Caravana com alunos e egressos para a mostra Fringe percorreu mais de 850 km (Foto: arquivo pessoal)

Uma caravana formada por estudantes e ex-alunos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) participa da mostra Fringe, evento paralelo do 34º Festival de Teatro de Curitiba, maior evento do tipo no país. O grupo vai apresentar três espetáculos adultos e um infantil dentro da Mostra Insubmissa. Todas as peças têm caráter independente e autoral com diferentes temáticas, desde a vida no sertão mineiro até a literatura de Machado de Assis. Para chegar em Curitiba, parte do grupo viajou de ônibus os 850 quilômetros que separam Juiz de Fora da mostra Fringe, que segue até o próximo domingo, 5. 

A Mostra Insubmissa é formada pelas seguintes peças: Doce Árido (texto e direção de Tairone Vale); Versão Demo (de Tairone Vale, dir.: Suzana Nascimento); Um Homem Célebre (texto e direção de Rafael Coutinho) e o infantil “Como Cozinhar uma Criança” (texto original de Afonso Cruz; dramaturgia e direção de Tairone Vale). 

Polca e Machado de Assis

Estudante do curso de Música, Jeann Cavallari (em pé) compôs a trilha sonora de “Um Homem Célebre”, peça em que também é ator (Foto: divulgação)

Um grupo de estudantes do curso de Música do Instituto de Artes e Design (IAD) compõe a banda do espetáculo “Um Homem Célebre”, apresentado pela companhia “A Trupe Qualquer”. Baseado no conto homônimo de Machado de Assis, o espetáculo apresenta uma proposta de metalinguagem: um ator que está prestes a entrar em cena fica em pânico ao não conseguir mais se ver em frente ao espelho. O momento de crise o conecta a Pestana (personagem original do conto machadiano), músico de teatro e compositor de polcas (gênero musical e dança de salão marcados por ritmo rápido e passos curtos) envolto em rumores de um suposto pacto com o Diabo – figura que, na peça, disputa a narrativa da Terra com Deus. A peça será apresentada no sábado, 4, às 11h e às 17h, no Teatro Londrina do Memorial de Curitiba. 

Formam a banda, a egressa do curso de Bacharelado em Música – Violoncelo, Raquel Souza; além dos estudantes Pedro Fioravante (Fiôra), do Bacharelado em Música – Composição; e Estevão Franca, Wendy Ferreira e Jeann Cavallari, da Licenciatura em Música. Os músicos são liderados por Cavallari, que também é o compositor da trilha sonora original do espetáculo. O trabalho exigiu um intensivo processo de pesquisa à música do passado, considerando que o conto de Machado se passa no século 19.

“Pestana é um músico e queria ser igual aos compositores eruditos, tipo Beethoven. Mas ele só consegue fazer polca, que é um gênero popular. E a polca originou o choro. Então foi um processo de pesquisa, não pra fazer uma polca ou um choro em cena, mas fazer com que a cena emulasse aquele sentimento”, afirma Cavallari, que também é um dos atores do espetáculo. 

A preocupação em unir as peças musicais ao espetáculo também perpassou o trabalho de criação. “A trilha não pode roubar a frente da cena, mas também não pode ficar pra trás”, reflete o compositor. 

Violoncelista e integrante da banda, Raquel Souza acompanhou esse processo, também por ser mãe de Cavallari. Para ela, acompanhar os atores e compor a cena de um espetáculo teatral é uma novidade. 

“Eles (os atores) ditam pra gente a pulsação e o tempo, a gente vai seguindo. Isso é interessante porque eles podem, ao mesmo tempo, fazer a peça ficar mais longa ou mais curta. Quando a gente se deu conta de que também era cena, conseguiu entender esse mecanismo. É importante estarmos ligados neles”, destaca Raquel. 

Esta não é a primeira vez que a Trupe Qualquer vai para o Festival de Curitiba, mas é a estreia de “Um Homem Célebre” no evento. “Juiz de Fora tem muito artista, sempre em lugares de muita relevância, mas aqui na cidade parece que o público não entendeu isso, que a gente já está formado como artista. É uma coisa meio de se validar também. É como as coisas são”, reflete Cavallari. 

Teatro com “sotaque mineiro”

Egressa da UFJF, Pri Helena é uma das atrizes de “Doce Árido”; intérprete integrou elenco de “Ainda Estou Aqui”, filme vencedor do Oscar (Foto: divulgação)

Outro espetáculo que compõe a Mostra Insubmissa é “Doce Árido”, apresentado pelo coletivo O Grilla!. A obra retrata o cotidiano de três gerações de mulheres do interior de Minas Gerais, que sustentam a casa a partir da produção de doce de leite. Presas ao ciclo aparentemente inescapável da produção do doce no tacho e dos limites impostos pelo abandono e pela pobreza, tensões sublimadas emergem em meio à produção de uma remessa de doce que pode transformar a vida financeira da família. A peça será apresentada no domingo, 5, e na segunda-feira, 6. 

As três gerações de mulheres são interpretadas pelas atrizes Rebeca Figueiredo, Layla Paganini e Pri Helena – egressa da Faculdade de Comunicação (Facom), em destaque no cenário audiovisual nacional. A atriz participou de produções como o longa-metragem “Ainda Estou Aqui” (dir.: Walter Salles), vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional; a telenovela “Volta por Cima” (TV Globo, 2024); e a série recentemente lançada “Emergência Radioativa” (Gullane/Netflix, 2026). 

“Essa comunhão entre o espectador e o ator dentro do teatro, acho que é incomparável. Você, enquanto público, pactuar com aqueles atores por uma hora, duas horas, simplesmente entrar naquela caixa e se permitir existir naquela realidade. Amo o audiovisual, tenho estado cada vez mais apaixonada, mas não existe nada parecido com a sensação de subir num palco”, relata Pri. 

Essa é a primeira vez que “Doce Árido” é apresentado fora de Juiz de Fora, após a estreia no Teatro da Praça CEU, em Benfica, em outubro de 2025. Momento que representa um “frio na barriga” para Pri Helena, que já participou do Fringe em outras ocasiões, inclusive com a peça “Estação dos Passageiros Invisíveis”, tema do trabalho de conclusão de curso (TCC) de Pri como aluna da UFJF. 

“Tenho muita consciência da força artística que Minas tem, mas, principalmente, que Juiz de Fora tem. É uma cena muito rica, tão múltipla, com tantos modos de existir, de contar histórias. Quando a gente leva daqui para outro lugar do país um trabalho nosso – nesse caso, vários trabalhos nossos –, a gente também leva nossa identidade. É sobre uma cena inteira que segue criando, resistindo, fazendo arte com muita dedicação, muita garra”, acredita.

Avaliação parecida faz o diretor e autor de Doce Árido, Tairone Vale. Outro egresso da Facom, Vale também apresenta, desta vez como ator, o monólogo “Versão Demo”, de sua autoria. É a história do executivo de uma corporação celestial. Após começar a duvidar das ordens do Chefe – como dilúvios e destruições – o personagem presente em cena (que não tem nome, mas é facilmente reconhecível), resolve contar a sua versão da história. A peça terá sessão única na sexta-feira, 3. 

Tairone Vale em cena na peça solo “Versão Demo”, de sua autoria: ‘fazer um monólogo é o ápice da dificuldade de um ator de teatro’ (Foto: divulgação)

“Versão Demo” teve uma primeira versão, estreada em 2019. A nova montagem vai para o Fringe – será a terceira apresentação: as outras duas foram na Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena e no Festival Nacional de Teatro (Fenata), realizado em Ponta Grossa (PR). 

“Fazer um monólogo é uma insanidade. É o ápice da dificuldade, do comprometimento de um ator de teatro, porque é muito solitário. O jogo em cena com outros atores alimenta a cena. Estar sozinho no palco dependendo só do jogo com o público, é solitário, é uma pressão muito grande”, afirma Vale. 

Para o artista, que também assina o texto e a direção da peça infantil “Como Cozinhar uma Criança”, que será apresentada pela Trupicada na quinta-feira, 2, é “empolgante” levar trabalhos em uma mostra totalmente autoral. 

“Essa mostra tem sotaque mineiro. O mineiro é muito bem recebido em todos os estados do Brasil e eu sinto que, teatralmente falando, isso acontece também”, avalia. 

Mostra Insubmissa

O grupo de artistas locais que apresenta a Mostra Insubmissa também leva a leitura dramatizada de “Big Bang”, texto infanto-juvenil de Tairone Vale; as cenas curtas “Pharmakon” e “Memento Mori”, de texto e direção de Rafael Coutinho e um pocket show para crianças e familiares, com o grupo Trupicada. A programação completa do Fringe está disponível no site do Festival de Curitiba.