Material foi entregue pela historiadora Carolina Saporetti e por um dos fundadores do Movimento Gay de Minas (MGM), Oswaldo Braga (Foto: arquivo pessoal)

O Movimento Gay de Minas (MGM) formalizou este mês a doação de todo o seu acervo documental à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Dentre os ítens, que a partir de agora ficarão disponíveis para pesquisas e outras consultas, estão fotografias, fitas VHS (Video Home System), fitas mini DV (Mini Digital Video), recortes de jornais, revistas e catálogos, reunidos desde 1997, ou seja, por quase três décadas. 

A preservação da memória LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binárias) é importante para combater o apagamento histórico, legitimar direitos e fortalecer a identidade coletiva dessa comunidade. Vivências e expressões de gênero e sexualidade dissidentes foram, historicamente, marginalizadas e silenciadas. 

Rafael Barbosa Fialho Martins, professor da UFJF e articulador do processo, destaca a importância do acervo para pesquisas e projetos de extensão (Foto: arquivo pessoal)

“A intenção é que esse acervo, que será gerido pelo Centro de Conservação da Memória da Universidade, o Cecom, seja agora utilizado para pesquisas, projetos de extensão, disciplinas e iniciação científica. Ficará à disposição não só da UFJF, mas também da comunidade como um todo. Todas as pessoas interessadas, que queiram conhecer, terão acesso. Já vamos iniciar um projeto de extensão para organizar esse acervo”, conta Rafael Barbosa Fialho Martins, articulador desse processo, professor da Faculdade de Comunicação Social e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Sexualidade, Educação e Diversidade (Gesed),  da Faculdade de Educação da UFJF.

Conforme Martins, a ideia de a Universidade salvaguardar o acervo do MGM surgiu durante a Rainbow Fest deste ano, quando o Gesed realizou, entre os dias 5 e 7 de agosto, o seminário “Quem conta nossa história? Narrativas e memórias da população LGBTQIAPN+”.

“O objetivo do evento foi levar um pouco das discussões da Universidade para os movimentos sociais e somar forças. Foi uma tentativa de incentivar reflexões sobre a questão da memória. Para nós, população LGBT+, a memória é uma temática urgente. Somos uma comunidade que, até pouco tempo atrás, na geração da AIDS, foi dizimada. Só agora as primeiras gerações estão tendo direito à velhice, por exemplo, não é? Esse debate sobre a memória está em alta e é muito necessário.”

A avaliação é compartilhada por Oswaldo Braga, um dos fundadores do Movimento Gay de Minas (MGM) e doador do acervo à Universidade. “Como pioneiros nessa luta em Juiz de Fora e em Minas Gerais, damos muita importância para esse trabalho. Se esse material se perder, vai com ele também toda uma história que nos orgulha muito. A Universidade tem condições, tem recursos, para manter esse acervo e disponibilizá-lo para seus alunos, para os pesquisadores do Brasil inteiro, que tenham interesse em contar esse pedaço da história de Minas Gerais na luta pelos direitos da população LGBT+.” 

Oswaldo acrescenta que, com o acervo resguardado pela UFJF, o município de Juiz de Fora estará no contexto histórico nacional da luta por direitos LGBTQIAPN+. “Praticamente em todos os livros e compêndios, que você consulta sobre a história do movimento LGBT+, a história fica muito concentrada no eixo Rio-São Paulo e, quando se expande, vai para Belo Horizonte, Salvador. Mas, no interior, nós, Juiz de Fora, assim como outras cidades, temos momentos de lutas, que precisam e são muito bacanas de serem estudados e inseridos no contexto histórico geral da história da população LGBT+ no Brasil.”

Doação foi realizada durante o Rainbow Fest, em Juiz de Fora (Foto: arquivo pessoal)

Centro de Conservação da Memória da UFJF

A historiadora e supervisora do projeto relacionado ao MGM, no Centro de Conservação da Memória da UFJF, Carolina Martins Saporetti, destaca que o novo acervo estará disponível para consultas já a partir do próximo mês. “Vamos iniciar o trabalho com esse acervo em setembro, com a chegada de novas bolsistas. Inicialmente, o acervo vai passar por uma higienização e por um acondicionamento adequado. A partir disso, a gente consegue disponibilizar para consulta. Vamos fazer o processo de catalogação. Concomitante a isso, e posteriormente também, o de digitalização. Então, os pesquisadores interessados podem entrar em contato com o Cecom, através do e-mail ou do WhatsApp, que a gente vê uma forma de atendê-los. A gente vai começar a trabalhar com o acervo em setembro, mas vai atender as demandas que surgirem antes mesmo do acervo estar todo higienizado e acondicionado.”

Ainda segundo a historiadora, o Centro de Conservação da Memória (Cecom) aguarda a chegada de outros arquivos relacionados à memória LGBT+. “Não só em Juiz de Fora, mas em Minas Gerais, material sobre o concurso Miss Brasil Gay também. O nosso principal objetivo, além de fornecer, de preparar essa documentação, conservar, fazer a guarda e disponibilizar para a consulta, é também difundir esse material, essa história, essa memória tão importante para a cidade e para Minas Gerais”, finaliza.

Outras informações:

Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Sexualidade, Educação e Diversidade 

Centro de Conservação da Memória (Cecom/UFJF)

Av. Getúlio Vargas, 763 – Centro, Juiz de Fora (entrada pela rua Floriano Peixoto s/n)

Horário de funcionamento:  7h às 16h 

Whatsapp (32) 2102-6339 – cecom.procultura@ufjf.br