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Oficina de criação poética traz Conceição Evaristo e Jarid Arraes e movimenta as últimas datas de 2025

A oficina “Releituras de Conceição Evaristo e Jarid Arraes” trouxe dinâmicas que uniram a poesia escrita com as possibilidades do campo digital.

Sala de palestras onde os participantes estão sentados em circulo para ouvir a palestrante Marisa Pontes

Oficina literária realizada presencialmente em 5 de dezembro, que abordou a obra de Conceição Evaristo. (Foto: Andreia Sixel).

Realizada em quatro encontros, dois virtuais e dois presenciais, que ocorreram na Editora UFJF nos dias 5 e 12 de dezembro, a oficina foi ministrada pela escritora Marisa Pontes e os demais integrantes do projeto de extensão em interface com pesquisa “Oficinas de autopublicação digital”. A proposta consistiu em unir a bibliografia básica das duas escritoras, Conceição Evaristo e Jarid Arraes, às produções autorais dos participantes das oficinas. 

Dessa forma, eles tiveram a oportunidade tanto de conhecer as obras mais importantes das duas autoras, como colocar em prática a sua própria escrita. Por conta disso, o título das oficinas é acompanhado da palavra “releituras”, pois é uma união de passado e presente com os novos conceitos modernos da ciberliteratura.

Primeiro encontro

O primeiro encontro presencial teve como foco principal a obra da escritora Conceição Evaristo, que também é graduada, mestre e doutora em Letras. Muito foi conversado sobre sua influência no cenário nacional, mas principalmente com relação a um conceito fundamental dentro de sua obra: a ideia de “escrevivência”. Segundo Marisa Pontes, “a escrevivência é a escrita que nasce a partir das experiências do ser, das vivências e das memórias”.

Do lado esquerdo foto da autora Conceição Evaristo e do lado direito foto da autora Jarid Arraes

Mesmo de gerações diferentes, Evaristo e Arraes compartilham a mesma luta pelo resgate da ancestralidade negra por meio da literatura. (Créditos: Fundação Itaú Social e Jarid Arraes/Divulgação).

A partir dessa introdução, os participantes foram instigados a criar pequenas poesias que tratassem de suas histórias de vida, inspirados no conceito de escrevivência e outros temas presentes na escrita de Conceição. Ao fim da escrita todos leram o que escreveram, compartilharam seus motivos de escolha e foram direcionados ao estúdio de produção, onde puderam transformar o texto escrito para a interface digital. Dessa forma, cada um pôde apresentar sua abordagem visual para acompanhar a poesia feita. 

Alguns, por exemplo, aproveitaram os efeitos especiais para criar uma sensação de movimento. Outros optaram por algo mais fixo para ser postado como um post de feed no Instagram. Ou seja, o limite de criação foi a familiaridade que cada um tinha com o Canva, o editor escolhido para a atividade. Aos que tinham mais dificuldade, foi disponibilizado um estagiário para dar suporte ao aprendizado de todos. A participante Déa Araújo comenta sobre o resultado da sua produção:

“Eu gostei muito da parte que uniu o texto com os procedimentos digitais. Nós criamos textos e colocamos eles no processo de animação e ilustração. Isso foi muito interessante para mim. É uma parte que eu não domino com facilidade.”

Segundo encontro

Assim como na semana anterior, o segundo encontro foi reservado para conhecer as poesias de uma autora específica. Nesse caso, foi da escritora e cordelista cearense Jarid Arraes. Muito influenciada por Evaristo, Jarid faz parte da nova geração de escritoras negras da atualidade. Mesmo com trinta e dois anos de idade, já publicou muitas obras e segue sendo uma das referências na poesia do cordel, uma literatura que mistura a métrica da poesia com as histórias da prosa escrita. 

Dentre os títulos da autora foram selecionados poemas, dentre os quais alguns da coletânea de cordéis “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis”. A partir da leitura e discussão dos poemas, assim como na dinâmica de escrevivência do primeiro dia, cada um ficou livre para recriar o que achou mais interessante na obra de Arraes. Seja pelas histórias típicas do sertão nordestino ou pela linguagem que brinca com os dialetos regionais, a atividade foi rica em ideias e interpretações das leituras. A participante Nara Costa apresenta qual foi o seu destaque de toda a oficina:

“A escrita da Jarid é contemporânea, e traz o feminino, a feminilidade e o feminismo. Com a oficina, eu pude interpretar todo esse olhar de forma diferenciada. Então, isso que a oficina propôs foi muito produtivo para mim, que gosto da literatura dela também. Essas leituras trazem uma vivência muito parecida com a de milhares de brasileiros. Vale muito a pena conhecermos essas realidades que, muitas das vezes, nós olhamos – mas não interpretamos. Com elas, nós conseguimos entender essas singularidades melhor.”

Participante da oficina sendo auxiliada pela estagiária na realização de atividade no Canva

Uma das partes mais interessantes das oficinas foi a união da poesia escrita com as edições no Canva, realizadas no estúdio de produção. (Foto: Gustavo Ximenes).

Marisa Pontes comenta a importância da escolha das autoras e da temática desta oficina: “A importância de Conceição Evaristo e de Jarid Arraes enquanto mulheres e escritoras negras, reside no seu protagonismo dentro da literatura brasileira. Elas dão voz e corpo às experiências de mulheres negras marginalizadas, e combatem o racismo e o apagamento histórico ao explorar temas como ancestralidade e resistência”.

Planos para as próximas oficinas literárias

Sendo o último compromisso do cronograma de 2025, os passos seguintes miram agora no próximo ano. De acordo com Nathalie Reis Itaboraí, coordenadora do projeto, as oficinas literárias estão buscando, no momento, um público diferente: o de alunos em escolas públicas da cidade. Ela apresenta: 

“Nesse ano [2025], a gente teve uma oficina em escola e três de criação poética. Para o próximo ano, a gente planeja também novas oficinas em escolas, que é uma experiência muito interessante, de um público que o projeto não tinha contemplado ainda. A expectativa são estas novas oficinas e também novos clubes de leitura.”

O participante da equipe do projeto, Charlie Milo Bergo, também deu algumas pistas sobre os próximos passos. Na visão dele, uma das principais vontades é tratar de leituras além do eixo Europa-América, como forma de ter uma diversidade maior de assuntos dentro das discussões literárias propostas pelas oficinas. Ele comenta:

“A gente pretende dar continuidade com esse projeto pegando outros enfoques, outros gêneros literários, trazendo a questão das mídias digitais, da ciberliteratura. Pensar também em discussões sobre tecnologia e literatura que estão surgindo, sobre a questão de autoria, o processo de criação, de originalidade. Então nós temos muitos planos para oferecer a todo tipo de pessoa que tenha o interesse em trabalhar esse eixo da literatura, da criação e da tecnologia.”

O ano de 2026, em que a Editora UFJF comemora 40 anos, promete novas oficinas literárias e novos projetos!


Matéria: Gustavo Ximenes
Edição: Andréia Sixel e Nathalie Reis