Entre planilhas, relatórios, experimentos e salas de aula, a rotina na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) costuma ser intensa. Mas o que fazem os professores e os técnico-administrativos em educação (TAEs) quando deixam o ambiente acadêmico?
Nesta volta às aulas, nossa proposta é olhar para além dos títulos e currículos e entender como os hobbies contribuem estrategicamente para o enriquecimento profissional, o autocuidado e a saúde mental. Vamos mostrar quem é o TAE que longe dos e-mails administrativos e das bancas avaliadoras, veste um nariz vermelho e se transforma em palhaço; o docente que troca o quadro e os cálculos pelo palco e a música; a servidora que encara provas de Ironman; a professora que molda o barro em silêncio; e uma outra que encontra na atuação um espaço de expressão e reinvenção.
Mais do que atividades extras, essas práticas revelam como o lúdico, o esporte e a criação artística podem ser formas de reorganizar o pensamento, aliviar tensões e renovar a criatividade. Ao humanizar quem ensina e quem sustenta a estrutura universitária, essa reportagem busca compreender como o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal é necessário para que a ciência, a educação e a gestão pública respirem melhor.
Afinal, o que acontece com a rotina da UFJF quando os seus servidores também encontram tempo para correr, atuar, cantar, modelar ou fazer rir? Talvez, entre tubos de ensaio, documentos administrativos e acordes musicais, a resposta seja simples: a produção de conhecimento se fortalece quando quem a produz também cuida de si e dos outros, de diferentes formas.

Professora Márcia Falabella divide seu tempo entre os palcos da Faculdade de Comunicação e do Forum da Cultura, onde o Grupo Divulgação atua há mais de 50 anos. (Fotos: Acervo pessoal)
O palco como respiro
Na sala de aula da Faculdade de Comunicação (Facom), Márcia Falabella trabalha com voz, texto e expressão. Já à noite e nos finais de semana, continua fazendo a mesma coisa, desta vez, sob outra luz: a do palco.
“Ter um hobby hoje é fundamental na vida de todo mundo, porque é alguma coisa que te tira de uma estrutura de cotidiano que está nos massacrando”, afirma. Para ela, essa travessia entre o “tempo cotidiano” e o “tempo místico” acontece por meio do teatro. “Ele entra como um hobby, mas é até meio esquisito falar isso, porque também é campo de formação, é campo de trabalho. Mesmo não sendo remunerado, ele me pede compromisso.”
O teatro começou ainda em sua graduação em Comunicação. “Comecei a fazer teatro e não parei. No fim deste mês, completo 40 anos de teatro.” Desde então, organiza sua rotina em torno dos ensaios, apresentações e leituras. “Se eu viajo, quero assistir a um espetáculo. Meu turismo acaba sendo um turismo teatral.”
Mais do que uma paixão, a prática faz parte de sua identidade docente. “A gente é também ator quando está dando aula. Ali eu assumo uma máscara de professora, é como se eu estivesse no palco.” Para ela, o teatro refinou a sua didática, ampliou a sua criatividade e fortaleceu vínculos com seus alunos. “Eu não tenho a menor dúvida que o teatro me fez uma professora melhor”, afirma.
A professora também reforça o impacto do teatro em sua saúde mental. “O teatro é uma arte de presença. Quando você está em cena, só pode focar naquilo. Não dá para entrar pensando numa prova ou em um problema. Segundo Márcia, esse estado de concentração absoluta funciona como um estado de limpeza. “É um tempo em que você deixou tudo de lado. Isso equilibra mais a gente diante da realidade.”
Em períodos que foram desafiadores, como a pandemia, foi no palco em que a docente encontrou o seu fôlego. “O teatro sempre foi essa válvula de escape. Foi onde eu respirei fundo e segui no dia a dia aquilo que precisava ser feito”, comenta.
Entre personagens, textos e improvisos, Márcia segue mantendo o equilíbrio entre sua carreira artística e profissional. “A cada personagem, a gente tira algumas camadas e vai encontrando um pouquinho dessa potencialidade que cada ser humano tem”, conclui.

A atividade de palhaço influenciou a carreira acadêmica de Revelino Mattos que defendeu o doutorado em Psicologia na linha de pesquisa sobre Desenvolvimento Humano e Processos socioeducativos. (Fotos: Acervo pessoal)
Entre a burocracia e o nariz vermelho
Servidor no setor administrativo da UFJF, Revelino Mattos passa os dias entre processos, planilhas e fluxos institucionais. Fora do expediente, assume outra identidade: a de palhaço.
O seu primeiro contato com a palhaçaria veio por meio de uma oficina ministrada pelo ator e diretor Marcos Marinho. “Entrei no mundo da palhaçaria por meio de uma oficina que fiz, pensando que ela iria contribuir em vários aspectos da minha vida”, conta. A experiência não parou ali. Do curso surgiu um grupo, depois ensaios semanais, intervenções de rua, bloquinhos de carnaval, mais tarde, a Caravana Mescla de Palhaços, coletivo que atuou por quase dez anos em cidades da região e até em festival no Equador.
Apesar de não ser sua principal atividade profissional, também nunca foi algo esporádico. “Não digo que era profissional, porque não era minha atividade principal, mas também não é somente um hobby. A gente leva a coisa a sério.”
Com o tempo, a palhaçaria em sua vida ultrapassou os palcos improvisados. “As pessoas passaram a me ver de uma outra forma, no sentido positivo da palavra”, afirma. Segundo ele, as relações dentro da Universidade também se tornaram mais leves. “O riso e o humor não significam que as coisas não são levadas a sério.”
A vivência artística acabou influenciando a sua trajetória acadêmica. Mattos concluiu recentemente seu doutorado em Psicologia, pesquisando a psicologia do humor com foco em pessoas palhaças. “Esse processo abriu a possibilidade de estudar academicamente o tema e foi muito enriquecedor.”
Em meio à rigidez da burocracia, ele encontrou na arte um espaço de criação e respiro. “A criatividade é importante para saber lidar com a dureza do dia a dia.” Descobriu algo sobre si mesmo: “Ser palhaço revelou um lado artístico que até eu mesmo não reconhecia”, conclui.

Militante das questões ambientais, Angélica Cosenza desenvolveu o hobby de esculpir a cerâmica, atividade que dialoga com suas preocupações acadêmicas. (Fotos: Acervo pessoal)
O barro como extensão da ciência
Diretora da Faculdade de Educação (Faced) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental (GEA-UFJF), a docente Angélica Cosenza enfrentou um período de angústia durante a pandemia. Foi nesse momento que a cerâmica entrou em sua vida.
“Eu estava muito angustiada com as vidas e precisava cultivar a minha casa enquanto um espaço que me acolhesse”, conta. A busca por algo que pudesse ser feito em casa a levou a um curso de modelagem em argila. Inicialmente, o contato com o barro era uma forma de ocupar o tempo, mas logo se tornou uma prática constante em sua vida. “Aprendi os princípios básicos e depois fui buscando mais autonomia, mais intimidade com a cerâmica.”
Hoje, aos finais de semana, é no quintal de sua casa que molda suas peças, em sua maioria utilitárias. “Eu produzo o prato que eu como, a xícara que eu bebo, parte da decoração da minha casa, presentes para pessoas que eu amo.” Para a professora, as suas obras são carregadas de sentido. “Ali eu coloco recados, frases que eu gosto, essa conexão com a natureza. Eu impregno a cerâmica desse sentido ecológico.”
Seu hobby dialoga diretamente com sua trajetória profissional. Pesquisadora e militante das questões ambientais, ela enxerga o barro como uma extensão da própria ciência. “Se eu estou orientando estudantes no campo da educação ambiental, aqui eu estendo esse movimento lidando com esse elemento natural que é a argila.”
Inspirada em ideias como o “confluir”, de Nego Bispo, e na noção de florestania, de Ailton Krenak, suas peças buscam imitar formas naturais e afirmar outras maneiras de habitar o mundo.
Em meio às pressões da gestão e da pós-graduação, a cerâmica funciona como uma espécie de “descompressão”. “Ela é um elemento desestressor enorme. Nesse momento, eu me ligo à Angélica que busca essa conexão e esquece dos problemas administrativos”, afirma a docente.
Segundo ela, a prática da cerâmica acontece nas “horinhas de descuido”, em que pode se desprender das pressões acadêmicas e focar em suas produções. Para ela, é essencial que ocorra um equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho. “A gente precisa ser mais do que o tempo que dedica ao trabalho”, conclui.

Além de pesquisador no departamento de Matemática, Wilian Cruz é vocalista do grupo Tuin & Banda Malandragem. (Imagens: Acervo pessoal e Imagem Institucional)
Matemática em tom maior
No Instituto de Ciências Exatas (ICE), Willian Cruz trabalha com números, conceitos abstratos e métodos de ensino. Já, fora da sala de aula, outra forma de expressão ocupa um espaço central em sua vida: a música.
A relação do docente com a música começou em sua adolescência. Com o tempo, as duas paixões – matemática e música – passaram a fazer parte do seu trabalho acadêmico. “Tenho até um projeto chamado “Matemática In Concert”, em que utilizo música como metodologia lúdica para o ensino de Matemática”, conta. O objetivo da iniciativa é aproximar conceitos matemáticos da sensibilidade artística, transformando a aprendizagem em experiência mais criativa.
Para Cruz, cantar é um ato de reconexão pessoal. “A música me transforma e me traz calma, me ajuda a reconectar comigo mesmo e ter mais sensibilidade para desenvolver minhas pesquisas e preparar minhas aulas.” Ele também conta que subir ao palco, ou simplesmente cantar, funciona como uma pausa necessária para a mente. “Serve como uma terapia para mim”, comenta.
Essa experiência também faz parte de sua forma de ensinar. “Todo trabalho que faço tem uma pitada de criatividade, harmonia, empatia e troca.” Na sala de aula, o desafio é despertar nos estudantes a mesma curiosidade e emoção que a música provoca no público. A diferença é que em sala de aula eu tenho um público fiel e na música é mais diversificado. De qualquer forma, a emoção precisa estar presente nos dois momentos”, comenta o professor.
Entre fórmulas e melodias, Cruz diz que tenta levar para a vida acadêmica o mesmo princípio que orienta a sua atividade artística. “Tudo que for fazer, faça com emoção, com carisma e com o coração aberto”, conclui.

Rafaela Lopes começou sua trajetória no esporte ainda criança e hoje é triatleta e e Segurança do Trabalho. (Fotos: Acervo pessoal)
Longas distâncias, equilíbrio diário
Na rotina da UFJF, Rafaela Lopes atua como técnica em Segurança do Trabalho na Coordenação de Saúde, Segurança e Bem-Estar (Cossbe), lidando com normas, prevenção e cuidado com pessoas. Fora do trabalho, o cuidado se mantém, mas no ritmo das longas distâncias.
“O esporte é muito mais que um hobby, é um estilo de vida”, afirma. Presente desde a infância, a prática ganhou novo fôlego na vida adulta, após a sua entrada na Universidade. Foi ali que retomou a natação, comprou a primeira bicicleta e, sem perceber, começou a trilhar o caminho do triatlo. Hoje, dedica-se a provas como o Ironman e o Ironman 70.3, conciliando seus treinos pela manhã com o trabalho à tarde.
Para Rafaela, o esporte se tornou um espaço de equilíbrio. “Quando estou treinando, consigo organizar os pensamentos, aliviar tensões e me reconectar comigo mesma.” Nas provas de longa distância, esse processo se intensifica. “A gente aprende a lidar com desconfortos e a continuar avançando, mesmo quando o caminho parece difícil”, comenta.
Nos períodos de maior exigência profissional, a corrida é uma forma de reorganização. “Depois de um treino, muitas vezes voltamos com mais clareza e disposição para lidar com os desafios do dia”. Os aprendizados também fazem parte do seu trabalho: disciplina, constância e planejamento passam a orientar tanto a preparação para as provas, quanto a atuação na universidade.
Sua trajetória no esporte inclui quatro participações em Ironman e a conquista de uma classificação para o Campeonato Mundial, no Havaí. “Mais do que resultados, o esporte representa um processo de aprendizado constante”, afirma. Entre capacetes, planilhas e quilômetros acumulados, Rafaela constrói uma rotina em que a resistência física e o equilíbrio emocional caminham lado a lado.
