Docentes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), dos departamentos de Saúde Coletiva e Estatística, em parceria com o Observatório de Clima e Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), elaboraram uma nota técnica com recomendações ao Sistema Único de Saúde (SUS) após um dos mais graves desastres socioambientais da história recente da Zona da Mata mineira. O documento foi lançado na última sexta-feira (27).

O documento foi elaborado pela pró-reitora adjunta de Pós-Graduação e Pesquisa, Isabel Leite, pelo professor Ronaldo Bastos, do Departamento de Estatística, e pelo professor Mário Círio Nogueira, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFJF.

A análise avalia os impactos diretos e indiretos sobre a saúde da população e a rede assistencial, propondo medidas estratégicas para as três esferas de gestão do SUS: Ministério da Saúde, Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais e Secretarias Municipais de Saúde.

Juiz de Fora e Ubá estão entre os municípios mais afetados. Em apenas 12 horas, o volume de chuva registrado foi quatro vezes superior à média esperada para todo o mês, segundo o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da UFJF. O episódio provocou inundações, enxurradas e deslizamentos de terra em áreas urbanas densamente povoadas, gerando impactos significativos sobre a população e os serviços de saúde.

Danos à infraestrutura e risco de efeito cascata

Em Juiz de Fora, 11 Unidades Básicas de Saúde (UBS) precisaram ser fechadas devido a alagamentos ou por estarem situadas em áreas de risco. Dados do sistema FluxSUS, desenvolvido pelo Icict/Fiocruz, indicam que o município exerce papel estratégico como polo regional de média e alta complexidade na macrorregião Sudeste de Minas Gerais.

Segundo a nota técnica, a restrição de acesso aos serviços e a sobrecarga hospitalar podem desencadear efeito cascata na rede de atenção à saúde, pressionando unidades de municípios vizinhos e ampliando a vulnerabilidade de populações já fragilizadas. A situação é agravada pelas interdições recorrentes em rodovias da região, em razão de quedas de barreiras.

Três ondas de riscos sanitários

O documento destaca que o evento evidencia a crescente vulnerabilidade urbana frente às mudanças climáticas e classifica os riscos à saúde no período pós-desastre em três ondas:

  • Primeira onda (imediata): traumatismos, afogamentos, lesões por deslizamentos e acidentes com animais peçonhentos deslocados pelas enchentes.
  • Segunda onda (curto a médio prazo): possibilidade de surtos de leptospirose, hepatite A, doenças diarreicas agudas, infecções respiratórias e dengue.
  • Terceira onda (longo prazo): impactos na saúde mental, como transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão; descompensação de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes; além de insegurança alimentar e nutricional.

Recomendações ao Ministério da Saúde

Entre as recomendações ao Ministério da Saúde estão o fortalecimento do suporte técnico e laboratorial ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde de Minas Gerais, o monitoramento ativo de surtos e o envio de equipes de campo para avaliação de risco.

O documento propõe ainda a implementação de vigilância sentinela para doenças de veiculação hídrica, respiratórias e agravos em saúde mental; a garantia de assistência farmacêutica contínua e desburocratizada (incluindo envio de Kit Calamidade, antibióticos para quimioprofilaxia da leptospirose, vacinas, insumos para controle vetorial e medicamentos psicotrópicos); além da agilização de recursos emergenciais e da criação de linhas de crédito para reconstrução e adaptação climática da infraestrutura de saúde.

Também é sugerida articulação interministerial com as áreas de Cidades e de Integração e Desenvolvimento Regional para criação de grupo de trabalho permanente voltado à reconstrução resiliente da Zona da Mata, com a saúde como eixo estruturante do planejamento urbano.

Recomendações ao Estado e aos municípios

À Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a nota orienta a manutenção das Salas de Situação como centros de comando regional, assegurando regulação de leitos, transporte de pacientes e distribuição de insumos na macrorregião. Recomenda ainda a ampla disseminação de alertas epidemiológicos, capacitação das equipes municipais para busca ativa de casos suspeitos, monitoramento da qualidade da água e reforço do controle vetorial.

No âmbito da Atenção Primária à Saúde, o documento sugere apoio à reorganização dos serviços, com uso de unidades móveis e equipes volantes para garantir continuidade do cuidado em áreas isoladas e abrigos, com foco em pré-natal, puericultura, controle de doenças crônicas e saúde mental.

Às Secretarias Municipais de Saúde, a recomendação é intensificar a busca ativa de pessoas com sintomas como febre, diarreia e icterícia em abrigos e comunidades afetadas, além de realizar quimioprofilaxia para leptospirose em grupos de maior risco, como equipes de resgate e moradores expostos à lama.

O texto reforça a importância da ampliação da cobertura vacinal – especialmente para Covid-19, influenza, tétano e hepatite A -, da organização de fluxos articulados com a assistência social e da formação de equipes para acolhimento psicossocial, com atenção especial a crianças, idosos, mulheres e pessoas enlutadas.

O documento recomenda, ainda, o mapeamento das unidades de saúde situadas em áreas de risco e a definição de novas localizações resilientes, integradas ao planejamento urbano municipal e às diretrizes de adaptação climática.

Ferramenta estratégica para a gestão

Mário Nogueira: “Documento é um instrumento estratégico para subsidiar a tomada de decisões em saúde pública no período pós-desastre” (Foto: Arquivo pessoal)

Para o professor Mário Nogueira, o documento constitui um instrumento estratégico para subsidiar a tomada de decisões em saúde pública no período pós-desastre. Segundo ele, especialmente em municípios de menor porte, são frequentes as limitações relacionadas à infraestrutura técnica, ao acesso a sistemas de informação e à disponibilidade de equipes especializadas em análise epidemiológica.

“Ao sistematizar evidências, organizar indicadores prioritários e apresentar recomendações objetivas, fundamentadas em dados e protocolos atualizados, a nota técnica oferece suporte qualificado aos gestores na definição de prioridades e na estruturação das ações de vigilância e assistência”, destaca.

O professor ressalta que, nos pequenos municípios, a gestão de desastres exige planejamento prévio e organização territorial, incluindo definição de áreas seguras para abrigos, rotas de acesso, mapeamento de populações vulneráveis e planejamento da localização das UBS. Nesse contexto, orientações técnicas claras e adaptadas à realidade local tornam-se fundamentais para fortalecer a capacidade de resposta.

Na avaliação do professor do Departamento de Estatística da UFJF, Ronaldo Bastos, a nota técnica evidencia o trabalho colaborativo e interinstitucional desenvolvido pela universidade com instituições de referência, como a Fiocruz, reforçando o compromisso da UFJF com as demandas locais e regionais. Segundo ele, “o documento consolida recomendações práticas que podem orientar desde grandes centros até municípios de menor porte na gestão de riscos, no fortalecimento da defesa civil e nas ações preventivas, especialmente diante dos impactos à saúde provocados por inundações e deslizamentos recentes em Juiz de Fora e região”.

Para a UFJF, a iniciativa reafirma o compromisso institucional com sua missão pública e com o desenvolvimento regional. Ao colocar sua capacidade técnico-científica a serviço das demandas emergenciais da Zona da Mata, a Universidade fortalece seu papel como referência na produção de conhecimento aplicado, na extensão universitária e no apoio à formulação de políticas públicas, contribuindo para respostas mais qualificadas, sustentáveis e equitativas em saúde.

Leia a nota técnica na íntegra