Na segunda reportagem da série especial sobre a campanha Agosto Lilás, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) traz uma pesquisa que investiga os processos psicossociais observados na violência de gênero e o papel do sexismo na manutenção dos estereótipos e “mitos de estupro”. Desenvolvido pela psicóloga e recém-doutora Monique Bernardes Ferreira, vinculada ao Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social (Nevas) do Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGPSI), a pesquisa foi orientada pelo professor Lélio Moura Lourenço e ouviu 1.430 participantes de todas as regiões do Brasil.
Violência de gênero: onde se inicia e qual o desfecho

Sob orientação do professor Lélio Moura Lourenço, a psicóloga e recém-doutora Monique Bernardes Ferreira investigou o sistema de cognições que legitima a violência de gênero na sociedade. (Foto: Arquivo pessoal)
O estudo propôs e testou um modelo de associação entre estereótipos de gênero, sexismo e mitos de estupro. Os estereótipos de gênero são atributos, características ou traços, sejam psicológicos, morais ou físicos, que descrevem como as pessoas são. Como em uma classificação binária que divide a sociedade em homens e mulheres, os estereótipos partem do pressuposto de que só existem essas duas maneiras de existir enquanto gênero. Essa lógica é moldada, sobretudo, pela divisão social de trabalho e pelas hierarquias de status entre homens e mulheres na sociedade.
Quanto ao sexismo, Monique trabalha com o conceito de sexismo ambivalente, uma teoria da psicologia social que explica como o preconceito de gênero mistura sentimentos e divide as manifestações em duas dimensões: o sexismo hostil, que diz sobre atitudes de aversão, antipatia, competitividade, intolerância, ódio, desprezo e raiva a papéis de poder e liderança das mulheres; e o sexismo benevolente, que, a princípio, nem parece conferir preconceito (e sim afeto, apoio, proteção, elogio, cuidado e cavalheirismo), mas refere-se a manifestações sutis que tratam as mulheres como frágeis, dóceis, puras e delicadas que precisariam da proteção constante dos homens.
Essas ideias, segundo a pesquisa de Monique, levam aos mitos de estupro, que são crenças falsas, preconceituosas ou estereotipadas sobre violências sexuais, vítimas e agressores, justificando crimes. Como exemplo, o mito de que uma vítima mereceu (ou estava pedindo por) um ataque porque usava roupa curta, falava palavras de baixo calão ou consumia álcool.
A pesquisa de Monique identificou que os estereótipos de gênero iniciam um fio condutor de comportamentos que levam à violência. O sexismo, tanto na dimensão hostil quanto na dimensão benevolente, atua como mediador da relação entre os envolvidos. E a aceitação dos mitos de estupro vem como desfecho final desse caminho, conforme a pesquisa.

O grupo Nevas desenvolve estudos que contribuem para o desenvolvimento de protocolos e políticas públicas sobre Violência, Violência Doméstica, Violência Escolar e Bullying, Ansiedade Social e Avaliação Psicológica. Monique Bernardes Ferreira (a segunda da esquerda para a direita) foca no tema da violência contra a mulher e suas adjacências. (Foto: Arquivo pessoal)
“A adesão aos estereótipos tradicionais de gênero funciona como uma base cognitiva dos julgamentos sociais que vão sustentar o sexismo, ou seja, que vão sustentar o preconceito com base em gênero, sobretudo em relação às mulheres. E esse preconceito, esse sexismo, é que vai fornecer o arcabouço motivacional e normativo para legitimar a violência de gênero”, explica a pesquisadora.
Em outras palavras, quanto maior a adesão a estereótipos tradicionais de gênero, maior a adesão a preconceitos com base em gênero e maior a legitimação e normatização da prática da violência contra a mulher – ou das crenças que legitimam e normalizam essa violência.
Resultados
Alguns resultados do estudo chamam a atenção, como os que dizem respeito às crenças das mulheres sobre a violência que sofrem dos parceiros e às crenças sobre papéis de gênero. Segundo a pesquisa, as mulheres reconhecem a gravidade das agressões físicas e têm ciência das demais violências existentes – psicológica, sexual, moral e patrimonial.
No entanto, relata Monique, “as vítimas enfatizam muito a violência psicológica e verbal. As torturas psicológicas, as humilhações, as ameaças constantes tendem a causar danos mais profundos, marcantes, dolorosos e duradouros do que a agressão física em si”.
Outra pista encontrada é que as mulheres acreditam que a motivação para a agressão do parceiro contra elas é o desejo de dominação, o ciúme ou a possessividade (e não qualquer outro motivo), reforçando a crença social de que homens são donos de suas parceiras. Em contrapartida, a agressão da mulher contra o homem, quando acontece, é percebida como uma reação, uma autodefesa que é consequência (e não motivo primário) da violência que essas mulheres já vêm sofrendo desse companheiro.
Sobre o que leva as mulheres à permanência nas relações abusivas, a pesquisa encontrou fatores de dependência financeira, medo do que o agressor é capaz de fazer, esperança de que ele mude, preocupação com os filhos, e receio de julgamento social e religioso.
Além disso, identificou que parte do grupo amostral estudado trazia traços marcantes da adesão ao sexismo benevolente. As participantes acreditam que a mulher é, de fato, mais sentimental e mais frágil, física e emocionalmente, do que os homens, e que por isso precisam ser protegidas e cuidadas por eles. “Não são todas. Existe uma parcela que resiste, que acredita que a mulher se defende sozinha e que o homem não é sinônimo de proteção”, adverte Monique. “Mas ainda existe essa adesão a estereótipos tradicionais, à ideia de que é responsabilidade da mulher cuidar da casa, dos filhos e do parceiro, mesmo quando elas trabalham fora. E é curioso, porque ainda que exista o endosso desse discurso, na prática há também um desejo muito forte por igualdade”, completa.
“Crenças distorcidas e estereotipadas que compõem mitos de estupro contribuem para neutralizar a gravidade da violência sexual e deslocar a responsabilidade do agressor para a vítima” – Monique Bernardes Ferreira
Para a pesquisadora, esses resultados mostram que suas pesquisas não têm como objetivo culpabilizar os homens. “Não são só os homens que colocam as mulheres como submissas. É o sistema, é o jeito que as coisas são construídas, os estereótipos que nos são atribuídos. E esses preconceitos que levam sofrimento para todas as pessoas da sociedade”, alerta a doutora.
Para agir antes do fim
Os achados do grupo Nevas podem ser diretivos para a formulação de ações públicas. “Esses achados mostram que as políticas de enfrentamento precisam ir além de apenas atuar no âmbito da violência. É uma questão de desconstruir a lógica, desarticular o processo como um todo e não olhar apenas para o desfecho final, que é o ato da violência em si”, afirma Monique.
A pesquisa aponta ser de suma importância, além de focar na desconstrução ativa dessa estrutura promotora de estereótipos de gênero tradicionais pautados na ideologia cis-heteronormativa e na divisão binária das pessoas, focar no enfraquecimento dos preconceitos com base em gênero. Estes são frutos de estereótipos que compõem o mecanismo que pune as mulheres e legitima a agressão contra elas (ou a qualquer indivíduo que transgrida as expectativas sociais da visão binária de gênero).
Violência por parceiros íntimos

No sexismo hostil, há punição para aquelas que se rebelam; no benevolente, recompensa para as que se submetem. Na foto, Monique Bernardes Ferreira no festival de divulgação científica Bela, cientista e do bar. (Foto: Arquivo pessoal)
A contribuição de Monique com os projetos do Nevas teve início ainda no mestrado, quando a psicóloga conduziu uma investigação com 30 mulheres em situação de violência por parceiros íntimos que buscaram auxílio na Casa da Mulher, em Juiz de Fora. Naquele momento, ela investigou as crenças das participantes em relação à violência por parceiros íntimos; os fatores que contribuíam para a permanência ou saída das relações abusivas; e as estratégias de enfrentamento e tipos de ajuda que as mulheres consideravam fundamentais no processo de rompimento do ciclo da violência.
A escuta ativa que realizaram, para o entendimento – a partir das perspectivas das vítimas – das nuances da violência, fez Monique e Lélio observarem que tal violência é arquitetada e legitimada pela sociedade. E que a caminhada para a mudança, para o enfrentamento, segundo eles, é lenta e envolve a tomada de consciência dessa estrutura desigual que coloca as mulheres em posição de subjugamento em relação aos homens.
A tese de doutorado de Monique está em processo de publicação em revistas científicas, mas em breve estará disponível no repositório da UFJF.
Veja a primeira reportagem da série Agosto Lilás:
Pesquisa aborda violência doméstica e política habitacional
Outras informações:
