2018. Uma professora, dois estudantes, uma juíza de Direito e uma promotora de Justiça se unem para uma missão ao mesmo tempo árdua e necessária: juntar várias instituições e encarar, de forma conjunta e articulada, um tipo de violência que, ao final daquele mesmo ano, vitimaria mais de 263 mil mulheres e deixaria cerca de 1,2 mil delas mortas, apenas por sua condição de gênero, no Brasil. Nasciam, assim, duas importantes iniciativas ligadas ao tema na região do Vale do Rio Doce: a Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GAR) e o Núcleo de Integração e Fortalecimento da Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica (Nifram).

Organograma do GAR demonstrando todas as instituições integrantes e o papel central do Nifram na rede. (Imagem: Reprodução/site do Nifram)

O GAR é uma instância interinstitucional formada por representantes das áreas de segurança, saúde, assistência social, justiça, educação e sociedade civil. Essas instituições atuam em cooperação técnica, trocando experiências e saberes e traçando estratégias para a formulação de políticas públicas ligadas ao combate à violência de gênero. A gestão da rede fica a cargo do Nifram, programa de extensão do campus Governador Valadares da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-GV), que atua na comunicação, na promoção de capacitações e outras ações formativas e no mapeamento da rede de serviços.

“Dá todo o apoio técnico e estrutural para que o GAR aconteça. (…) Não vejo o GAR sem o Nifram.” – Carla Regina Goulart, promotora de Justiça

Juliana Goulart Soares do Nascimento, do Departamento de Administração da UFJF-GV, é a professora à frente dessa iniciativa, e conta como foi a criação do programa. “Estávamos terminando um projeto de extensão em que capacitávamos agentes comunitários de saúde que trabalhavam com violências contra as mulheres. Fazendo essa capacitação, percebemos que era uma demanda de Governador Valadares trabalhar esse tema de uma maneira mais forte. Então, pensamos em fazer algo maior, um núcleo que fosse trabalhar com a rede de enfrentamento às violências contra às mulheres.”

Integrantes do GAR na aprovação da lei na Câmara de Governador Valadares. Da esquerda para a direita, Izaac Santana, estudante, Antonio Carlos Rodrigues, Juliana Goulart, Carla Regina, Marina.., Leonardo Lemos e Nádia Carvalho. (Imagem: arquivo/Nifram)

E foi justamente em um evento desse projeto de extensão que deu origem ao Nifram que Juliana conheceu a juíza Solange de Borba Reimberg e a promotora Carla Regina Goulart Salaro Duvanel. “Fomos visitando cada uma das instituições e formando a rede”, relembra a docente. Um trabalho que, segundo Juliana, exigiu muita dedicação, embora todos os segmentos tenham sido bem receptivos à ideia. “Demandou muito tempo para ir em cada um dos órgãos e sistematizar tudo. Mas em relação aos atores da rede, não teve resistência. Existiu algo muito interessante que foi a confiança na universidade”, explica.

Aliás, é essa credibilidade da UFJF-GV perante a sociedade, aliada ao rigor científico, que segundo Carla, torna o programa tão essencial à rede. “Dá todo o apoio técnico e estrutural para que o GAR aconteça. Porque é um órgão neutro, que consegue fazer esse link com todas as instituições de uma forma isenta. Dá uma segurança para que todos possam assumir as suas funções dentro da rede. E assumem com tranquilidade porque sabem que podem contar com o apoio do Nifram.” É por isso que, de acordo com ela, é impossível pensar a rede sem a atuação do programa de extensão. “Não vejo o GAR sem o Nifram”, enfatiza a promotora.

Rede de Governador Valadares é referência

Promotora de Justiça de Governador Valadares, Carla Regina, durante cerimônia de instalação do Banco Vermelho na UFJF-GV. (Imagem: Dionatam Fonseca)

Ao longo desses oito anos de atuação, o GAR vem se tornado referência em Minas Gerais quando o assunto é o enfrentamento à violência doméstica. Tanto que várias redes do estado, incluindo aquelas ligadas à infância e juventude e à execução penal, têm se beneficiado da experiência do grupo para a sua criação e configuração.

E uma das grandes responsáveis por essa conquista, na avaliação da promotora, é a atuação técnica da UFJF. “Nos auxilia na capacitação dos integrantes da rede, na preparação das nossas ações sociais e dos nossos seminários, na confecção de materiais e no estabelecimento de um protocolo único de atendimento às mulheres, de forma que elas não sofram com a (re)vitimização ou com a violência institucional. O Nifram é uma base do GAR, e a nossa rede, devido a esse apoio, é referência no estado”.

O GAR virou lei

Um dos principais diferenciais do GAR em comparação com outras redes semelhantes é olhar para o tema da violência contra as mulheres de uma forma ampla e multiprofissional. É que na rede de Governador Valadares estão inseridos tanto os órgãos que fazem o atendimento às vítimas quanto aqueles que atendem os agressores, como explica a coordenadora do Nifram:

Capacitação promovida pelo GAR em maio de 2023. (Imagem: Sebastião Junior)

“Trabalhamos a rede de maneira mais completa, entendendo que é um problema que só existe porque há quem agride. Então, não há como entender a violência contra as mulheres só sob a perspectiva feminina. Inclusive, antigamente era rede de atendimento às mulheres vítimas de violências. E houve a inserção do Programa Central de Acompanhamento de Alternativas Penais (Ceapa), exatamente por entender essa ideia de maior completude em relação ao tema, e passou a ser rede de enfrentamento às violências contra as mulheres. Por isso, o mapeamento dos fluxos que estamos fazendo para a rede não é só em relação ao atendimento às mulheres, mas também em relação aos homens. Nós discutimos essas questões tanto sob a perspectiva das vítimas quanto dos agressores. Nesse sentido, a CEAPA tem uma atuação bastante relevante, especialmente por trazer para o debate a perspectiva dos homens e por nos provocar a pensar sobre como a rede pode envolvê-los nas diferentes pautas que trabalhamos no dia a dia. Essa abordagem amplia nosso olhar e reforça a importância de incluir os homens não apenas na discussão sobre a violência, mas também nas ações de prevenção, responsabilização e transformação das relações de gênero”, destaca.

Mas, sem dúvida, o fator que coloca o GAR na vanguarda das redes protetivas existentes é a sua recente inclusão na legislação municipal de Governador Valadares. Desde 10 de abril de 2025, com a promulgação da Lei Ordinária n.º 7.794, o grupo deixa de depender da boa vontade dos governos, como normalmente ocorre com as demais redes espalhadas pelo país. “Conseguimos transformá-lo em lei, para que seja uma política pública permanente. Independente de quem entra e quem saia, ele continua ali”, comemora Juliana.

“Conseguimos transformá-lo em lei, para que seja uma política pública permanente. Independente de quem entra e quem saia, ele continua ali” – Juliana Goulart, coordenadora do Nifram

Quem também destaca essa elevação do GAR ao status de lei é a vice-coordenadora do Nifram. “É uma importante iniciativa porque formaliza uma articulação que já vinha sendo construída entre os serviços e instituições que atuam na promoção dos direitos das mulheres e no combate à violência de gênero. Ela fortalece o grupo como um espaço permanente de integração da rede de proteção. Isso é fundamental porque o enfrentamento da violência precisa ser feito de forma articulada, envolvendo diferentes instituições, como saúde, segurança, assistência social, justiça e universidade”, afirma Marina Oliveira Guimarães, professora do Departamento de Direito.

A atuação do Nifram na rede

Três grandes frentes de atuação norteiam o trabalho do programa junto ao GAR. O Nifram é responsável pela formação, mas também pelo mapeamento dos fluxos de atendimento e pela comunicação com o público. Os professores Leonardo Lemos da Silveira Santos e Antonio Carlos Rodrigues, ambos do Departamento de Administração, estão à frente desses dois últimos eixos.

O professor Leonardo em uma capacitação promovida pelo Nifram sobre mapeamento de fluxos da rede. (Imagem: Sebastião Junior)

“Nossa ideia é mapear os processos de atendimento que já são realizados pelos diferentes atores que fazem parte da rede. Queremos entender como esses processos funcionam hoje, identificar possíveis pontos de melhoria e, a partir daí, pensar em formas de integrar melhor esses atendimentos. No fim das contas, o projeto procura gerar resultados em duas frentes. Por um lado, queremos contribuir com as próprias instituições que fazem parte da rede, ajudando a melhorar seus processos e, principalmente, a integração entre elas. Por outro lado, esperamos que essa integração se traduza em um atendimento das mulheres em situação de violência que seja mais ágil, humanizado e qualificado. Esse talvez seja o resultado mais importante para nós”, detalha Leonardo.

Em relação à comunicação, o objetivo é ampliar o diálogo com a comunidade e garantir o acesso a estatísticas e demais informações sobre violência de gênero. E para isso, o programa mantêm um perfil no Instagram e, mais recentemente, criou um site onde é possível conferir um pouco da história do GAR e do Nifram e as principais realizações e eventos promovidos. “O site parte de uma ideia simples, mas fundamental: informação também é uma forma de proteção. Ele busca tornar acessíveis à comunidade de Governador Valadares tanto o conhecimento acumulado pelo núcleo ao longo de sua trajetória quanto as informações sobre os serviços disponíveis na rede para vítimas e agressores. Ao mesmo tempo, o site sistematiza e compartilha caminhos, aprendizados e referências construídos ao longo dos anos, respondendo também a uma demanda crescente de instituições que procuram o Nifram para compreender como essa experiência foi construída e como o trabalho em rede se organiza na prática, possibilitando que esse conhecimento inspire iniciativas adaptadas a outras realidades”, explica Antônio.

Nifram cumpre o papel da extensão universitária

Ao atuar diretamente na criação e governança da Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Governador Valadares, o Nifram acaba desempenhando aquele que é o papel central da universidade pública: promover a troca de conhecimentos com a sociedade e gerar produtos a partir dos anseios e necessidades do território onde está inserida.

“Com o início do Nifram, conseguimos perceber a presença de uma das diretrizes importantes da extensão, que é a interação dialógica, ou seja, compartilhar os saberes entre comunidade e universidade, de forma que não haja sobreposição e hierarquização desses saberes. É uma demanda da comunidade que o programa faça esse trabalho e é uma demanda da universidade poder atuar e colaborar com a comunidade”, afirma Juliana.

“O Nifram me deu o propósito de ser uma mulher que luta por uma sociedade mais igual e livre da violência contra a mulher” – Ana CláudiaFerreira, egressa da UFJF-GV

E nesse processo de interação quem também acaba se beneficiando, e muito, são os estudantes do campus, que graças à participação no Nifram tiveram uma formação mais diversificada e humanizada. Ana Cláudia Ferreira e Daniel Paulino são egressos da UFJF-GV. Os dois ajudaram a criar o programa de extensão e detalham como a participação na iniciativa foi essencial na trajetória pessoal e profissional deles:

A coordenadora do Nifram com os estudantes que criaram o programa com ela, Daniel Paulino e Ana Cláudia Ferreira. (Imagem: arquivo/Nifram)

“O impacto na minha formação se dá desde essa época aprendendo a comunicar com essas pessoas de áreas diferentes, integrar essas pessoas, promover uma sensibilização para o tema e colocar em prática aquilo que a gente acredita, que é a educação como responsável por promover essa mudança em relação à violência de gênero e por transformar as pessoas. E também é um impacto pessoal, porque a extensão universitária faz com que a gente expanda o nosso olhar sobre os outros e sobre si mesmo. O Nifram me deu o propósito de ser uma mulher que luta por uma sociedade mais igual e livre da violência contra a mulher”, explica Ana Cláudia.

“Sou muito grato à universidade pública por ter me propiciado uma das melhores vivências que eu poderia ter enquanto acadêmico” – Daniel Paulino, egresso da UFJF-GV

“Foi uma oportunidade de entrar em contato com a população, gestores locais, profissionais que compõem a rede de enfrentamento à violência doméstica e de começar a entender a complexidade de um problema social que é tão grave e que traz a importância do diálogo e da comunicação com as diferentes áreas do saber. Dessa vivência no Nifram trago uma das melhores contribuições, que é a importância de estarmos atentos ao que a interação com a comunidade com a qual estamos trabalhando pode nos revelar. Sou muito grato à universidade pública por ter me propiciado uma das melhores vivências que eu poderia ter enquanto acadêmico: o desenvolvimento de um olhar para a vida, não apenas para o âmbito profissional. E esse olhar extensionista vai me acompanhar para o resto da minha vida”, afirma Daniel.

Para mais informações sobre o Nifram, acesse o site do programa.

Leia também:
UFJF promove instalação do Banco Vermelho no Campus Governador Valadares