O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro, é uma oportunidade de discutir e promover a inserção, permanência e participação de mulheres e meninas na área, para uma ciência mais diversa e, portanto, de melhor qualidade. Instituída em 22 de dezembro de 2015 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a data chama a atenção para a necessidade de que ciência e igualdade de gênero caminhem lado a lado. Ao dar visibilidade ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5) da Agenda 2030 (que busca alcançar a igualdade de gênero e fortalecer o protagonismo de mulheres e meninas), a iniciativa reforça o compromisso global de garantir que meninas tenham acesso à formação científica, possam desenvolver plenamente suas habilidades e tenham suas ideias reconhecidas como parte essencial do desenvolvimento social e científico.
É fato que o número de mulheres nas formações acadêmicas seguem em plena ascensão. Segundo dados do Censo da Educação Superior do MEC, elas são 59% das pessoas matriculadas no ensino superior. Além disso, representam a maioria nas etapas mais avançadas da pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado). Conforme dados do Painel de Monitoramento da Capes (2024) as matrículas femininas no Brasil representam 54,62% do total de inscritos em cursos de mestrado e doutorado.
Enquanto os dados da Capes indicam maior presença feminina nas matrículas da pós-graduação, o relatório Brasil: Mestres e Doutores 2024 mostra que essa tendência é ampliada quando se analisa a conclusão dos cursos: em 2021, 56,8% dos títulos de mestre e 55,6% dos de doutorado foram conferidos a mulheres. Tal tendência de predominância feminina se mantém no pós-doutorado, conforme dados nacionais da Capes de 2024: elas correspondem a 54% do total de bolsistas dessa modalidade.
Apesar de todos esses avanços, quando se analisa o perfil do quadro docente nas instituições federais de ensino superior, essa tendência não se confirma. De acordo com o último Censo da Educação Superior, 55% do quadro de professores são homens, contra 45% de mulheres em todo o Brasil. Em uma análise dos dados da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a diferença é um pouco menor, mas ainda distante da equidade: são 53,4% de homens contra 46,6% de mulheres.

Gráfico: Flávia Lopes e Arte: Gian Rezende
Mulheres ingressando na docência da UFJF
No entanto, essa tendência vem apresentando mudanças na UFJF. Entre 2014 e 2024, o número de docentes mulheres que ingressaram na instituição para postos efetivos foi maior que o de homens. Foram 420 mulheres (51,28%) contra 399 homens (48,72%). Os dados foram sistematizados na pesquisa de doutorado “Desigualdades de gênero e raça na universidade pública: trajetórias, silêncios e resistências na carreira docente da UFJF”, defendida em novembro de 2025 pela jornalista e doutora em Ciências Sociais Flávia Lopes.

Gráfico: Flávia Lopes e Arte: Gian Rezende
Segundo Flávia, o que motivou esse o recorte, que é um dos capítulos da tese, foi justamente o maior número de mulheres formadas nos programas de pós-graduação há pelo menos 20 anos. A maior surpresa, segundo a pesquisadora, foi o fato de que esse crescimento não era uma tendência nacional, mas pontual da UFJF. “Quando recebi esses dados, achei que estava diante uma real mudança em todo o país e aí fui olhar para os dados nacionais e também para outras instituições. Solicitei dados às Ifes mineiras, algumas de mesmo porte, para tentar entender se estava realmente diante de uma tendência de mudança, e o mais impressionante foi perceber que não. Que era um fenômeno bem específico da UFJF.”

Gráfico: Flávia Lopes e Arte: Gian Rezende
Conforme a pesquisa, no mesmo período, foram registrados 62.378 ingressos no país, sendo 34.448 de homens (55,21%) e 27.930 de mulheres (44,78%). Das cinco instituições analisadas pela pesquisa entre 2018 e 2023 (UFMG, Ufu, Ufop, UFV, além da UFJF), apenas a UFJF apresentou uma proporção maior de contratação de mulheres no período (veja o gráfico acima). A maior discrepância entre os gêneros foi observada na UFV: de um total de 273, foram contratadas 38,83% mulheres e 61,17% homens. Na UFMG, que reuniu o maior volume de contratações entre as mineiras analisadas, de um total de 498 contratações, 45% foram mulheres e 55% homens.
“Analisando os ingressos em cada ano na UFJF vi que nesse período (2014-2024) tivemos muitas oscilações, até por conta da pandemia, das restrições orçamentárias dos governos anteriores, mas quase sempre com uma tendência de maior presença feminina – só em 3 anos os homens foram maioria (2014, 2015, 2022)”, explica Flávia Lopes.
Para investigar o que pode justificar esse movimento, a pesquisadora se debruçou sobre alguns estudos que analisam outros fatores como o perfil e vocação das instituições. “Uma das explicações usadas como possibilidade para entender esse crescimento na UFJF é o perfil dos cursos, da instituição e também da cidade. A maioria dos cursos da UFJF estão concentrados nas áreas de saúde, humanas e linguística, letras e artes, que tendem a concentrar mais mulheres. Outra coisa, é que o perfil da UFJF é mais voltado para a missão de ensino, que segundo a classificação de Schwartzman, tende a ter menos desigualdade de gênero.” Ela também destaca o fator localização e o perfil da cidade. “Temos pesquisas que mostram que grandes centros tendem a atrair mais homens, por conta da maior facilidade de mobilidade e por conseguirem buscar instituições com maiores investimentos para pesquisa e mais recursos. E tem o próprio perfil da cidade, de médio porte, que tem custo de vida menor, mais segura.”
Entre avanços, sobrecarga e a persistência da desigualdade de gênero
O aumento do número de mulheres na docência universitária é um dado que, em um primeiro momento, sinaliza avanços na busca por maior igualdade de gênero no ensino superior. No entanto, uma análise mais atenta revela que essa presença ainda se dá em condições marcadas por desigualdades estruturais, especialmente quando se observa a cultura institucional, as políticas de incentivo à carreira acadêmica e a persistência da divisão sexual do trabalho.
Entrevistas com docentes que ingressaram recentemente na UFJF indicam que, embora o acesso das mulheres à carreira docente tenha se ampliado, os desafios enfrentados vão muito além dos números. Eles envolvem expectativas de gênero, sobrecarga de trabalho, exigências produtivistas e a necessidade constante de legitimação profissional, especialmente em áreas tradicionalmente masculinas.
Um dado que chama atenção diz respeito à permanência da divisão sexual do trabalho. Em pleno 2025, apesar dos avanços nos debates sobre igualdade de gênero e reconhecimento do trabalho de cuidado, mulheres altamente qualificadas continuam assumindo a maior parte das responsabilidades domésticas e familiares.
Levantamento realizado pela pesquisa “Desigualdades de gênero e raça na universidade pública: trajetórias, silêncios e resistências na carreira docente da UFJF” voltado à compreensão do uso do tempo em tarefas de manutenção da vida, mostra que mulheres, mesmo aquelas sem filhos, dedicam ao menos cinco horas semanais a mais que homens às atividades domésticas. Quando se trata de cuidados com filhos ou dependentes, essa diferença ultrapassa 11 horas semanais.
“Essa sobrecarga, somada à lógica produtivista que orienta a carreira universitária (baseada em publicações, participação em eventos, captação de recursos e indicadores de desempenho) aprofunda uma condição de esgotamento físico e mental. O resultado é um círculo vicioso: com menos tempo disponível, mulheres se veem mais pressionadas a comprovar produtividade em prazos reduzidos, muitas vezes à custa do descanso, da saúde e da vida pessoal”, analisa a pesquisadora.

Para docentes que atuam em áreas majoritariamente masculinas, como as Engenharias e as Ciências Exatas, os desafios ganham contornos específicos. A professora Lahis Souza de Assis, que ingressou na UFJF em abril de 2025, destaca que um dos principais obstáculos está na necessidade permanente de se afirmar como profissional.
“Acredito que, no ambiente acadêmico, o machismo tende a ser menos explícito. No entanto, ele ainda se manifesta de forma sutil. Um exemplo disso é a percepção de que, muitas vezes, os alunos atribuem maior credibilidade aos professores homens, o que revela um machismo velado, mas presente”, afirma. Segundo ela, o machismo persiste de maneira sutil, exigindo das mulheres um esforço adicional de legitimação. “Além de ser mulher e ser ainda jovem, enfrento também o desafio de me posicionar diante dos meus colegas e alunos, de modo que eles me reconheçam e me percebam, de fato, como docente”.
A professora Tatiana Danelon de Assis, também do Departamento de Mecânica Aplicada e Computacional, aponta que aprender a se posicionar é um desafio central. “Características que em homens são associadas à liderança, em mulheres ainda podem ser interpretadas como rigidez ou grosseria”, explica.
Ela também chama atenção para a vigilância constante a que as mulheres estão submetidas: forma de vestir, linguagem e comportamento passam a ser monitorados como estratégias de autoproteção, o que gera uma sobrecarga significativa. “ Nada disso justifica o machismo ou o assédio, mas essa tentativa de autoproteção gera uma sobrecarga mental muito grande.”
Essa pressão constante também aparece no relato da professora Tainá de Araujo Carvalho, do Departamento de Física do ICE, que ingressou na UFJF em outubro de 2025. Para ela, a desigualdade se manifesta na exigência contínua de desempenho excepcional. “Ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica, sempre procurei ser o melhor que eu pudesse ser, como se não houvesse espaço para a medianidade ou para errar e aprender com o erro”, afirma. Segundo a docente, essa lógica que é marcada por expectativas mais altas sobre as mulheres, acaba produzindo um custo emocional e físico significativo, especialmente quando combinada às múltiplas demandas que atravessam a vida das mulheres, mesmo aquelas que não são mães. “Esse padrão pode até contribuir para que alcancemos determinados espaços, mas ele cobra um preço alto e nem sempre visível”, reflete.
A docente destaca que muitas situações só se tornam evidentes com o tempo e com o acesso a leituras feministas. “Apenas com distanciamento temporal percebi que alguns comentários sobre minha capacidade intelectual, em momentos da formação acadêmica, tinham origem no machismo”, afirma. Segundo ela, em ambientes majoritariamente masculinos, questionamentos dirigidos às mulheres tendem a ser mais frequentes.
Maternidade, cuidado e carreira acadêmica
Mesmo em áreas com maioria feminina, os desafios se expressam de maneira profunda. Nicole Cristina Oliveira Silva, professora da Faculdade de Serviço Social, destaca que as múltiplas jornadas de trabalho (acadêmica, doméstica e de cuidado) impactam diretamente a produção do conhecimento. “A maternidade é uma questão central nesse campo”, afirma. Segundo ela, a exigência por produtividade contínua desconsidera desigualdades estruturais e afeta especialmente mulheres, muitas delas mães solo. Para a docente, é fundamental que políticas institucionais reconheçam essas assimetrias, por meio da ampliação da licença-maternidade, da flexibilização de prazos na pós-graduação e da consideração dessas condições em processos seletivos e concursos docentes.
A docente, no entanto, também destaca a importância da ampliação das políticas sociais. “Políticas públicas de educação e de segurança alimentar que funcionem de forma efetiva são fundamentais para que as mulheres possam exercer suas atividades profissionais com mais tranquilidade, sem a sobrecarga de múltiplas responsabilidades que, muitas vezes, deveriam ser supridas pelo próprio Estado. Essa sobrecarga do trabalho feminino ainda é profundamente desigual quando comparada às exigências impostas aos homens.”
Para Tatiana Danelon, “enquanto é considerado natural que um homem priorize a carreira, mulheres são educadas para assumir o papel de cuidadoras e podem sentir culpa ao focar em seus próprios objetivos profissionais, como se estivessem negligenciando outras responsabilidades. Reconhecer esses mecanismos é importante para que possamos ser mais gentis conosco mesmas e seguir com confiança na construção da nossa trajetória.”
Para as docentes entrevistadas, o avanço da presença feminina na universidade é uma conquista inegável, mas que precisa ser expandida. “Quanto mais diversa for a comunidade que a produz, mais relevantes e abrangentes serão os resultados.”
O desafio, portanto, está em garantir condições efetivamente equitativas para que suas trajetórias possam se consolidar, com menos sobrecarga, mais reconhecimento e políticas institucionais que enfrentem de forma sistemática as desigualdades de gênero ainda presentes na academia.
Mais informações:
Confira a tese na íntegra: “Desigualdades de gênero e raça na universidade pública: trajetórias, silêncios e resistências na carreira docente da UFJF”
Equidade de gênero e raça na universidade: @eqgenuniversidade
