhar um papel?
Tupinambá: Deve! Depende, é complexo! Para mim, de onde venho, é difícil pensar numa coisa que seja apenas belo, apesar de os povos indígenas gostarem de fazer coisas bonitas, de fazer as coisas que chamem atenção no sentido de gostar de ver, de ser agradável para os olhos. Isso aí eu vejo nos mínimos detalhes, no sentido de que, se a gente vai fazer uma pintura, tem que ficar bonito nos próprios adereços, de chamar atenção, aquela coisa. Mas acho que a arte, assim como entendo hoje, pensando nesse processo que a gente conhece como arte ocidental, e me botando nesse processo também. A minha arte, eu faço com que ela seja política, eu não consigo fazer uma coisa que seja só bonita, porque eu acho que precisa comunicar inquietações e coisas importantes. Então, para mim, se for só bonito, não me chama atenção, porque acho que tem que conversar. Isso é uma coisa que inclusive discuti muito com a minha galerista. Eu falei: “vou fazer o que quero fazer, não vou me adaptar. Se quiser me aceitar assim, vai ser assim. Porque não quero me adaptar ao que mercado quer, ao que a galeria quer”. Desde que comecei a trabalhar com arte, eu sempre falo com minha mãe, assim, que eu dei sorte porque faço o que gosto, não faço arte pensando no mercado. Faço porque gosto e existem questões que quero provocar e encontrei a arte para isso. Mas se ela vai ocupar, ganhar visibilidade, se as pessoas vão gostar, isso daí já é uma outra coisa. E eu sempre falo que dou sorte, porque as pessoas gostam do trabalho que faço, então, de uma certa forma, isso para mim é importante, fazer o que gosto, acredito não me moldar para o mercado, para que seja uma obra vendável, alguma coisa assim.
E aí foi muito interessante falar disso porque quando eu fui fazer uma residência artística em Maragogi, eu tinha mandado a ideia para a galerista, aí, de noite, estava pensando que era um trabalho de uma entidade que estava falando da questão da poluição das águas, aí, mandei uma mensagem falando: “ó, a entidade vai tirar uns plásticos da boca”. Aí ela: “não… não, não, porque esteticamente…” o galerista tem isso, tem que ser coisa que seja bonita, não sei o quê lá… Aí ela: “não, não acho que vai ficar legal”. Falei, não, mas eu vou fazer mesmo assim, depois a gente vê. Aí teve o processo de uma seleção em Londres, com a pré-COP, mandei a foto, que ela disse que não ia e a foto passou. Então, eu fui uma de quinze artistas do mundo inteiro, eu fui do Brasil, a segunda selecionada, teve dois artistas. Falei com ela que precisa acreditar no trabalho do outro, principalmente se você é uma galerista. O meu trabalho é um trabalho político, e quando ela me aceitou, ela tem que entender que meu trabalho vai ser político, não vou mudar isso. Mas isso é bom para as pessoas entenderem que dá para trabalhar com arte e não precisa ser só a coisa bonita. É o que eu gosto de trabalhar, falar sobre questão ambiental, trazer esse tema, pode ser que não gere nada, mas é o que eu gosto de fazer. Não vou fazer uma coisa só para vender, não quero capa da Vogue, se quisesse, ia ser modelo! Se for uma coisa só para ser bonita, para ser vista, aí eu deveria procurar outra coisa.
Andrade: Você gostou do resultado final do pavilhão Hãhãwpuá?
Tupinambá: Acho que as obras, pelo que entendi dos curadores, principalmente dos curadores indígenas, que foram Arissana (Pataxó), Caboco (Gustavo Caboco Wapichana) e Denilson, primeiro, acho que as obras conversavam entre si. Segundo, acho que eles queriam também trazer artistas que estavam desenvolvendo trabalhos que tinham relação com a comunidade. O meu trabalho Equilíbrio surge em um processo de um outro trabalho na aldeia de educação ambiental e reflorestamento. E aí surge esse filme Equilíbrio, a partir dessa relação com o território, de como as coisas estavam acontecendo. Glicéria tinha esse trabalho que era com o manto, de ressurgimento do manto, então, tinha uma relação também com a comunidade, das pessoas que começavam a catar aquelas penas, entregavam para ela. E Ziel também, porque tinha aquela relação que era o refazer. Ele aprende a fazer a rede, com o tio dele, porque ele estava querendo fazer essa rede, então, é essa conexão mesmo de ancestralidade. É como se as obras estivessem sendo tecidas por uma coletividade, de certa forma. Isso é uma análise minha, não me falaram isso não, mas foi o que eu percebi, que conversavam essas obras ali, tudo tinha uma relação de identidade, ancestralidade. E, assim, você conseguia ver essa coisa também no meu filme, eu apareço como aquela entidade que é a Kaapora, responsável por manter o equilíbrio entre os seres humanos e os outros seres. Glicéria vem com o manto que também vem através do sonho, desse ensinar, então acho que as obras conversavam…
Andrade: Você gostou da escolha de Equilíbrio para Veneza, ou teria levado outro trabalho?
Tupinambá: Eu goste, acho que foi uma boa escolha. A única coisa que era um filme, e eu resolvi fazer a instalação, para também ter uma coisa ali. Depois não sei como ficou, mas logo no início, eu molhava a terra e começavam a nascer coisinhas. Depois, já no final, o pessoal da Bienal até me mandou foto que as batatas começaram a crescer porque tinha batata. Na última foto estava cheia de broto.
Andrade: E o que você acha que a entidade Kaapora tem para transmitir ao mundo?
Tupinambá: Quando fui fazer os filmes, tem dois com essa entidade, Sempre pensei que existe uma dificuldade da humanidade em entender essa questão que a gente está vivendo, acho de perda mesmo, das espécies e tudo. É como se fosse difícil a gente entender que o que a gente está passando, mudanças climáticas, tem uma relação com a nossa relação com esse planeta. Aí, quando eu escolho essa entidade para falar sobre isso, dessa relação, é porque, de fato, eu também não me sentia legítima para falar como Olinda, porque eu também sou humana. Então, mesmo que meu impacto sobre a questão ambiental, sobre esse planeta, possa ser menor, eu também faço parte dessa humanidade, e que de uma certa forma também causa impacto. Aí pensei: quem vai falar isso? A entidade seria essa pessoa perfeita para falar disso. Eu acho que a entidade surge justamente para falar à humanidade o quanto a gente é arrogante, o quanto a gente se sente o centro das atenções. E a gente é burro, na verdade, porque não entendemos que nós somos parte disso tudo, somos partes. E entender isso, que somos apenas uma parte, não o todo, e que, na verdade, a gente precisa dessas outras relações. Precisava ser a entidade para falar isso. E acho que ela cumpriu bastante o papel dela, nesse sentido, da mensagem que ela traz nos dois filmes, porque no primeiro filme ela aparece no ‘Chamado das Matas’, que é justamente o filme que fala desse trabalho do Kaapora, de educação e reflorestamento, e depois, eu faço Equilíbrio, que é um filme mais narrativo, de falar mesmo, como se ela estivesse falando para o público.
Andrade: Entendi, Olinda. Pensando na experiência de vocês em Veneza, tanto em relação à Bienal quanto ao Pavilhão Brasileiro, o que você considera que funcionou bem e o que poderia ser transformado? Existe alguma lacuna que você tenha percebido na estrutura, na organização ou na própria forma de construir a representação brasileira que deveria ser considerada em futuras edições?
Tupinambá: A positiva acho que foi estar ali. Como você mesma disse, já foi um grande passo abrir essa possibilidade, que foi uma coisa importante, até para a própria arte indígena. Estar ali, foi uma coisa que para os artistas indígenas, para quem estava, também se entender um pouco melhor sobre isso. A Aislan (Pankararu) foi para a Bienal de São Paulo, acho que a gente abriu um precedente mesmo, para se enxergar, se ver essa coisa da arte indígena. Uma coisa que eu melhoraria, não sei se não teve recurso, não sei como foi, mas o Pavilhão estava mesmo feio, você percebia uma coisa meio desleixada. Acho que já tinha tempo que o Brasil, depois do Bolsonaro, não tinha feito outra Bienal, não sei. A aparência estava meio decadente, achei que isso foi uma coisa ruim. Outra coisa foi a falta de banheiro banheiro nos pavilhões, é meio difícil ali, principalmente quando você vai trabalhar com arte que envolve performance, seria bom se tivesse banheiro. Outra coisa, uma crítica talvez, que seria essa coisa do tempo. A gente chegou antes, mas o tempo todo estávamos trabalhando, montando, chegava lá, no máximo nove horas da manhã, e às vezes saia sete da noite. Depois, era todo dia trabalhando, aí, quando terminou de arrumar, no outro dia, a Bienal já abria, mas a gente não teve tempo de ver os outros pavilhões, isso foi uma das coisas que mais me chateou. Porque, de fato, a gente tinha a oportunidade de conhecer uma diversidade mesmo, eu falo de conhecimento. Poder entrar, ver, inclusive, outros artistas indígenas, de outros países, e acabou que a gente não conseguiu ver, de tanta coisa que tinha, porque quando abriu, a gente tinha um monte de entrevista, nunca tinha tempo. Teve um dia que falaram “vai ter um dia que a gente vai não sei aonde”, marcaram uma coisa e nem aconteceu. Começou a aparecer um monte de entrevista, um monte de coisa, aí, não fez. Então, se tivesse pelo menos um dia para, de fato, a gente poder acompanhar, ir em outros pavilhões, seria ideal. O único que vi, de pavilhão, foi o que ganhou, da Austrália. Se tratava, justamente, de uma árvore genealógica dos povos indígenas, eles escreveram o pavilhão inteiro, fizeram com giz, escreveram a árvore genealógica de povos indígenas da Austrália. E imprimiram histórias de indígenas que tinham sumido na prisão, botaram um monte, tinha uns que era um vazio, como se aquela pessoa tivesse sumido, sumiu e ninguém sabe da história, aí deixava um vazio. Superinteressante.
Andrade: Olinda, como você percebe a relação entre a imagem que o Estado brasileiro pode querer projetar no exterior e aquilo que a produção artística efetivamente expressa? Você acha que uma representação artística, como a do Pavilhão Brasileiro em Veneza, pode funcionar como um espaço para o Brasil construir ou apresentar uma determinada imagem de si para a comunidade internacional? E, nesse processo, como você percebe a relação entre essa possível representação do Brasil e a liberdade de criação dos artistas?
Tupinambá: Eu acho que é um recorte quando o Brasil leva artistas indígenas, três artistas indígenas acho que é um recorte de que o Brasil está falando da importância de se olhar para esses povos também porque, como falei, a gente tem uma diversidade. É claro que eu, enquanto Olinda e Ziel, não é uma imagem do Brasil, é um recorte da imagem do Brasil. Então, acho que o governo queria expressar essa vontade de que essas pessoas também deveriam ter, levar o olhar naquele momento para essas populações, não no sentido de “o Brasil agora vai ser isso”, mas uma parte do que está sendo produzido, as pessoas que estão ligadas à arte, que viajam, conhecem, assim como vão brasileiros que estão ligados à arte para lá, vem gente para cá. E isso a gente tem visto não só na Bienal, o museu ligado ao governo [provavelmente uma referência à exposição ‘Nhe’ẽ Porã’, realizada pelo Museu da Língua Portuguesa – que é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, segundo o site do próprio – no Museu de Arte do Rio em 19 de abril de 2024] também abriu exposição com Daiara [Tukano], teve obra de Jaider [Esbell], então acho que o governo está querendo ajudar, de uma certa forma, os artistas indígenas a terem essa visibilidade, falar assim: “olha, eles também estão produzindo arte, eles também estão acontecendo”, porque se, de fato, o governo não fizer, quem é que vai fazer? Isso tem que ser institucionalizado e a questão da arte, tem isso, quem é que diz o que é arte ou não é arte? Então, as instituições também acabam ocupando esse papel de te dar o título de artista, nesse sentido, porque como eu falei, não tem como eu dizer que depois que participei. Na primeira vez que participei da exposição Véxoa: Nós sabemos, que foi uma das primeiras exposições da Pinacoteca de São Paulo (ocorrida em 2021) que reuniu vinte e três artistas indígenas eu já vi essa diferença de que depois que participei lá, essa questão da visibilidade foi mudando, meus filmes realmente começaram a circular muito mais. Então, a institucionalização, esse aval de dizer para um público “olha, essa pessoa é artista” te põe em um outro lugar. Aí, acho que o governo também quis fazer isso, nesse lugar de movimentação, de trazer esses olhares para esses artistas indígenas e entender que isso também é importante para o país, para a cultura.