
professor Marcelo Campos, do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF, atua nas áreas de Ciências Sociais, segurança pública e políticas sobre drogas (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
Como as políticas de segurança pública são formuladas e quais efeitos produzem na sociedade? De que maneira profissionais que atuam diretamente no setor percebem questões como democracia, violência e uso de novas tecnologias? Perguntas como essas orientam pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Professor do Departamento de Ciências Sociais, Marcelo Campos reúne pesquisa e formação acadêmica em torno de temas como segurança pública, política criminal e políticas sobre drogas. Desde que ingressou na UFJF, em 2022, o docente passou a integrar e coordenar projetos em parceria com pesquisadores de diferentes instituições.
Campos é o 31º convidado do IdPesquisa, programa da UFJF disponível no YouTube e no Spotify. No episódio, ele conta sua trajetória acadêmica e apresenta parte dos estudos que desenvolve na Universidade, além de falar sobre a atuação como coordenador do Laboratório Multiusuário em Humanidades Digitais (Lamu-HD) e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCSO).
Pesquisa em rede
Entre as iniciativas coordenadas pelo professor está o Lamu-HD, vinculado ao Instituto de Ciências Humanas (ICH). O espaço reúne pesquisadores, estudantes e programas de pós-graduação de áreas como Psicologia, Turismo, História, Geografia e Ciências Sociais.
Os projetos desenvolvidos no laboratório envolvem temas como humanidades digitais, inteligência artificial, memória, violência, segurança pública e desigualdades. “A ideia foi articular junto com outros professores diversos cursos dentro do ICH. Então, Psicologia, Turismo, História, Geografia e Ciências Sociais, formando um laboratório de humanidades digitais envolvendo esses cursos, departamentos e programas de pós-graduação”, explica o docente.

Professor Marcelo Campos com seus orientandos no Laboratório Multiusuário em Humanidades Digitais (Lamu-HD) (Foto: UFJF)
Essa articulação também está presente em pesquisa sobre as percepções de policiais sobre a justiça, a democracia e os direitos humanos, coordenada pela Universidade de São Paulo (USP) e pelo Núcleo de Estudos da Violência. O trabalho reúne pesquisadores da UFJF, USP, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal do ABC e Universidade Federal Fluminense.
Na Zona da Mata, a equipe ouviu profissionais que atuam na segurança pública, entre policiais penais, policiais militares e guardas municipais. Os questionários investigaram as percepções desses trabalhadores sobre democracia, atuação policial e outros aspectos relacionados ao exercício da profissão.
Um dos temas abordados foi o uso de câmeras pelas forças de segurança. Os resultados indicaram apoio majoritário aos equipamentos, mas também apontaram resistências relacionadas aos possíveis impactos da tecnologia sobre o trabalho policial.
“Encontramos apoio à ideia de que não se deve praticar nenhum tipo de violência ou desrespeito ao cidadão. Mas ainda existem dificuldades em relação a inovações tecnológicas, como as câmeras policiais.”
— Marcelo Campos
Conhecimento aplicado à formação
A pesquisa desenvolvida na UFJF também se transforma em formação para profissionais que atuam diretamente na segurança pública. É nesse ponto que se insere a Especialização em Segurança Pública e Políticas sobre Drogas, coordenada pelo docente e desenvolvida em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Selecionada por meio de edital público, a Universidade reúne pesquisadores de diferentes áreas para oferecer uma formação que contempla as dimensões sociais, jurídicas, de saúde e tecnológicas relacionadas ao tema. O corpo docente é formado por professores das Ciências Sociais, Direito, Medicina, Psicologia, Computação, Comunicação, Geografia e Saúde Pública.
A especialização é voltada a profissionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), como policiais militares e civis, bombeiros, guardas municipais e policiais técnico-científicos. Na primeira edição, 193 profissionais de diferentes regiões do país participaram do curso.

Assinatura da parceria entre a UFJF e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em Brasília (Foto: arquivo pessoal)
A grade aborda questões que fazem parte do cotidiano e dos desafios enfrentados por esses profissionais, entre elas política criminal de drogas, mercados ilícitos, políticas públicas, controvérsias sobre drogas, investigação policial, lavagem de dinheiro e inteligência policial.
Para Campos, reunir diferentes áreas do conhecimento é uma forma de lidar com a complexidade do tema e evitar análises restritas a uma única perspectiva. “O tema das drogas é multidisciplinar e interdisciplinar. É impossível a gente adotar uma abordagem única. Só a Sociologia não vai responder, só a Psicologia, só a Psiquiatria ou só o Direito. É preciso uma abordagem multidisciplinar.”
Oferecida na modalidade de Educação a Distância (EaD), a especialização tem duração de 14 meses e carga horária de 392 horas-aula, incluindo a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A proposta, segundo Campos, é aproximar a produção acadêmica da realidade de quem atua no setor e contribuir para o aprimoramento técnico, científico e institucional dos profissionais. “O papel fundamental da nossa Universidade e do curso é pensar uma formação de ponta dos profissionais de segurança, com uma formação verdadeiramente sólida e multidisciplinar nesse tema”, ressalta.
Formação acadêmica

Beatriz Araújo integra o grupo de pesquisa coordenado pelo professor Marcelo Campos. Sua pesquisa investiga a recuperação de ativos provenientes do tráfico de drogas e a destinação desses recursos para políticas de cuidado, prevenção e reinserção social (Foto: arquivo pessoal)
A produção científica coordenada por Campos envolve ainda estudantes de graduação e pós-graduação. No Lamu, por exemplo, a mestranda Beatriz Oliveira Araújo desenvolve uma pesquisa sobre a recuperação de ativos provenientes do tráfico de drogas e a destinação desses recursos. O trabalho analisa especificamente o direcionamento de recursos para políticas de cuidado, prevenção e reinserção social por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad).
Para Beatriz, a participação no grupo de pesquisa contribuiu para uma formação que amplia a compreensão sobre segurança pública para além de perspectivas exclusivamente punitivas. “O diferencial do grupo está em unir o rigor teórico ao uso pragmático de dados da realidade: não se trata de discutir problemas sociais complexos apenas no plano abstrato, mas de examinar, na prática, dados como fluxos burocráticos, entrevistas e relatórios de gestão para compreender como as decisões são operadas nas políticas de drogas e na segurança pública.”
Outro trabalho desenvolvido no PPG em Ciências Sociais, sob orientação de Campos, é o de Igor Gabriel Morais. O mestrando pesquisa a relação entre relações raciais e violência, buscando compreender como a violência produz sociabilidades violentas e afeta de maneira desigual o curso de vida da população negra.

O pesquisador Igor Morais, orientando do professor Marcelo Campos, desenvolve pesquisa sobre a relação entre relações raciais e violência. O trabalho busca compreender como a violência produz sociabilidades violentas e afeta de maneira desigual o curso de vida da população negra (Foto: arquivo pessoal)
De acordo com Igor, a participação nas pesquisas tem contribuído para seu amadurecimento como pesquisador e para uma abordagem mais crítica de questões relacionadas à segurança pública e às políticas sobre drogas. “A segurança pública e a política sobre drogas são campos muito disputados na nossa sociedade; portanto, atuar cientificamente nessas áreas nos ensina a tratar temas urgentes com o rigor metodológico exigido.”
Para o estudante, a convivência com diferentes áreas também amplia as possibilidades de investigação. “Vivenciar a prática científica de forma multidisciplinar amplia o arcabouço teórico e metodológico, aprimorando a percepção do meu desenvolvimento como pesquisador. Além disso, essa experiência promove a troca de referências bibliográficas, métodos e abordagens de investigação, proporcionando uma formação acadêmica mais consistente e bem preparada.”
Assista ao conteúdo disponível no YouTube, disponível também no Spotify, em formato podcast.
