
Padre Júlio Lancellotti frisa que é preciso ter coragem para defender a vida e os mais pobres
“Ao estar do lado dos desprezados, dos esquecidos, dos ofendidos, dos maltratados, você também será desprezado, esquecido, ofendido e maltratado. Não pensem que é romântico defender os direitos humanos”, alerta o padre Júlio Lancellotti, aos 77 anos, professor honoris causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O religioso recebeu o novo título de docente em cerimônia, no Cine-Theatro Central, na noite da última quarta, 10.
Ao receber a homenagem, o padre destacou que o trabalho com pessoas em vulnerabilidade social, como em situação de rua, requer perseverança e formas de lidar com conflitos. Lancellotti desenvolve ações sociais, principalmente em São Paulo, sendo reconhecido nacionalmente como contrário ao desprezo e à hostilidade a pessoas pobres (aporofobia) e à arquitetura hostil, que dificulta ou impede o uso de espaços públicos e privados por pessoas sem moradia. É exemplo dessa arquitetura o uso de blocos de cimento pontiagudos instalados embaixo de viadutos, evitando seu uso como abrigo.
Coincidentemente, no mesmo dia da cerimônia, foi aprovado o projeto de lei, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que criminaliza a aporofobia. A aprovação foi citada pelo padre em discurso. “É preciso ter coragem de defender a vida e os mais pobres, os que estão oprimidos, calados e alijados da convivência humana.” Lembrou ainda a previsão do fenômeno El Niño, para este ano, com possibilidade de provocar alterações climáticas mais bruscas e afetar populações mais vulneráveis, em especial mulheres, inclusive em Juiz de Fora.
Reconheceu que, no trabalho em direitos humanos, há riscos, contestações, conflitos e punições, mas também há apoio. “Com uma mão compartilho o pão; com a outra luto”, bradou na cerimônia. E houve um teatro na noite de quarta, com cerca de 600 presentes, para apoiá-lo, encampado pelos discursos da reitora Girlene Alves, do diretor da Faculdade de Serviço Social, Alexandre Arbia – unidade que propôs a outorga do título -, e do pró-reitor adjunto de Gestão de Pessoas, Warleson Peres, parecerista do processo aprovado no Conselho Superior da UFJF.
Cuidar

Reitora Girlene Alves apontou que o cuidado do padre oferecido à população mais vulnerável é uma forma de ensino
O padre ensina pelo cuidado, como defendeu a reitora em seu discurso. E esse cuidado, conforme a gestora, é uma forma de impedir a naturalização do sofrimento. “Ensina não apenas pela palavra, mas pela presença. Não apenas em espaços formais, mas onde a vida se apresenta em suas dimensões mais concretas. Ensina quando nos convida a olhar para aqueles que a sociedade tantas vezes prefere não ver.”
Mas como uma universidade laica concede o título a um religioso? A própria reitora respondeu, explicando que a laicidade permite à instituição perceber e valorizar “a trajetória pública, ética, social e profundamente humana”, independentemente da confissão do homenageado. O trabalho paroquial converge com os princípios da instituição, como explica Alexandre Arbia. Lancellotti se recusa a considerar as pessoas em situação de rua como invisíveis, parte da paisagem urbana, percebidas apenas quando incomodam. Ao emergirem, há um clamor para “intervenções mirabolantes” para que desapareçam.
“As ações do padre Júlio recusam justamente essa visão ordinária e simplista. Recusa que seres humanos sejam transformados em resíduos sociais”. Não se furta a responder, na prática, com a pergunta “o que fazer com os chamados sobrantes?”. Esse “resto” de uma sociedade, marcada pelo racismo e pela violência, que produz riquezas, mas impede a maior parte da população de usufruir seus benefícios e que transforma cidadãos em problema a serem administrados. Conforme Arbia, a dignidade da pessoa não pode ser calculada pela posição que ocupa no mercado de trabalho, pela renda ou pelo lugar que habita.
“A atuação do padre Júlio Lancellotti, que jamais se limitou à assistência imediata, ainda que indispensável, nos confronta com o fato de que a pobreza extrema não constitui um acidente, uma fatalidade ou um desvio passageiro no desenvolvimento nacional. Ela é produzida, reproduzida, administrada e ainda mais: ela é naturalizada”, destacou o diretor, na cerimônia, aberta pela Orquestra Acadêmica da UFJF. No repertório, músicas que se conectam com raízes brasileiras, como “Carinhoso”, de Pixinguinha, e “Mourão”, de Guerra-Peixe.
Luz

Trabalho de Júlio Lancellotti recusa que seres humanos sejam transformados em resíduos sociais, conforme professor Alexandre Arbia
Como acrescentou Warleson Peres, o religioso materializa em ações diárias o que para muitos fica no campo do pensamento. Em referência ao escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), o pró-reitor exaltou a trajetória do padre: “Mudar o mundo não é loucura, não é utopia. É justiça.” Citou ainda, em seu discurso, a veia literária do pároco, por ter publicado obras como “Tinha uma pedra no meio do caminho – Invisíveis em situação de rua”, de 2021. Conforme Peres, o brilho de Lancellotti só tem a jogar mais luz ao lema da UFJF, em latim, “Lumina spargere” (espalhar luz).
Essa luminescência é percebida pelos fiéis. Há cerca de 20 anos, a professora de português e inglês Miriam Aparecida Abrão acompanha os trabalhos do religioso. “Tem uma luz que se irradia dele e se compactua com todos os atos e pessoas. E essa homenagem da UFJF é uma maravilha.” Nota que ele não discrimina as pessoas, atende encarcerados, cidadãos com doença grave, prostitutas.
“Ele sempre teve a sensibilidade de estar ao lado de quem é indesejável pela sociedade”, afirma o arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, Marco Aurélio Gubiotti. Qualifica a trajetória do padre como “muito bonita” e o admira. “Reconheço o trabalho social e a inspiração cristã desse trabalho”, acrescenta.
A artesã Gleice Mara da Silva tem as ações do padre como inspiradoras. Acompanha a persistência do religioso em atender as pessoas em vulnerabilidade social, mesmo diante de barreiras impostas, em algumas situações, pelo próprio poder público. “Vim hoje para ouvi-lo e para aprender”.
Apesar de envolvido pelos elogios e pelo clamor do público, que, em certo momento conclamava o nome do padre, aplaudido de pé ao receber o título de professor honoris causa, Lancellotti parece não se iludir com as luzes do palco. Ao fim, foi se juntar ao “povo”, no saguão do teatro.
Visita ao campus

Em visita ao campus na tarde de quarta, 10, reitora recebeu o padre para uma reunião (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
Pela tarde de quarta-feira, o padre esteve no campus da UFJF para conversar com a reitora Girlene Alves e conceder entrevista à imprensa local. Em sua fala, destacou a questão climática, relembrou as tragédias vividas por Juiz de Fora e chamou a atenção para os possíveis impactos do fenômeno El Niño no país.
Ao falar sobre os desafios da crise climática e social, enfatizou que a sociedade não deve buscar respostas apenas para a geração atual. “Nós sofremos as consequências das gerações anteriores e deixaremos consequências para outras gerações. Nossa ação deve ser de resistência, resiliência e de uma transformação histórica. Mesmo que nós não vejamos as respostas, não deixaremos de lutar”, declarou.
O religioso também enfatizou a importância da criação de espaços de acolhimento para a população em situação de rua. Ao comentar políticas públicas, defendeu estratégias mais diversas para atender a diferentes necessidades. “Às vezes a política pública dá só uma resposta para todos. Precisamos diversificar essas políticas segundo a necessidade das pessoas”, destacou.
Padre Júlio também comentou sobre a homenagem recebida, classificando o momento como de “muita gratidão e surpresa” diante da responsabilidade, que considera grande.
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Outras informações:
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