Essa já é a quarta edição da exposição que faz parte do projeto “A ciência que fazemos”. (Foto: Gustavo Tempone/UFJF)

Poderes mágicos, armamentos pesados, carros tunados e muita personalidade. De Pikachu a Master Chief, das mesas às telas, personagens de jogos oferecem aos jogadores a oportunidade de viver uma vida completamente diferente, com grandes jornadas, desafios e o prazer – e alívio – de derrotar o chefão com apenas uma vida. 

Mas e se você pudesse desenhar do zero a sua personagem? Do papel para a realidade gamer? Esse foi o desafio lançado por Letícia Perani, pesquisadora do Instituto de Artes e Design (IAD), aos alunos do 8º ano da Escola Municipal Antônio Carlos Fagundes em um encontro proporcionado pelo projeto de extensão “A ciência que fazemos”. 

Na visita, os alunos desenharam diversos personagens com diferentes características. Com os desenhos em mãos, Letícia montou uma equipe de alunos da Licenciatura e do Bacharelado em Artes Visuais para transformar as propostas em personagens de games. O resultado desse desafio foi transformado em exposição e pode ser conferido até o dia 21 de agosto no primeiro andar do Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 

Vendo de perto a imaginação se tornar realidade

Nesta edição, como acontece tradicionalmente, os alunos da Escola Municipal Antônio Carlos Fagundes visitam o espaço para conferir de perto as obras inspiradas em suas próprias criações. Para a professora Beatriz Jabour, que acompanha a turma, a iniciativa tem um impacto profundo no ambiente escolar. “Os alunos ficaram muito interessados, principalmente devido a se identificarem com o tema. Demonstraram grande satisfação e pediram mais chances como esta”, relata.

Beatriz ressalta que a rotina de ensino por vezes carece de estímulos variados, o que torna pontes como essa fundamentais. “A escola segue um caminho pouco diversificado em atividades e isso é muito desmotivador para os alunos. Portanto, os encontros propiciam uma melhora no interesse e aprendizagem. Estão felizes com a visita à exposição de desenhos e se sentindo mais valorizados. Isso é muito positivo para eles e para a escola em si”, avalia a professora.

Liberdade criativa e desafio artístico

Letícia Perani explica que a escolha do acervo inicial ocorreu de maneira espontânea pelos próprios estudantes do IAD. “Eu sempre deixo livre para os alunos e alunas do IAD escolherem os desenhos que mais toquem ou que eles acham mais criativos. É uma escolha muito individual”, pontua a pesquisadora. Durante o processo, Letícia buscou repassar o contexto e as falas das crianças para os universitários. “Vou contando as histórias para que eles se sintam mais conectados com o aluno que fez o desenho originalmente na escola. Para um artista, pegar um trabalho e pensar em cima dele é um desafio muito grande, serve como um exercício criativo muito interessante”, afirma.

Essa liberdade orientou todo o desenvolvimento visual das obras. Segundo a pesquisadora, o processo de reimaginação variou conforme o repertório de cada aluno. Enquanto alguns graduandos buscaram referências semelhantes às utilizadas pelas crianças, outros aplicaram estilos próprios para recriar as cenas. “Se colocássemos os alunos do IAD para desenhar um único desenho, sairiam artes totalmente diferentes. Procuro deixá-los livres para se conectar com o desenho da forma que acharem melhor”, destaca Letícia.

A pluralidade também aparece nas ferramentas empregadas. A maioria dos graduandos do IAD optou pela arte digital – com o uso de mesas digitalizadoras e softwares que viabilizam cores vibrantes e elementos neon -, mas há também trabalhos em técnicas tradicionais, utilizando lápis de cor e canetas acrílicas. “Cada artista se sente mais confortável em um tipo de técnica. Na exposição, o público vai ver desde o traço forte do lápis de cor até o acabamento do digital; tem opções para todos os gostos”, explica.

Arte como ponte social e ferramenta de valorização

Esta é a quarta exposição promovida pelo projeto, dando continuidade a iniciativas anteriores como as mostras de 2018 – que também foi no Centro de Ciências, reinventou personagens criados por estudantes do ensino médio – e de 2019, no Jardim Botânico da UFJF, focou na união entre ciência e criatividade. A última edição aconteceu no IAD. Para Letícia Perani, o valor da ação vai além da estética. “A criatividade e as artes unem as pessoas de diferentes idades, raças, etnias e situações socioeconômicas. Essa conversa se torna possível a partir da linguagem comum que é a arte”, enfatiza a docente.

A pesquisadora reforça que a experiência consolida uma via de mão dupla no fortalecimento da autoconfiança de todos os envolvidos. “É uma criação de autoestima que serve tanto para os alunos das escolas, que vão se sentir valorizados de verem seus desenhos ali, quanto para os alunos do IAD, que veem suas artes serem apreciadas e estão no caminho para o desenvolvimento profissional. É sempre muito emocionante quando as crianças veem o fruto do trabalho deles de uma outra forma”, conclui.

A exposição permanece aberta ao público até 21 de agosto, no primeiro andar do Centro de Ciências da UFJF, com entrada gratuita.