
Nota Técnica alerta sobre a importância de considerar novos critérios hidrológicos em obras de reconstrução. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
A Zona da Mata Mineira, em especial os municípios de Juiz de Fora (JF), Matias Barbosa e Ubá, enfrentou em fevereiro de 2026 um desastre de grande magnitude causado pelas chuvas. Como resultado, só em JF foram 66 óbitos, mais de 8500 desabrigados e desalojados e 2.000 moradias totalmente destruídas, configurando-se a maior tragédia ambiental já registrada na cidade. De acordo com especialistas, as inundações e os deslizamentos de terra ocorridos foram provocados pela combinação de ocupação de áreas susceptíveis, vulnerabilidade social e uma precipitação de grande intensidade. Agora a cidade passa por um processo de reconstrução das áreas afetadas.
Visando dar embasamento científico às decisões desde o poder público às construtoras responsáveis pelas obras, o professor da UFJF Celso Bandeira publicou nota técnica. O intuito é oferecer suporte científico a decisões de projeto e planejamento mais compatíveis com o cenário atual de transformação dos padrões de chuva e de agravamento das cheias no município de Juiz de Fora. O estudo propõe uma atualização da estimativa de variáveis hidrológicas, tais como precipitações intensas, vazões máximas, cotas máximas, velocidade de escoamento e manchas de inundação, a serem empregadas em projetos de infraestrutura e em ações de planejamento territorial.
Critérios recomendados
Os subsídios técnicos reunidos no documento propõem uma revisão de critérios hidrológicos, o dimensionamento de obras de infraestrutura e o planejamento de ações de prevenção e adaptação frente à intensificação de eventos extremos. A nota elaborada pelo pesquisador Celso Bandeira e pelos alunos Sumáya Neves, Eduarda Filgueiras e João Pedro Tanaka, traz critérios com o intuito de orientar os novos projetos de engenharia pós desastres ambientais a fim de minimizar os impactos dos episódios.
Uma das orientações é utilizar dados observados em séries históricas de precipitação e vazão, devendo adotar o maior período de registro disponível. Outro fator relevante é que a referência de dimensionamento deve incorporar o episódio mais severo efetivamente observado, ainda que sua frequência estimada não coincida com a recorrência tradicionalmente utilizada. Tudo isso, tendo em vista a influência dos cenários das mudanças climáticas, considerando tanto a ampliação da severidade dos eventos, quanto sua frequência de ocorrência. Por fim, a definição dos parâmetros de análise também deve levar em consideração o zoneamento urbano presente no Plano Diretor mais atual.
Aquecimento Global
Já é um consenso entre a comunidade científica que o aquecimento global potencializa a capacidade de a atmosfera reter vapor d’água, elevando muito as chances de tempestades extremas. Tendo em vista tais mudanças e suas consequências para a região, pesquisadores da UFJF, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PEC) e ao Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental (DESA), elaboraram a Nota com critérios hidrológicos para adaptação à mudança climática, com foco nas chuvas e cheias extremas no município.
A utilização dos parâmetros propostos pode fortalecer a capacidade de resposta do território, tanto no campo das obras de infraestrutura quanto na organização das ações de prevenção e redução de danos. De acordo com os pesquisadores, não considerar os efeitos das alterações climáticas pode resultar em projetos de engenharia subdimensionados para suportar eventos extremos provenientes de condições atuais e futuras do clima.
O documento alerta para a necessidade de planejamento para evitar prejuízos humanos e econômicos. De acordo com as informações, os eventos de inundação representam a principal fonte de perdas econômicas na bacia do rio Paraíba do Sul, com impactos diretos e expressivos sobre infraestrutura, atividades produtivas e a dinâmica socioeconômica regional. Registros históricos indicam prejuízos superiores a R$ 2,65 bilhões entre 1995 e 2025, associados a danos materiais e à interrupção de atividades públicas e privadas.
Segundo os pesquisadores, como se trata de um tema sujeito à evolução contínua do conhecimento técnico e científico, esses parâmetros devem ser entendidos como referências passíveis de atualização sempre que novos estudos, bases de dados ou cenários climáticos mais consistentes estiverem disponíveis.
