A Diretoria de Relações Internacionais (DRI) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) abre a nova seção de entrevistas e conversas com a entrevista do embaixador Marco Antonio Nakata, diretor do Instituto Guimarães Rosa, órgão estabelecido em 2022 no âmbito do Ministério das Relações Exteriores, responsável pela promoção da cultura brasileira no exterior e pelo fortalecimento da diplomacia cultural. A entrevista, dividida em dois momentos diferentes, foi concedida à técnica administrativa em educação da DRI/UFJF, Edmárcia Andrade, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens/UFJF. A primeira entrevista foi realizada em 2024, e a segunda entrevista, a seguir, foi realizada no dia 22 de setembro de 2025, em formato remoto.
A conversa integra a pesquisa de doutorado da entrevistadora, dedicada à representação brasileira na 60ª Bienal de Arte de Veneza, em 2024. A entrevista contribui para ampliar a compreensão sobre os atravessamentos entre produção artística, representação nacional e relações diplomáticas na contemporaneidade. A iniciativa aproxima, assim, a pesquisa acadêmica desenvolvida na UFJF das ações de internacionalização da universidade, ampliando o espaço para pensar a arte como forma de intercâmbio cultural e de aproximação entre povos e instituições.
O espaço dedicado a esta entrevista parte do reconhecimento da DRI/UFJF de que as artes visuais constituem um espaço de diálogo, intercâmbio e construção de relações entre diferentes sociedades. Essa perspectiva encontra expressão na própria atuação da Diretoria, que criou a Galeria Mundi para ser um espaço destinado às artes visuais e à promoção do encontro entre produção artística, universidade e diferentes perspectivas culturais.
ARTES VISUAIS E DIPLOMACIA CULTURAL – Parte II
A partir da Bienal de Veneza, fundada em 1895, uma das mais importantes plataformas internacionais de arte contemporânea, a entrevista propõe uma reflexão sobre os caminhos pelos quais a arte brasileira circula internacionalmente e sobre os possíveis diálogos entre artes visuais, representação do país e relações internacionais. Mais do que uma plataforma de circulação artística, a Biennale, organizada historicamente a partir de pavilhões e representações nacionais, estabelece um espaço de legitimidade e disputa de narrativas no campo da arte contemporânea, como também no cenário geopolítico mundial. Portanto, um espaço privilegiado para a compreensão do papel das artes visuais na diplomacia cultural.
A estreia do Brasil em Veneza foi em 1950 e, desde então, o Itamaraty participa do processo de organização das representações, envolvido institucionalmente na articulação diplomática. Ao longo de mais de sete décadas, a participação brasileira acompanhou diferentes momentos da produção artística brasileira e das transformações políticas, culturais e diplomáticas do país. A presença do Brasil em Veneza permite, assim, observar como as artes visuais podem ultrapassar os limites do campo artístico e participar da construção de imagens, narrativas e formas de representação do país no cenário internacional.
Na entrevista, o embaixador Nakata reflete sobre o papel das representações do Brasil na Bienal de Arte de Veneza, sua importância para a diplomacia cultural brasileira, o soft power, e os diferentes atores e instituições envolvidos nesse processo. Entre eles, estão a Fundação Bienal de São Paulo, o Ministério da Cultura, por meio da Funarte, e o Ministério das Relações Exteriores, atualmente, por meio do Instituto Guimarães Rosa. A conversa aborda ainda as relações entre escolhas artísticas e institucionais, a participação do Itamaraty nas representações brasileiras e as possíveis contribuições da arte para a projeção internacional do Brasil, para a construção de sua imagem e para o fortalecimento de relações culturais e diplomáticas.
Realizado pela plataforma Google Meet no dia 22 de setembro de 2025, duração 45min.
Andrade: Embaixador, talvez esta possa parecer uma pergunta bastante básica, mas gostaria
de começar por uma distinção conceitual. Para o Itamaraty, existe diferença entre a
construção e a projeção de uma determinada imagem do Brasil no exterior e a transmissão
de ideias, valores ou perspectivas que o Brasil busca representar internacionalmente? Como
o Ministério compreende essa diferença?
Embaixador: Bom, essa é uma pergunta muito difícil… por várias razões. Primeiro, porque a
gente nunca tem uma ideia muito precisa daquilo que realmente, efetivamente, está chegando.
É aquela velha história entre a diferença e a realidade, e a percepção da realidade. A gente
transmite, busca transmitir uma imagem que, enfim, nem é uma imagem. É difícil, porque
abstratamente, poderíamos dizer que nós buscamos transmitir uma imagem de um país criativo,
diverso, buscamos fugir na diplomacia cultural dos clichês, daquilo que as pessoas já sabem e
percebem do Brasil. Ou seja, quando você fala no exterior sobre o Brasil, as pessoas têm sempre
aquela imagem do país, do carnaval, do futebol, das praias, etc. Então a gente procura também
diversificar e fugir desse clichê, mostrar a diversidade do país. Se a gente consegue, quer dizer,
idealmente, a gente teria de fazer uma campanha multimilionária no mundo inteiro. Porque a
gente tem um alcance limitado, evidentemente, limitações orçamentárias, de pessoal.
Então, a gente faz projetos no mundo inteiro, mas isso não quer dizer que, por exemplo,
mesmo no caso da Bienal de Veneza, que é o tema da sua tese, a gente tenta apoiar uma
iniciativa que é extremamente importante, mas quanto por cento da população da Itália
efetivamente vai até Veneza? Ou mesmo que não tenha ido, quanto por cento leu sobre a
participação? Não somente sobre a bienal, mas sobre a participação brasileira na bienal? Se
você começa a questionar esse universo, de pessoas que efetivamente receberam a informação,
você verá que é um universo limitado, de formadores de opinião, de uma elite cultural ou de
pessoas interessadas minimamente em cultura, que no fundo, é o que acontece no mundo
inteiro, com todos, sobre todos os temas. Mesmo, por exemplo, no caso de uma diplomacia
cultural muito mais robusta, por ter muito mais recursos, por dispor de muito mais recursos,
como é o caso da diplomacia cultural francesa, não. E eles têm um orçamento multimilionário.
Por exemplo, no caso do Brasil. Nesse momento, está acontecendo o intercâmbio entre
Brasil e França. O nosso está terminando daqui a oito dias, no final de setembro termina a nossa
participação. E a deles está começando e vai até o final do ano. Depois desse período todo de
diplomacia cultural francesa, de difusão de aspectos culturais da França no Brasil, se você fizer
uma pesquisa junto ao povo brasileiro para perguntar o que você sabe sobre cultura francesa. É
claro que nós que acompanhamos, que vamos às exposições, que vamos aos concertos, que
assistimos a filmes e etc., nós teremos uma visão determinada. Agora, se você fizer essa
pesquisa, se as pessoas vão dizer “houve uma exposição sobre arte contemporânea, no Sesc de
São Paulo e mostraram X artistas”, eu não sei se isso vai acontecer, entende?
Quer dizer, respondendo ou não respondendo à sua pergunta, o investimento em
diplomacia cultural é extremamente importante, é fundamental, mas ele atinge, e cada vez mais
eu percebo o que está acontecendo, não só no caso do Brasil para fora, como também de fora
para dentro, ele atinge um público específico. O que é muito importante porque é um público
que toma decisões, efetivamente. É um público que consome e que faz um turismo muito mais
específico. Não é um fenômeno de massa, isso que eu quero dizer. Mas é um fenômeno
extremamente importante porque atinge os formadores de opinião, os decision makers e
contribui para a formação da imagem daquele país.
Andrade: Tomando como exemplo a representação brasileira de 2024 em Veneza, que
contou com uma equipe de curadoria e um conjunto de artistas indígenas, gostaria de
perguntar: para o Itamaraty, uma representação como essa tem como principal objetivo
contribuir para a construção e projeção de uma determinada imagem do Brasil no exterior
ou existe também a intenção de transmitir mensagens e perspectivas específicas à
comunidade internacional? No caso de 2024, por exemplo, questões como a valorização das
culturas e ancestralidades indígenas, a relação com a natureza e a defesa do meio ambiente
foram consideradas também como dimensões relevantes da mensagem que o Brasil buscava
apresentar internacionalmente?
Embaixador: Eu acho que a imagem e a mensagem é a mesma coisa nesse sentido. Porque,
por meio da mensagem, você transmite, você quer construir uma imagem. Nesse caso
específico, não é o Itamaraty que define unilateralmente qual é a curadoria ou quem será o
curador e qual será o projeto adotado no pavilhão brasileiro da Bienal. O Itamaraty é
proprietário do pavilhão, mas a gente tem feito já há décadas uma parceria com a Fundação
Bienal de São Paulo e com o Ministério da Cultura. Em 2024, houve uma parceria, uma
coparticipação, e uma decisão conjunta tomada pelo Ministério da Cultura, pela Fundação
Bienal de São Paulo e pelo Itamaraty, pelo Instituto Guimarães Rosa. Isso é um consenso, isso
sim é uma questão nova que tem sido adotada, graças a uma mudança que eu acho bastante
saudável por parte da Bienal de São Paulo porque antes havia quase que um automatismo. O
curador escolhido para Bienal de São Paulo era automaticamente, no ano seguinte, escolhido
para ser o curador da Bienal do pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza. Não é mais assim.
Recentemente, decidiu-se ter esse consenso. E é bom porque teve uma participação maior de
outras instituições e, com isso, a gente conseguiu uma diversidade maior. Então não há uma
deliberação por parte do governo. Isso coincide com a pauta do governo de diversidade, de ter uma
valorização da cultura indígena que ficou invisibilizada ao longo de muito tempo. Então, acho
nada mais justo que haja essa participação, que eles sejam valorizados e que no pavilhão a gente
tenha tido, como a gente teve, curadores e artistas indígenas. E a mensagem é muito positiva, a
gente pôde passar uma mensagem, como você está dizendo e, assim, por meio dessa mensagem,
mudar a imagem do Brasil no sentido de mostrar um país que está conectado com esse ethos
contemporâneo de reparação, de diversidade, de valorização das culturas tradicionais. E isso é
muito positivo.
Andrade: Houve outras mudanças na representação de 2024 com o envolvimento do
Itamaraty? Só para poder entender, o que criação do IGR trouxe de mudança na
representação brasileira de 2024.
Embaixador: Não sei se eu cheguei a falar sobre isso com você, mas o Instituto Guimarães
Rosa, do ponto de vista jurídico, é exatamente o mesmo que era o Departamento Cultural. Não
houve uma mudança no status. E o fato de ter sido criado não quer dizer que isso tenha levado
à Fundação Bienal de São Paulo a mudar a escolha dos curadores. Uma coisa não tem nada a
ver com a outra.
Andrade: Foi uma coincidência?
Embaixador: Sim, foi uma coincidência. Mas não sei se foi realmente uma coincidência,
porque o IGR foi criado em 2022, em 2023 teve a Bienal de Arquitetura e não teve nenhuma
mudança. Foi algo que a Bienal de São Paulo decidiu fazer e que por acaso a gente participou.
Andrade: E antes desse momento, o Itamaraty se sentia alijado da organização das
representações de Veneza, que o senhor saiba?
Embaixador: Não, não acho, porque como existia uma regra específica, e a regra era esse quase
automatismo que eu mencionei, então não. Já se sabia que o curador da Bienal de São Paulo
seria o curador do pavilhão brasileiro, então já estava definido. Não, não, o Itamaraty não se
sentia alijado do processo, não, de forma alguma.
Andrade: Embaixador, o que o Itamaraty pretende transmitir à comunidade internacional
por meio das representações brasileiras na Bienal de Veneza? Que imagem do Brasil o país
busca projetar e que mensagem pretende apresentar ao público internacional?
Embaixador: Primeiro, uma imagem que fuja do clichê. A gente nunca vai fazer um pavilhão
que tenha lá fotos de Carnaval, por exemplo, ou de futebol, a não ser que seja alguma coisa
específica, artisticamente relevante nesse sentido. Segundo, é a questão também da qualidade
artística, e acho que isso é fundamental, a qualidade estética que demonstre o Brasil conectado
com a contemporaneidade, um país que tem artistas que dialogam com o que acontece no
mundo não só do ponto de vista cultural, estético, artístico, mas também político, humanista.
Mostrar um Brasil que tenha valores humanistas é uma questão muito importante e a cultura é
um vetor para transmitir essas mensagens de democracia, de valores humanistas, de tolerância,
então isso é muito importante.
Andrade: Aproveitando o cenário contemporâneo que o senhor trouxe, gostaria de
perguntar se as transformações que vêm ocorrendo na ordem internacional têm implicações
para a diplomacia cultural brasileira. Por exemplo, diante do reposicionamento das relações
entre Brasil e Estados Unidos, a partir de Donald Trump, o Brasil buscou estabelecer maior
aliança com a China no campo econômico. No âmbito da diplomacia cultural, as
transformações na ordem internacional, como a reconfiguração das relações de poder entre
os países, a guerra entre Rússia e Ucrânia e o conflito entre Israel e Palestina, esse cenário
geopolítico repercutiu de alguma maneira nas estratégias de promoção da cultura brasileira
no exterior, na diplomacia cultural?
Embaixador: Tem sempre uma consequência inevitável. Porém, é difícil dizer, porque
justamente a questão da diplomacia cultural é muito específica, no sentido de que buscamos,
no final das contas, o soft Power que é diferente do hard Power. A ideia que a gente busca é de
uma continuidade, independente das questões circunstanciais que estejam acontecendo. A
diplomacia cultural brasileira busca justamente mostrar a complexidade, a riqueza, a
diversidade da cultura brasileira para o mundo inteiro. E a implicação disso é que a gente
buscaria ter uma atuação em todas as frentes. É claro que, por questões de guerra, etc., muitas
das atividades que a gente busca, deixam de fazer sentido, porque não dá pra você mandar
artistas para um país que está sofrendo ataques de mísseis, por exemplo. E muitos artistas nem
vão querer ir! Você não vai querer ir para a Ucrânia nesse exato momento em que está tendo
ataques, você não vai querer fazer um show na Ucrânia ou na Rússia, ou em Gaza ou em Israel,
quer dizer, a questão não é você tomar partido de um ou de outro lado, mas de realmente evitar
riscos, físicos inclusive. Então, essa que eu diria ser a dificuldade ou o desafio que a gente
percebe nesse campo, na diplomacia cultural.
Andrade: Embaixador, agora, indo direto a um ponto: a decolonialidade é uma preocupação
para o Itamaraty?
Embaixador: Sim, é um tema que tem sido abordado bastante entre nós. Divulgamos bastante
nas orientações que damos para os postos, mencionamos muito essa questão colonial. E da
herança colonial e das implicações disso, a questão da herança africana e da valorização dos
artistas afrodiaspóricos, dos artistas indígenas, LGBTQIA+, enfim, tudo isso faz parte da pauta
de maneira que são orientações muito claras e específicas. Tudo isso é dito de maneira muito
objetiva nas orientações que nós damos para a programação cultural. E tem dado muito bom
resultado. A questão de gênero também, de ter o equilíbrio entre artistas masculinos e
femininos, a questão da diversidade regional para que haja uma valorização de artistas de outras
regiões que não seja só Rio, São Paulo. Tudo isso é levado em conta e é colocado claramente
como uma política cultural. Agora, dito isso tudo, eu sempre enfatizo a questão da qualidade
artística também. Porque a gente não pode deixar de levar em conta a importância artística e
estética dos artistas. Então eu acho que a qualidade da diplomacia cultural, do programa cultural
brasileiro é muito alta, e a criação desse comitê consultivo89 que a gente fez recentemente
[formado por representantes de sete segmentos artísticos e culturais] vai contribuir para isso.
A gente está começando agora a fazer as reuniões, porque como são pessoas que eu escolhi,
pessoas que são muito respeitadas, mas também que têm agendas muito complexas, mas isso
acabou sendo um obstáculo para que a gente pudesse começar tudo de maneira muito rápida.
Enfim, até o final do ano a ideia é começar a implementar os trabalhos do comitê consultivo. E
vai implicar uma participação muito grande da sociedade civil na formulação da política
cultural brasileira.
Andrade: O senhor falou sobre os resultados positivos que já estão sendo vistos com essa
“política da decolonialidade”, vamos assim denominar. Quais são os resultados, embaixador,
se é possível, de alguma maneira, dizer?
Embaixador: O que eu noto é a programação proposta pelas embaixadas, pelos consulados,
levando em conta esses aspectos. A gente tem tentado fazer uma estatística, obter dados
estatísticos desses projetos, porque eu não tenho acesso a todos os projetos, mas eu vejo muita
coisa que chega e muitos projetos de artistas indígenas, muitos projetos de artistas
afrodiaspóricos, enfim, muitos curadores que tratam desse tema e que, por conseguinte, acabam
sendo levados em conta. Um dos projetos que a gente apoiou, acho que foi no ano passado, e
que aconteceu em Genebra, na ONU, foi a exposição Atlântico Negro90, de curadoria do
Marcio, esqueci o sobrenome. Ele é curador do Museu MAR, do Rio de Janeiro, ele mesmo
sendo um curador negro, e levou uns 12 artistas afrodiaspóricos para Genebra. Esse foi um
projeto que a gente apoiou desde o início e que depois acabou tendo uma exposição no MAR,
no Rio de Janeiro, e a ideia é a gente tentar levar para um país de origem africana. Enfim, esse
é apenas um dos exemplos. A gente também apoiou uma exposição em Chicago com artistas
negros do mundo inteiro. Nós apoiamos também uma exposição que o MASP fez de histórias
indígenas e que depois levaram para Oslo. Mas infelizmente, nossos recursos não são
suficientes para a gente pagar a exposição. Evidentemente que são muito caras. Mas a gente
contribuiu com um valor baixo, mas que foi importante para passagens, para um catálogo, etc.
Então a gente apoia efetivamente esses projetos, e tem dado muito bom resultado.
Andrade: Uma outra questão, talvez mais conceitual. Existe um ponto de vista sobre a
diplomacia cultural no Brasil: uma percepção de que o Brasil desenvolveu uma política de
promoção da cultura brasileira no exterior, mas nem sempre uma política externa cultural
mais sistemática e articulada com a política exterior do país. O senhor identifica essa
diferença? Segundo este ponto de vista, o próprio campo das artes, ou seja, os artistas,
curadores, críticos, galeristas e instituições culturais, parece compreender a
internacionalização da produção brasileira como uma política cultural externa. E sob o
mesmo ponto de vista, essa internacionalização poderia estar inserida em uma política
externa mais ampla, com planejamento, diretrizes e instrumentos institucionais próprios.
Como o senhor percebe essa relação? Em outras palavras: segundo este ponto de vista, existe
a política cultural externa no Brasil e não a política externa cultural.
Embaixador: Eu não entendi muito bem qual que é a dificuldade dos artistas em relação à
diplomacia cultural. Eu acho que os artistas têm essa percepção de que, claro, tem um público
interno muito grande para várias manifestações de arte e, talvez por isso, como acontece
também com uma série de produtos e serviços brasileiros, acabam não tendo essa projeção
externa porque já encontram um público e um mercado interno. No caso específico dos artistas,
pelo menos as pessoas com quem eu tenho contato, eu acho que há uma percepção de que é
fundamental ter uma carreira internacional para que você possa ter uma projeção maior
nacional. E aí, voltando àqueles dois exemplos que eu citei, tanto no caso do Hélio Oiticica,
como no caso da Lygia Clark, você pode ver que ambos tiveram uma projeção internacional
muito forte e que isso ajudou ambos a terem uma projeção nacional. O Hélio Oiticica morou
em Nova Iorque, morou em Londres e teve, claro, o Guy Brett que o ajudou muito a fazer as
exposições, escreveu sobre o trabalho de ambos, etc. E a Lygia [Clark] conheceu aquele crítico
francês, Yve-Alain Bois, que também escreveu muito sobre ela. Ela teve exposições, deu aula
na Sorbonne, essa projeção internacional ajudou muito que eles tivessem um reconhecimento
nacional. Eu acho que na música também aconteceu muito isso. A bossa nova era muito
criticada no Brasil, e no momento em que ela começou a ter um sucesso no exterior, mais
precisamente no caso dos Estados Unidos, aquele famoso show no Carnegie Hall, depois o
Frank Sinatra gravou com Tom Jobim, a Ella Fitzgerald gravou canções do Tom Jobim, etc., aí
passou a ser mais aceita internamente. Eu acho que tem um pouco esse fenômeno, que há um
reconhecimento, por parte dos artistas, de que é importante porque acaba sendo uma forma de
reconhecimento internacional do talento deles.
Andrade: Embaixador, para encerrarmos, gostaria de fazer uma última pergunta.
Considerando os objetivos do Itamaraty e, atualmente do Instituto Guimarães Rosa, o senhor
identifica hoje alguma lacuna na forma como a representação brasileira na Bienal de Veneza
é organizada ou na própria participação do Brasil no evento? Existe algum aspecto desse
processo — seja institucional, artístico, curatorial ou diplomático — que, na visão do senhor,
poderia ser aprimorado para que a representação brasileira alcançasse de maneira mais
plena seus objetivos?
Embaixador: Não. Eu acho que é um privilégio a gente ter um pavilhão nosso, que é um
pavilhão muito bonito, pequeno, mas muito bonito. É desafiador porque os espaços são
limitados, tem aquela comunicação interna, depois abre para um espaço maior, mas eu acho
que é um pavilhão já bastante tradicional, muito respeitado, já ganhamos prêmios, como você
sabe, a Ana Maria Maiolino ganhou o Leão de Ouro, artista reconhecida. O Paulo Mendes da
Rocha, também ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura. Na penúltima Bienal de
Arquitetura nosso pavilhão também foi premiado. Quer dizer, eu acho que isso tudo,
evidentemente, é um prestígio para o Brasil. É uma forma de reconhecimento da importância
da arquitetura, das artes brasileiras. Tem vários países que não têm pavilhão, tem alguns que
precisam dividir o pavilhão, eu acho que os argentinos, por exemplo, eles alugam, se não me
engano, um pavilhão, cada vez tem um espaço diferente. É, eu não vejo lacunas.
Eu acho que a Bienal de São Paulo fez um grande trabalho, que eles nos ajudaram a
fazer um restauro do pavilhão, estava precisando há muito tempo, e isso realmente é uma coisa
muito positiva. E eu acho que o fato de termos o desafio, a lacuna a que você está se referindo,
eu acho que é a própria Biennale. A cada dois anos temos que fazer um grande projeto. Isso
sim, é uma dificuldade. A gente precisa ter mais recursos para fazer os projetos. Nem sempre a
gente dispõe desses recursos. Mas além disso, realmente é um grande privilégio e é uma grande
plataforma que temos de difusão da arte brasileira.
Andrade: Para estes recursos, conforme o senhor colocou, existe algum tipo de parceria do
Itamaraty com o setor privado?
Embaixador: Com o Itamaraty não. A parte da exposição, propriamente, é financiada pela
Fundação Bienal. E aí eles usam a Lei Rouanet, evidentemente, e parcerias com a iniciativa
privada.