Os primeiros anos de vida são marcados por descobertas, vínculos e transformações que acompanham o indivíduo muito além da infância. É nesse período, entre 0 e 6 anos, chamado de primeira infância, que se desenvolvem, em ritmos distintos, habilidades fundamentais como linguagem, cognição, regulação emocional, interação social e funções motoras. 

Durante o Agosto Verde, mês dedicado à conscientização sobre a importância da primeira infância, pesquisadoras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) reforçam a necessidade de olhar para o período com cuidado, uma vez que as experiências vividas nesses anos podem favorecer ou dificultar o desenvolvimento futuro. 

Nara Andrade é pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF. (Foto: Kaio Lara)

Por que falar da primeira infância?

Garantir uma infância saudável começa antes mesmo dos primeiros sinais de desenvolvimento. Na primeira infância, o acompanhamento contínuo da saúde e do desenvolvimento da criança é fundamental para identificar necessidades, prevenir problemas e assegurar que cada etapa seja vivenciada de maneira adequada.

A professora do Departamento de Psicologia da UFJF, Nara Andrade, explica que reconhecer a relevância dos primeiros anos não significa assumir uma perspectiva determinista do desenvolvimento: “o cérebro termina de se modificar apenas quando paramos de respirar. A primeira infância reúne períodos de grande sensibilidade às experiências, mas o desenvolvimento é um processo de continuidades”. De acordo com a pesquisadora, o cérebro da criança possui uma grande plasticidade nessa fase, ou seja, tem facilidade em se adaptar e aprender. Entretanto, esse fato não é uma sentença do seu futuro, o cérebro é plástico durante toda a vida.

Nara enfatiza que as infâncias são diversas, acontecem em diferentes territórios, culturas, configurações familiares e condições sociais. Essas diferenças não estão apenas ao redor, impactam diretamente no desenvolvimento da criança. “Por esse motivo, mais do que pensar na quantidade ideal de estímulos que os adultos deveriam oferecer, precisamos pensar na qualidade das experiências e das relações que são construídas para as crianças”, ressalta. 

Do ponto de vista da ciência, quando os direitos da criança são violados ou não oferecidos, nem há relações e sistemas de proteção capazes de ajudá-la, ela fica exposta ao processo chamado de “estresse tóxico”. Por isso, de acordo com a pesquisadora, o contexto no qual a criança está inserida importa muito. Todas as experiências, desde as oportunidades e até as desigualdades que enfrentam impactam profundamente no desenvolvimento. 

Mais do que evitar pequenas frustrações comuns do dia a dia, garantir o direito das crianças implica em poupá-las da violência, da negligência, da insegurança alimentar e outras de formas de desigualdade e violação. A psicóloga alerta que o acesso à moradia, alimentação adequada, saúde, educação de qualidade e outros recursos participam da formação. “Promover o desenvolvimento infantil não significa cumprir uma lista de comportamentos, mas construir coletivamente contextos que acolham diferentes infâncias. 

Cuidados e direitos

Sandra Tibiriçá é professora da UFJF e é coautora do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) integra a política nacional. (Foto: Carolina de Paula/UFJF)

A médica pediatra e professora da UFJF, Sandra Tibiriçá, reforça a relevância dos primeiros 72 meses da criança para o seu desenvolvimento e defende que ela precisa ser analisada de forma multifatorial. O aprendizado, sono, a vacinação, alimentação, oportunidades para brincar, contato afetivo, convivência familiar e segurança são questões que devem ser observadas. 

O acompanhamento com profissionais de saúde também tem papel importante. Consultas regulares permitem observar se a criança está atingindo os marcos esperados para cada faixa etária e identificar possíveis sinais de alerta. Sandra explica que a consulta com um médico pediatra vai muito além de medir e pesar e é ele quem acompanha adequadamente os reflexos, questões neuropsicológicas e outros sinais relacionados ao desenvolvimento infantil. Nessa perspectiva, o pediatra ajuda a garantir que diversas áreas do comportamento da criança estejam alinhadas. 

Para garantir os direitos básicos para crianças, a médica entende que família, sociedade e Estado precisam conversar entre si. A partir dessa necessidade, surgem leis nacionais e municipais. A Constituição Federal de 1988 estabelece, no Artigo 227, proteção integral à criança e determina que a família, a sociedade e o Estado devem garantir com prioridade absoluta a vida, a saúde, a segurança, a educação e a dignidade de crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolecente e o Marco Legal Pela Primeira Infância também são aparelhos públicos brasileiros voltados para a defesa e ampliação dos direitos infantis. Em Juiz de Fora, o Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) integra a política nacional. 

Sandra é coautora do PMPI, ao lado de outros representantes da UFJF e profissionais que atuam na área. De acordo com ela, a partir de agora, o desafio é transformar os direitos previstos na lei em políticas públicas efetivamente vividas pelas crianças: “o agosto verde é um chamado para mudar prioridades e colocar essa criança pequena no centro das políticas”, afirma. 

Marcos de desenvolvimento e sinais de alerta

Rayla Lemos explica que o ritmo individual de desenvolvimento de cada criança não pode ser confundido com atraso significativo.

Cada fase da primeira infância é marcada por novas descobertas. Sentar, engatinhar, andar, correr, segurar objetos e explorar o ambiente são algumas das conquistas que fazem parte do desenvolvimento motor da criança. Embora exista uma expectativa para que determinadas habilidades apareçam em cada faixa etária, especialistas esclarecem que esse processo não acontece de maneira exatamente igual para todas as crianças. 

Os marcos do desenvolvimento funcionam como referências para que profissionais e familiares acompanhem a evolução da criança. Mais do que estabelecer uma idade exata para cada conquista, eles ajudam a observar se novas habilidades estão sendo adquiridas ao longo do tempo e se a criança está ampliando gradualmente sua capacidade de interagir com o próprio corpo e com o ambiente. 

A professora da Faculdade de Fisioterapia da UFJF, Rayla Lemos, aponta alguns marcos que podem ser observados pelos cuidadores em cada fase. Logo nas primeiras semanas de vida, um reflexo importante é se o bebê quando de bruços levanta ou vira a cabeça para liberar o nariz. Avançando os meses, já faz interação visual, pode sorrir e começa a entender quando chamado pelo próprio nome. Ao final do terceiro mês de vida, normalmente esse bebê já controla a cabeça e até os nove meses consegue sentar sem apoio, de forma independente. 

Próximo aos 12 meses, a criança começa a andar, algumas crianças vão ter essa capacidade aos 11 e outras até os 15 meses. Rayla alerta que quando isso não acontece, é considerada uma “variação importante”, e é preciso encaminhar a criança para uma avaliação especializada. “O ritmo individual da criança não deve ser confundido com atraso significativo”, explica. 

Outro ponto importante, destacado pela profissional, é observar se em qualquer faixa etária a criança perdeu alguma habilidade. “Engatinhava e agora não mais, sentava e perdeu essa habilidade”, explica. Ela ainda acrescenta que esse olhar da família colabora com o desenvolvimento da criança e com o profissional que o acompanha. 

A primeira infância é um período sensível para aprender e adquirir habilidades. Segundo Rayla, quando uma necessidade da criança não é identificada no momento adequado ela pode ter falta de certos estímulos ou não desenvolver algum aspecto de maneira satisfatória. Isso não significa que nunca vai conquistar a habilidade pretendida, apenas que no futuro os esforços serão maiores. “Observar, acompanhar e garantir os direitos à criança na primeira infância otimiza o potencial de aprendizado e reduz a chance de lacunas no desenvolvimento”, completa. 

Exposição Primeira Infâncias Brasileiras

O tema tem tamanha relevância que gerou a exposição “Primeiras Infâncias Brasileiras”, aproveitando o Agosto Verde. Em cartaz no Solar Fábio Prado em São Paulo, até 20 de setembro, a programação gratuita conta também com oficinas, vivências e atividades para crianças e adultos com experiências que unem arte, brincadeira, natureza e informação.

“Foi uma alegria imensa e também uma grande responsabilidade integrar o grupo de curadores da exposição Primeiras Infâncias Brasileiras”, diz Nara. A professora foi convidada para contribuir com a mostra especialmente a partir do campo das neurociências do desenvolvimento. Ela traz um olhar que considera central: não é possível abordar neurodesenvolvimento, apartado dos contextos em que as crianças vivem.

Ela explica que quando arte, ciência e cultura se encontram amplia-se a capacidade de contribuir para a transformação das realidades sociais e para a garantia dos direitos de todas as crianças, em todas as suas infâncias. Para Nara, ter representado a UFJF em um pequeno grupo de curadores foi muito significativo: “levando a contribuição da universidade pública e da ciência para um espaço de diálogo tão potente com a sociedade”, conclui. 

Os visitantes são convidados a revisitar os primeiros anos da vida pela perspectiva das crianças por meio de instalações audiovisuais, experiências sensoriais e atividades interativas. Além da visita à exposição, o público participa de oficinas, atividades corporais e rodas de conversa que levam crianças e adultos a compartilhar experiências de criação, descoberta e escuta. 

Outras Informações

Primeiras infâncias brasileiras

Fundação Maria Cecília