
Para o coordenador-geral da Copese, Diogo Taurino, o Seminário joga luz sobre os dados no sentido de provocar análises para a melhoria contínua do processo (Foto: Twin Alvarenga)
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) apresentou dados consolidados sobre a última edição do Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism) em seminário realizado na quarta e quinta-feira, 1º e 2 de julho. O evento reuniu cerca de 140 professores e representantes de escolas públicas e particulares, no Anfiteatro do Instituto de Ciências Humanas (ICH), no campus de Juiz de Fora, e em transmissão on-line.
A divulgação dos números, iniciativa da Coordenação Geral de Processos Seletivos (Copese), foi dividida em dois momentos: apresentação de dados e análises de desempenho dos candidatos nos três módulos do programa e por disciplina, seguida de discussões sobre os conteúdos das avaliações, organizadas por áreas do conhecimento.
Para a pró-reitora de Graduação, Katiuscia Antunes, o seminário é uma importante oportunidade de aproximação entre a Universidade e a educação básica, e de aperfeiçoamento do processo seletivo.
“A gente sabe que as avaliações são grandes indutoras de mudanças curriculares. Esse seminário se torna muito significativo e inovador, porque buscamos um diagnóstico qualitativo. É reforçar o compromisso da Universidade com as escolas por meio do diálogo, tendo a possibilidade de olhar para o processo seletivo com cuidado.”
Área de Exatas segue como maior desafio
No diagnóstico, as provas discursivas de Física e Matemática aparecem como as de mais baixo desempenho entre os participantes, independentemente da rede de ensino.
No Módulo I, 65,52% dos candidatos zeraram as questões abertas de Física na última edição do Pism. Em Matemática, foram 53,72%. O mesmo acontece no Módulo II: Física, Matemática e, em seguida, Química concentraram os maiores percentuais de notas zero: 56,48%, 52,69% e 50,38% dos candidatos, respectivamente.
Já no Módulo III, uma aparente surpresa: Filosofia apresentou a maior taxa de itens zerados (41,93% dos candidatos), seguida por Matemática (37,80%) e Física (36,19%).
Segundo professores presentes na reunião, os candidatos têm pouco contato com as disciplinas de Sociologia e Filosofia, já que elas são cobradas apenas no módulo III e, portanto, não estão no currículo dos dois anos iniciais do ensino médio. O conteúdo programático é complexo, segundo eles, para ser visto em tão pouco tempo.
Diagnóstico sobre zeros resulta em mudanças já neste ano
De acordo com o coordenador da Copese, a análise também evidenciou que muitos candidatos, ainda que com boas notas totais, acabavam eliminados do processo por zerarem algum dos conteúdos das provas discursivas do Módulo III. Para este ano, a regra já foi modificada.
Será eliminado o candidato que obtiver nota zero em uma mesma disciplina nos três módulos, considerando as provas objetivas e discursivas. De acordo com o coordenador da Copese, Diogo Tourino, a alteração buscou tornar o processo de avaliação mais equilibrado, preservando a trajetória do estudante ao longo dos três anos do ensino médio.
Disciplinas com os melhores desempenhos
Em contrapartida ao baixo desempenho nas disciplinas de Exatas, Geografia apresentou o melhor resultado médio entre as avaliações discursivas dos módulos I e II. Já no Módulo III, os melhores desempenhos se dão em Língua Portuguesa e Literatura. A prova dos últimos anos de Geografia foi, inclusive, elogiada pelo coordenador de ensino do Colégio Machado Sobrinho, Marquinhos Dutra.
Diferenças entre as redes de ensino

O professor de Sociologia da rede estadual, Rafael Furtado, defendeu a inclusão da disciplina nos três anos do Pism para também ‘fortalecer a formação cidadã’ dos alunos (Foto: Twin Alvarenga)
Outro recorte divulgado pela Copese considera o desempenho dos candidatos de acordo com a rede de ensino de origem. A análise das notas totais, objetivas e discursivas, mostra que estudantes das redes federal e particular obtiveram médias superiores as dos candidatos oriundos da rede estadual.
Excluindo-se as notas zero e considerando a mediana 3, nas redes particular e federal, as médias ficam entre 1,11 (Física) e 2,86 (Literatura). Já entre os estudantes da rede estadual, as médias variam entre 0,3 (Física) e 2,11 (Geografia).
“Não estamos aqui para dizer quais ensinos são melhores ou piores. Pelo contrário. O objetivo é utilizar esses dados para que possamos, juntos, analisá-los e avaliar o que podemos melhorar”, ressaltou o coordenador da Copese, Diogo Tourino.
Outra informação importante é de que os candidatos, independentemente da rede de ensino, têm melhor desempenho nas questões objetivas do que nas discursivas. Apesar disso, a Universidade não estuda proposta de acabar com as provas abertas, elas continuam, segundo Tourino, sendo uma marca positiva do processo.
Espaço para avaliação e aperfeiçoamento
A iniciativa do seminário foi apontada como positiva pelos presentes nos dois encontros. Representantes das escolas disseram que aguardavam essa aproximação e escuta por parte da Universidade.
A professora de Português e Literatura Michele Resende, da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitschek, destacou o impacto real do programa seriado na vida dos estudantes, mas defendeu uma revisão do conteúdo programático das provas para aproximá-las da realidade das escolas públicas.
Ainda de acordo com a educadora, seus alunos têm resultado melhor no Pism do que no Enem. ”Tivemos uma média, em 2025, de 13 alunos do nosso terceiro ano do ensino médio aprovados pelo Pism, enquanto pelo Enem foram apenas dois ou três”, revelou a professora.
Apesar disso, considera que a limitação da carga horária e do currículo dificultam a preparação específica para o processo. “Tentamos valorizar as questões relacionadas ao Enem e ao Pism, mas, mesmo assim, temos um currículo engessado. Então isso complica muito. O Pism acaba virando um ‘algo a mais’, um currículo a mais”, lamentou.
Entre os professores e representantes das escolas particulares, a abertura do diálogo para aprimoramento do processo foi bastante elogiada. A maioria das sugestões e críticas girou em torno da adequação do conteúdo programático, especialmente de Física e Matemática, da inclusão das disciplinas de Sociologia e Filosofia nos módulos I e II, da necessidade de interlocução entre as disciplinas e sobre os erros nos gabaritos.
Os presentes também pediram o retorno da possibilidade de as próprias escolas apresentarem os recursos, e mais espaço para a justificativa no formulário. As sugestões foram ouvidas e anotadas pelo coordenador da Copese.
O maior processo seletivo seriado do Brasil

Pism consolidou-se como o maior processo seletivo seriado do país, reunindo cerca de 45 mil candidatos nos três módulos (Foto: Carolina de Paula)
Criado em 1999, o Pism consolidou-se como o maior processo seletivo seriado do país, reunindo cerca de 45 mil candidatos. Atualmente, segundo Diogo Tourino, o programa tornou-se referência para instituições interessadas em adotar esse modelo de seleção.
“Estamos apenas atrás da Fuvest em número de candidatos, mas eles realizam um vestibular tradicional. Podemos nos considerar o maior processo seletivo seriado do Brasil. Além disso, somos referência para outras instituições que desejam implementar esse modelo.”
Atualmente, o Pism é aplicado em cinco cidades – Juiz de Fora, Governador Valadares, Petrópolis, Três Rios e Muriaé. Os estudantes realizam uma prova ao final de cada ano do ensino médio, acumulando pontuação ao longo dos três módulos do programa. Ao término do terceiro ano, a soma das notas define a classificação para ingresso na UFJF.
Os módulos possuem pesos diferentes. O primeiro vale até 120 pontos, com peso 2; o segundo também vale 120 pontos, com peso 3; e o terceiro soma até 140 pontos, com peso 5, totalizando 1.300 pontos possíveis. As provas são compostas por questões objetivas e discursivas, sem redação. No terceiro módulo, as questões discursivas são específicas da área de conhecimento relacionada ao curso escolhido pelo candidato.
As inscrições para a edição 2027 começam no dia 27 de julho. Saiba mais.
Outras informações: https://www2.ufjf.br/copese/
