Dayse Lamas e Shahram Asadiazar apresentam desenhos de uma série de construções significativas de Juiz de Fora e do Irã, exaltando suas peculiaridades.
Mais de 12 mil quilômetros separaram Brasil e Irã. Além da distância física, esses países também possuem diferenças culturais, climáticas, políticas, sociais, entre outras, que os fazem, definitivamente, singulares. Há quem utilize tais distinções como motivo para guerras, segregação e destruição, e há quem procure nelas motivos para aproximação, união e construção. O Forum da Cultura da UFJF escolhe a segunda opção e promove um verdadeiro encontro dessas nações na Galeria de Arte. Na próxima terça-feira, 5 de maio, às 18h30, acontece a abertura da mostra “Juiz de Fora: arquitetando uma vocação cosmopolita”, da artista plástica brasileira Dayse Lamas e do arquiteto iraniano Shahram Asadiazar. Na ocasião, além da artista, estarão presentes pessoas de diferentes nacionalidades, que escolheram Juiz de Fora como um novo lar, compartilhando suas experiências na cidade. O evento é gratuito e aberto ao público em geral.

“Teatro Shahr – A jóia do Irã”, de Shahram Asadiazar.
A mostra dá início à temporada de exposições do edital de ocupação da Galeria de Arte de 2026, além de integrar a programação do Forum da Cultura na 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que traz como tema desta edição “Museus: Unindo um Mundo Dividido”. O evento foca em museus como agentes de diálogo, democracia e preservação da memória em tempos de conflitos, o que se alinha completamente à proposta da mostra.
Em tempos de xenofobia, fechamento de fronteiras e discursos de ódio em diferentes pontos do globo, e após a recente tragédia causada pelas chuvas de fevereiro de 2026 em Juiz de Fora, a nova mostra chega como um bálsamo sobre feridas ainda abertas. Por meio de mais de 20 desenhos produzidos à mão com canetas nanquim, lápis de cor e eventualmente aquarela, Dayse e Shahram apresentam uma série de construções significativas de cada localidade em que vivem, exaltando suas peculiaridades. Será possível, por exemplo, vislumbrar as linhas curvas e arredondadas da Igreja Melquita de São Jorge e do Planetário da UFJF e sua íntima relação com os traços do Teatro Shahr da capital Teerã, edifício conhecido por sua arquitetura única, que mistura estilos modernos com elementos tradicionais persas.

“Escola Normal”, de Dayse Lamas.
Para Dayse Lamas, os desenhos que compõem a mostra são retratos de uma época, linhas que contam histórias. “Nossos trabalhos têm como fonte de inspiração a arquitetura de onde vivemos. Se comparados os traços, consigo ver semelhanças e diferenças. Nas localidades apresentadas por Shahram convivem o rural e o metropolitano. Juiz de Fora, eclética, representa o mundo. O tradicional, o moderno e o contemporâneo se misturam. No Irã temos a realidade da guerra. Mas e aqui? Inúmeras edificações de importância histórica foram varridas do mapa e apagadas da memória devido à especulação imobiliária”, reflete.
“Todos nós, como humanidade, amamos do mesmo jeito, sofremos com a mesma intensidade, criamos com o mesmo prazer. No caso em questão, construímos – palavra potente em época de destruição – com o mesmo propósito: o primordial deles, a moradia que nos abriga, os templos para a nossa espiritualidade, as escolas para o nosso desenvolvimento, repartições públicas para a nossa cidadania, hospitais para o cuidado com a vida, espaços culturais e sociais para o nosso deleite, entre outros. A mostra carrega um pouco dessa essência também”, acrescenta Dayse.

“Masouleh, província de Gilan”, de Shahram Asadiazar
Entre os destaques da mostra está a obra “Escola Normal”, de Dayse Lamas, que retrata o prédio do Instituto Estadual de Educação inaugurado em 14 de agosto de 1930, projetado pelo engenheiro Lourenço Baeta Neves, no estilo Art Déco, e executado pela firma Pantaleone Arcuri. De Sharam, chama atenção o desenho “Masouleh, província de Gilan”, que traz uma instigante característica da arquitetura daquele local, onde os telhados das casas são quintais do vizinho.
Coincidentemente, a mostra acontece quando os conflitos estão exacerbados. O encontro entre a brasileira e o iraniano por meio da arte vem provar que dois povos podem viver em harmonia, trocando ideias, experiências, conhecimento, compartilhando sonhos e anseios. E o Forum da Cultura torna-se um espaço de promoção da paz e da esperança. Para Dayse, o momento é de receio e preocupações, mas, ao mesmo tempo, de buscar novas e melhores perspectivas. “Em Juiz de Fora, podemos só imaginar o assombro da guerra. Fico pensando se um bombardeio leva ao chão a linda torre que Shahram nos apresenta em um de seus trabalhos. Não seria apenas uma destruição física. É uma aniquilação do gênio criativo, da engenhosidade, da beleza e da energia do trabalho que levanta paredes. Rebatendo este lado obscuro da humanidade, com os movimentos das nossas mãos, no traçado dos desenhos, trazemos luz e o melhor dos nossos mundos. Construtores desta ponte que nos uniu”, conclui.
Até o fechamento desta matéria, a equipe do Forum da Cultura não conseguiu contato com Shahram Asadiazar a fim de colher suas falas a respeito da própria exposição. A internet no Irã segue instável devido aos conflitos na região.
Dayse Lamas e Shahram Asadiazar foram artistas selecionados pelo Edital de Ocupação da Galeria de Arte do Forum 2026, cujo resultado foi divulgado no dia 16 de março.
A mostra “Juiz de Fora: arquitetando uma vocação cosmopolita” segue em cartaz até o dia 22 de maio, com visitações gratuitas de segunda a sexta, das 13h às 16h. A entrada é gratuita.
Juiz de Fora é o mundo
A mostra tem ainda o objetivo de celebrar a vocação de Juiz de Fora em acolher o estrangeiro. Em sua formação histórica (século XIX–XX), a cidade teve forte presença de portugueses na base da colonização urbana; italianos e alemães, muito relevantes na industrialização e no desenvolvimento de colônias agrícolas na Zona da Mata; espanhóis e sírio-libaneses com atuação no comércio urbano. Já no processo de migração mais recente (século XXI), Juiz de Fora passou a receber haitianos com presença na área da construção civil; venezuelanos da Operação Acolhida; colombianos, em sua maioria para trabalho e estudos; angolanos, com intensa presença universitária; cubanos, principalmente via programas de saúde, no passado recente; e chineses e coreanos, atuando no comércio popular das ruas centrais. Com tanta diversidade e influências, mergulhamos num cenário cultural muito rico e fervilhante.
O encontro entre Dayse e Shahram
A internet promoveu um encontro que, mesmo na categoria virtual, é carregado de afeto. No Brasil, Dayse Lamas, professora e artista plástica. No Irã, um jovem arquiteto, Shahram Assadiazar, está em busca de espaços para expor os seus desenhos. Uma interação informal entre nações, com foco na arquitetura, que demonstra como a arte e o conhecimento podem interferir, afetar, promover trocas de experiências, mudar e melhorar tempos tão incertos, tristes, violentos, preconceituosos.
Durante a pandemia, como forma de ocupar o tempo ocioso, Dayse Lamas entrou em grupos de desenho (Inktober e Urban Sketcher) nos quais a interação acontece de forma globalizada. Foi nesses espaços digitais que ela e Shahram passaram a trocar as famosas “curtidas” e mensagens sobre os mais diversos temas. Essa conexão já completa 6 anos, apesar de interrupções como as do momento atual.
Mais sobre os artistas

Dayse Lamas e Shahram Asadiazar.
Dayse Lamas nasceu em Belo Horizonte, viveu com seus avós na cidade de Descoberto por aproximadamente quatro anos e logo depois mudou-se para Juiz de Fora, onde fixou-se. Desde criança, já possuía intimidade com o lápis e o papel. Com o passar dos anos, o gosto pela arte de desenhar ganhou força, levando-a a construir sua carreira na área. Ela é formada em Educação Artística pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Trabalhou como professora em diferentes escolas da rede estadual de ensino e também já realizou outras exposições artísticas, tanto no Forum da Cultura, quanto em espaços da Prefeitura de Juiz de Fora e da Universidade. Atualmente leciona artes na rede particular de educação.
Shahram Asadiazar nasceu e reside no Irã. É bacharel em arquitetura e dedica-se a um canal de internet ensinando arte e desenho.
Galeria de Arte
O espaço, instalado em um local privilegiado no segundo pavimento do Forum da Cultura, abriga produção eclética, com exposições de artes plásticas, documentais e pedagógicas, que já chegaram a ter mais de mil visitantes por mostra. Criada em 1981, no reitorado do professor Márcio Leite Vaz, a galeria recebe importantes nomes da pintura de Minas Gerais e da cidade, além de jovens artistas e coletivos. Em janeiro de 2024, o espaço passou por reforma, substituindo as antigas placas de madeira por novas, garantindo assim um espaço renovado, com estruturas reforçadas para as mostras a serem expostas. O sistema de iluminação também foi renovado, possibilitando mais destaque para as obras em exibição.
Forum da Cultura
Instalado em um casarão centenário, na rua Santo Antônio, 1112, Centro, o Forum da Cultura é o espaço cultural mais antigo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em atividade há mais de cinco décadas, leva à comunidade diversos segmentos de manifestações artísticas, abrindo-se a artistas iniciantes e consagrados para divulgarem seus trabalhos.
Endereço e outras informações
Forum da Cultura
Rua Santo Antônio, 1112 – Centro – Juiz de Fora
www.ufjf.edu.br/forumdacultura
E-mail: forumdacultura@ufjf.br
Instagram: @forumdaculturaufjf
Telefone: (32) 2102-6306