
Cássia Castro coordena o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental (LabCAA) da UFJF, que estuda as condições climáticas e ambientais de Juiz de Fora para identificar problemas, características, causas e possíveis impactos associados. (Foto: Twin Alvarenga)
Em 24 de fevereiro de 2026, a estação meteorológica da UFJF registrou 138,8 mm de chuvas, o maior volume diário já registrado em Juiz de Fora. Os sensores da estação também apontaram que esse fevereiro foi o mês mais chuvoso da história da cidade, desde 1972, marcando impressionantes 752,4 mm, cerca de dois terços a mais que o recorde anterior para um mês de fevereiro, que foi de 459,2 mm em 1979.
Eventos extremos como esse geraram (e geram) alagamentos, enchentes, inundações e deslizamentos de terra que afetam toda uma cidade. Mas para além dos aspectos físicos associados a tais desastres naturais, as dimensões sociais do clima e seus impactos desiguais reforçam a urgência de as pessoas e órgãos públicos se prepararem para os episódios cada vez mais intensos e frequentes das mudanças climáticas.
Quem faz esse alerta é Cássia Castro, professora da Faculdade de Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenadora do Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental (LabCAA), laboratório responsável pelas atividades e levantamento de dados da estação meteorológica de Juiz de Fora. Neste 32º episódio do IdPesquisa, disponível no YouTube e Spotify, conheça o trabalho da professora Cássia e seus alunos, sua importância para os registros do clima na cidade e sua atuação de décadas no LabCAA.
Associação de fatores
Instalada no campus-sede da UFJF desde 1972, a Estação Climatológica Principal de Juiz de Fora opera sob uma parceria entre a Universidade e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O LabCAA gerencia e supervisiona essa estrutura composta de sensores isolados que registram continuamente os parâmetros meteorológicos. De domingo a domingo, três vezes ao dia, sob chuva, sol ou frio, um observador faz leituras e anotações de sensores como de pressão atmosférica, temperatura e umidade relativa do ar, precipitação, radiação solar e direção e velocidade do vento.
“A estação, hoje, está sendo totalmente monitorada apenas pela Universidade. Então é super importante manter a sua operação para que possamos ter tranquilidade e meios para projetar cenários futuros sobre a climatologia da cidade” – Cássia Castro
Cássia é uma dessas observadoras. Há décadas, dedica sua vida e carreira a estudos que articulam diferentes fatores para promover uma visão integrada dos problemas ambientais e sua repercussão. Por exemplo, como os fenômenos climáticos se manifestam no espaço e como seus efeitos variam de acordo com as condições socioeconômicas da população.
A partir dessas relações, bolsistas e pesquisadores do LabCAA conseguem identificar quais grupos sociais estão mais expostos a determinados riscos e quais características do espaço contribuem para essa exposição, colaborando com o desenvolvimento de estratégias, ações e políticas públicas mais adequadas para a sociedade. Conseguem compreender, entre outras implicações, como a distribuição desigual das áreas verdes pode influenciar na temperatura da superfície em condições distintas de vulnerabilidade social.

A Estação Climatológica Principal de Juiz de Fora encontra-se instalada na UFJF desde o ano de 1972 (Foto: UFJF)
Décadas de pesquisa
Graduanda da etapa final do curso de Geografia na UFJF, Ana Luiza Barbosa é bolsista do LabCAA desde o 2º período da faculdade e desenvolve, junto da professora Cássia, pesquisas sobre espaço urbano, clima e saúde, precipitações e áreas verdes. “Meu interesse pela Climatologia começou antes mesmo de entrar na graduação, porque essa é uma área rica e complexa que está diretamente relacionada à nossa vida, saúde e cotidiano”, lembra.
No estudo sobre as condições climáticas e ambientais de Juiz de Fora, Ana Luiza participou do desafio de realizar manualmente parte do mapeamento das áreas verdes da cidade, o que exigiu bastante atenção e tempo para identificar e delimitar a vegetação arbórea do perímetro urbano. De acordo com a professora Cássia, um tempo de pesquisa que levou cerca de 10 anos para ser finalizado. “Foi um mapeamento de extremo detalhe. A gente mapeou cada unidade construtiva e fez uma série de levantamentos”, enfatiza.

Segundo Ana Luiza Barbosa, a baixa cobertura arbórea, associada ao maior aquecimento superficial de determinada região da cidade, reforça a necessidade de atenção à exposição da população ao calor, especialmente no verão. (Foto: Twin Alvarenga)
Dentre os aspectos levantados, está o tipo de telhado; a cobertura vegetal, se tem árvore, se tem azrbusto, se tem gramínea, se é floresta urbana; qual o tipo de calçamento das ruas, se é asfalto, se os pavimentos são permeáveis; qual a altura da edificação; qual o tipo de lote, o que é área pública, o que é área particular; qual o tipo de uso do solo daquela área, se é uso comercial, se é residencial. Além do mapeamento de outros dados do meio físico, como declividade, altimetria, cursos d’água, movimentos de massa etc.
“A gente fez um levantamento muito minucioso para a cidade inteira. Foi um trabalho que envolveu muitos bolsistas nesse processo. E a gente vem fazendo exatamente a atualização que nos permitiu criar, por exemplo, um mapa de qualidade climática urbana. A gente levou só 10 anos para fazer isso, né?”, brinca a pesquisadora.

Amanda Eduarda integra a equipe do LabCAA e estuda as relações do clima com o ambiente urbano e a sociedade. (Foto: Twin Alvarenga)
Piores condições climáticas e ambientais para quem?
Amanda Eduarda também é estudante do curso de Geografia da UFJF e integrante do LabCAA há mais de dois anos. Ela desenvolve pesquisas sobre clima e vulnerabilidade, especialmente no que se refere à relação entre a exposição de pessoas em situação de rua e as condições climáticas.
Ela desenvolve habilidades que vão desde o levantamento e a análise de dados até à apresentação e divulgação de resultados. Experiências que a permitem aprofundar domínios teóricos sobre climatologia e desenvolver conhecimentos técnicos importantes da área. Um desses conhecimentos é o geoprocessamento, que reúne um conjunto de métodos e ferramentas computacionais para coletar, armazenar, tratar, analisar e apresentar informações de uma localização geográfica específica da superfície da Terra.
“Tenho observado ao longo das análises que as ilhas de calor em Juiz de Fora apresentam uma dinâmica bastante variável. As diferenças de temperatura entre áreas urbanas e rurais mudam ao longo do dia. Também tenho identificado diferenças entre pontos da cidade, o que mostra que o calor não se distribui de maneira uniforme pelo espaço urbano”, revela.
“Dentro desse recorte do estudo, os resultados que mais chamam a minha atenção são aqueles que demonstram que as pessoas com maior vulnerabilidade social e econômica estão vivendo em áreas com piores condições climáticas e ambientais”, lamenta a bolsista. Isso acontece, segundo explica Cássia no 32º episódio do IdPesquisa, porque os bairros de menor poder aquisitivo apresentam um aumento muito grande da massa construída.
“Constrói-se em praticamente 100% do lote, né? Primeiro constrói uma habitação, depois sobe uma laje, depois faz outra casa na parte de atrás para o filho ou para alugar. Então vai aumentando a densidade de ocupação. E são bairros que normalmente não têm arborização viária, que quase não têm praças públicas. Isso gera um aumento das temperaturas, piora as condições climáticas”, esclarece.
As ilhas de calor
Jhulie Casali é mestranda orientada pela professora Cássia e sua pesquisa tem como tema as ilhas de calor urbanas em Juiz de Fora. Ela busca compreender como a temperatura do ar varia entre diferentes áreas da cidade e ao longo do tempo, investigando os contrastes térmicos entre os espaços urbanos e rurais e as diferenças que existem dentro do próprio espaço urbano.

Jhulie Casali é mestranda do departamento de geociências da UFJF. Seus estudos evidenciam as desigualdades socioambientais de Juiz de Fora e podem auxiliar no planejamento urbano da cidade. (Foto: Arquivo pessoal)
Conforme a mestranda, a urbanização pode favorecer o aquecimento, gerando diferenças importantes entre os próprios pontos da cidade e algumas áreas apresentando temperaturas mais quentes que outras. É o que a professora Cássia explica no episódio do IdPesquisa:
“A região central de Juiz de Fora tem um índice de áreas verdes muito baixo, porque tem uma enorme concentração populacional associada a pequenas manchinhas de praças arborizadas. Isso faz com que essa região tenha temperaturas bem elevadas. A gente registrou uma onda de calor de 48 graus ali na esquina da Getúlio Vargas com a Floriano. E aqui no campus, no mesmo momento, a temperatura era de 36 graus”, explica a professora.
Justiça ambiental
Na mesma linha de pesquisa, Yan Vianna foi orientando da professora Cássia durante o mestrado e estudou a formação de ilhas de calor na cidade de Ubá. Agora, no doutorado, ele segue trabalhando com o clima urbano, só que em escala maior. Além das ilhas de calor, seu projeto busca estudar como outros fenômenos climáticos urbanos, como as enchentes e a poluição do ar, impactam a qualidade climática do ambiente metropolitano. Pretende, ainda, relacionar esses fenômenos a alguns tipos de doenças, principalmente os ligados a problemas respiratórios e cardiovasculares.
Em fase inicial da pesquisa, Yan avançou na metodologia para mapear a ilha de calor na metrópole de São Paulo. E o resultado é diferente do identificado em Juiz de Fora: “Na metrópole paulista a maior intensidade da ilha de calor não ocorre no centro da cidade, mas sim nas periferias. Porque apesar do centro ser altamente verticalizado, ter muitos edifícios, concreto e asfalto, ele ainda tem mais áreas verdes do que nas periferias”, relata.
O doutorando explica que as periferias são muito adensadas, isto é, apesar de possuírem casas pequenas, possuem alta concentração populacional e muitas construções por quilômetro quadrado – inclusive menos vegetação urbana viária, parques e praças –, o que favorece a formação de ilhas de calor mais intensas e torna o ambiente mais quente.

Yan Vianna é pesquisador de doutorado no LabCAA e estuda como fenômenos climáticos urbanos impactam a qualidade do ambiente metropolitano de São Paulo. (Foto: Twin Alvarenga)
Então, em São Paulo, a lógica tradicional do centro populoso e verticalizado ser mais quente se inverte: o centro é mais frio. “E não só o centro, mas as áreas mais valorizadas de São Paulo, os bairros mais ricos, eles têm mais vegetação e são menos adensados do que a periferia. Isso mostra que tem uma inversão do que geralmente está na literatura tradicional para o padrão de ocupação das periferias brasileiras que contrasta e muito com os subúrbios norte-americanos”, afirma.
Para Yan, o objetivo dos estudos climáticos é tentar identificar com maior precisão os pontos de pior qualidade ambiental para que políticas públicas mais precisas sejam desenvolvidas. “E políticas públicas que possam levar à maior justiça ambiental, que inclui, por exemplo, acesso a parques e áreas verdes de lazer para toda a população”, declara.
Como conclui a professora Cássia Castro no 32º IdPesquisa, o objetivo “não é estudar o clima pelo clima; não é estudar a atmosfera pela atmosfera; mas estudar a atmosfera e o clima nas suas repercussões na sociedade”.
Para saber mais sobre essas e outras pesquisas realizadas no LabCAA, assista pelo YouTube à entrevista completa com a pesquisadora ou acesse o Spotify para ouvir um bate-papo comentado sobre o episódio.
