
Serão apresentadas 17 fotografias inéditas que evidenciam a riqueza visual do Congado, da Folia de Reis e da Marujada
Dá licença, minha gente, viemos pra celebrar. Com respeito e alegria, pedimos pra aqui entrar. É com esse verso que o Forum da Cultura, mais uma vez, abre as portas do casarão para receber os cortejos do povo, celebrados na nova exposição “Memória, Fé e Devoção: Um olhar fotográfico sobre a cultura popular brasileira”, da artista visual Damielle Moura. A abertura acontece na próxima terça-feira, 18 de agosto, às 18h30, com entrada gratuita e aberta ao público.
Ao todo, serão apresentadas 17 fotografias inéditas que evidenciam a riqueza visual do Congado, da Folia de Reis e da Marujada. Para construir esse trabalho, Damielle Moura percorreu as cidades mineiras de Santana dos Montes e Araguari, registrando momentos sagrados como cortejos, missas, procissões, toques de tambores, orações, rezas e homenagens aos santos negros, especialmente Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia. Ao longo desse percurso, acompanhou os preparativos das celebrações, conviveu com os grupos, conversou com seus integrantes e conheceu os mestres responsáveis por preservar, conduzir e transmitir os saberes dessas tradições.
“Com esse trabalho, pretendo exaltar manifestações afro-brasileiras que unem devoção, arte, fé e tradição. Esses grupos desempenham um papel importante na preservação das tradições culturais e religiosas do país. As imagens buscam registrar e valorizar a estética e o simbolismo presentes nas práticas culturais, com foco em seus rituais, personagens, danças e expressões de resistência e fé”, explica a artista visual. “Cada fotografia deve ser vista como um fragmento de uma narrativa maior, que reúne histórias, tradições, crenças e valores que moldam a vida dos indivíduos e das comunidades fotografadas”, acrescenta.

Para Damielle Moura, a fotografia é uma poderosa ferramenta de registro e comunicação visual, capaz de revelar detalhes expressivos
Congado, Folia de Reis, Marujada e outras manifestações reúnem dança, música, canto, devoção e organização comunitária, constituindo saberes ancestrais transmitidos oralmente entre gerações. Na exposição, o público poderá se aproximar desse universo ao observar detalhes presentes em cada fotografia, como estandartes, altares, imagens de santos, indumentárias em movimento, danças, tambores, bastões, espadas, bandeiras e expressões corporais.
Para Damielle Moura, a fotografia é uma poderosa ferramenta de registro e comunicação visual, capaz de revelar detalhes expressivos. “No contexto antropológico, a fotografia não é meramente um instrumento de registro documental; ela é um meio através do qual os antropólogos exploram e apresentam suas interpretações culturais. Por meio da lente da câmera, pude captar as nuances das expressões faciais, as interações entre pessoas e as particularidades dos rituais e simbolismos”, relata. “A fotografia, enquanto linguagem artística, constitui um importante método de preservação da memória e fortalecimento identitário. Ela se torna uma poderosa ferramenta para compreender e expressar a diversidade da experiência humana, oferecendo ao público uma janela para realidades que, de outra forma, poderiam passar despercebidas”, reforça.
A artista espera que o percurso pela exposição convide o público a enxergar essas manifestações para além de sua beleza estética. “Congado, Folia de Reis, Marujada e outras manifestações constituem patrimônios culturais vivos que expressam modos de existir, celebrar e transmitir conhecimentos. Cada fotografia preserva um instante, mas também testemunha processos históricos, práticas coletivas e formas de resistência cultural que continuam sendo recriadas pelas comunidades. Desejo que estas fotografias despertem não apenas admiração, mas também o reconhecimento da importância de valorizar, proteger e transmitir os saberes que fazem da cultura popular um dos maiores patrimônios do Brasil”, conclui.
Damielle Moura foi uma das artistas selecionadas pelo Edital de Ocupação da Galeria de Arte do Forum da Cultura 2026.
A mostra “Memória, Fé e Devoção: Um olhar fotográfico sobre a cultura popular brasileira” permanece em cartaz até 4 de setembro, com visitação gratuita de segunda a sexta-feira, das 13h às 16h.
Mais sobre a artista
Damielle Priscila Moura de Araújo é pesquisadora, diretora teatral, artista visual e articuladora cultural. Desenvolve uma atuação interdisciplinar entre as Artes Cênicas, a Filosofia e as Ciências Sociais, dedicando-se a pesquisas e projetos voltados à cultura popular brasileira, aos processos formativos e às manifestações tradicionais. É mestranda em Artes Cênicas pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), especialista em Direção Teatral pela CAL e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde realizou uma pesquisa etnográfica sobre a Festa de Nossa Senhora de Nazareth, no distrito de Morro Vermelho, em Caeté (MG).

Natural de Fortaleza (CE), Damielle de Araújo aprofundou seu contato com a cultura popular Santana dos Montes (MG), em 2008
Natural de Fortaleza (CE), vive atualmente no Rio de Janeiro e mantém uma trajetória marcada pelo trânsito constante entre os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Ceará. Foi durante sua permanência em Santana dos Montes (MG), em 2008, que aprofundou seu contato com a cultura popular, passando a se dedicar ao registro fotográfico e à pesquisa de manifestações como Folia de Reis, Congado, Marujada, Festa do Divino e Cavalhadas.
Ao longo de mais de uma década, percorreu diferentes territórios mineiros — entre eles o Vale do Jequitinhonha, Norte de Minas, Triângulo Mineiro, Noroeste de Minas, Vale do Rio Doce e Vale do Mucuri —, acompanhando os festejos desde sua organização comunitária até a realização dos rituais. Esse trabalho de campo resultou na construção de um amplo acervo fotográfico e documental, além de proporcionar contato direto com mestres e comunidades detentoras de saberes tradicionais.
Sua produção articula pesquisa etnográfica, fotografia, direção e produção de espetáculos, mapeamento e assessoria cultural, sempre voltados à valorização do patrimônio imaterial brasileiro. Atualmente, sua pesquisa de mestrado investiga o Congado em Araguari (MG), compreendendo essa manifestação como uma prática performativa em que corpo, música, memória, ritual, espiritualidade e espaço constroem uma dramaturgia própria, capaz de produzir conhecimento e preservar tradições ancestrais.
A exposição fotográfica nasce desse percurso de pesquisa e convivência com diferentes comunidades tradicionais, buscando aproximar o público da riqueza simbólica, estética e cultural das festas populares brasileiras e contribuir para a valorização desses saberes em espaços culturais, educativos e acadêmicos.
Congado, Folia de Reis e Marujada
O Congado é uma expressão cultural e religiosa que reúne canto coletivo, dança, teatro e fé. Durante as celebrações, comunidades congadeiras e reinadeiras louvam divindades e santos de origem africana e/ou católica, com destaque para Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Embora não haja uma data fixa para sua realização, os meses de maio, outubro e dezembro costumam concentrar grande parte das festividades.
A dispersão da população africana ao longo dos séculos resultou no restabelecimento de suas sociabilidades, com atuação cosmológica e política em diferentes territórios. Cada comunidade congadeira ou reinadeira possui formas próprias de organização para a realização dos rituais, preservando expressões singulares. A diversidade de cores, cantos, instrumentos e elementos simbólicos utilizados para manter viva essa história constitui uma das marcas das festas de Congado. A manifestação está presente em diversos estados brasileiros, como Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Em agosto deste ano, o Congado foi oficializado como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais.
A Folia de Reis, também conhecida como Reisado, é uma manifestação cultural inspirada no Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro pela tradição cristã, data que remete à visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. As festividades têm início em 24 de dezembro, véspera de Natal, e seguem até o Dia de Reis. De origem portuguesa, a tradição foi trazida ao Brasil durante o período colonial e também recebe denominações como Terno de Reis, Tiração de Reis, Rancho de Reis, Guerreiros e Reisado.
As celebrações são marcadas pela presença de cantadores e instrumentistas que percorrem ruas e residências, entoando louvores aos santos de devoção, recolhendo donativos destinados aos mais necessitados ou cumprindo promessas feitas pelos fiéis. Os grupos de Folia de Reis costumam ser formados por embaixador, contramestre, palhaços, alferes, foliões e os três Reis Magos. Atualmente, a tradição permanece viva em diversos estados brasileiros, especialmente nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, incluindo Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Goiás. O Iphan segue realizando pesquisas e levantamentos documentais para subsidiar o processo de registro das Folias de Reis como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
A Marujada de Santana dos Montes (MG) é uma manifestação tradicional da cultura popular que integra o conjunto de celebrações religiosas do município, especialmente as festividades em honra de Sant’Ana, padroeira da cidade. Trata-se de um importante patrimônio cultural da região dos Campos das Vertentes e do antigo circuito minerador.
Ligada ao universo das festas religiosas populares, a Marujada compartilha características com outras manifestações mineiras da mesma tradição, como a participação em cortejos e procissões, os cantos de louvação aos santos, o uso de instrumentos de percussão e cordas, as coreografias coletivas, os deslocamentos pelas ruas e a forte transmissão oral dos saberes entre gerações.
Assim como ocorre em outras localidades de Minas Gerais, a manifestação dialoga com tradições afro-brasileiras e luso-brasileiras, preservando elementos simbólicos associados às antigas irmandades religiosas e às festas do Rosário.
Em Santana dos Montes, uma característica marcante é a participação dos grupos em toda a dinâmica da festa, desde os preparativos comunitários até as celebrações finais. A festividade mobiliza moradores, famílias e visitantes em uma programação que reúne missas, novenas, procissões, cortejos, música e encontros comunitários.
Galeria de Arte
O espaço, instalado em um local privilegiado no segundo pavimento do Forum da Cultura, abriga produção eclética, com exposições de artes plásticas, documentais e pedagógicas, que já chegaram a ter mais de mil visitantes por mostra. Criada em 1981, no reitorado do professor Márcio Leite Vaz, a galeria recebe importantes nomes da pintura de Minas Gerais e da cidade, além de jovens artistas e coletivos. Em janeiro de 2024, o espaço passou por reforma, substituindo as antigas placas de madeira por novas, garantindo assim um espaço renovado, com estruturas reforçadas para as mostras a serem expostas. O sistema de iluminação também foi renovado, possibilitando mais destaque para as obras em exibição.
Forum da Cultura
Instalado em um casarão centenário, na rua Santo Antônio, 1112, Centro, o Forum da Cultura é o espaço cultural mais antigo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em atividade há mais de cinco décadas, leva à comunidade diversos segmentos de manifestações artísticas, abrindo-se a artistas iniciantes e consagrados para divulgarem seus trabalhos.
Endereço e outras informações
Forum da Cultura
Rua Santo Antônio, 1112 – Centro – Juiz de Fora
www.ufjf.br/forumdacultura
E-mail: forumdacultura@ufjf.br
Instagram: @forumdaculturaufjf
Telefone: (32) 2102-6306

