
Pesquisador Túlio Mendes, da Faculdade de Medicina, é um dos autores do estudo que identificou o vírus em secreções como saliva, urina e sêmen, o que muda a forma de pensar a prevenção e o controle da doença. (Foto: Twin Alvarenga)
A febre do Oropouche é uma doença viral transmitida por insetos, conhecida por décadas na região amazônica, mas que, nos últimos anos, passou a se expandir para outras regiões do Brasil, incluindo o Sudeste. Com sintomas semelhantes a de outras arboviroses, como a dengue e a chikungunya, a infecção ainda é pouco conhecida pela população e representa um grande desafio para a vigilância em saúde pública.
Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o professor Túlio Vieira Mendes, da Faculdade de Medicina, acompanha de perto esse cenário e acaba de publicar um artigo que ajuda a entender o comportamento do vírus fora da Amazônia. O estudo “Características virais, clínicas e epidemiológicas da febre do Oropouche no Sudeste do Brasil” foi publicado na revista Open Forum Infectious Diseases, da Infectious Diseases Society of America (IDSA), uma das principais sociedades científicas da área no mundo. Na UFJF, o professor Marcelo Silvério, da Faculdade de Farmácia, também fez parte do trabalho desenvolvido em parceira com o Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrantes da equipe de Saúde da Prefeitura de Piau.
Dor de cabeça intensa, febre e mal-estar, estão entre os sintomas mapeados pela pesquisa. Um dado que chamou atenção é que cerca de um terço dos pacientes apresentou recorrência dos sintomas após período de melhora – Túlio Vieira Mendes
O que é a febre do Oropouche?
A febre é causada pelo vírus Oropouche (OROV), transmitido principalmente pelo maruim (Culicoides paraensis), também conhecido como mosquito-pólvora ou polvinha, um inseto muito menor que o Aedes aegypti, vetor da dengue. Segundo o professor Túlio Mendes, a doença é uma arbovirose antiga, mas historicamente negligenciada fora da Região Norte do país.
“A doença já é conhecida há algum tempo, principalmente na região amazônica. Ela ficou muito associada a ambientes silvestres e acabou não recebendo tanta atenção em outras regiões do Brasil”, explica o docente. Os sintomas incluem febre, dor de cabeça intensa, dores musculares e articulares, mal-estar e, em alguns casos, manchas avermelhadas na pele. Por isso, a doença pode ser facilmente confundida com outras arboviroses. “Chamamos o Oropouche de uma doença ‘dengue-alike’. Clinicamente, ele é muito parecido com a dengue, a zika ou chikungunya, o que dificulta bastante o diagnóstico”, destaca.

Mosquito marum também conhecido como mosquito-pólvora pode não ser o única forma de transmissão da doença. (Foto: Fiocruz)
A pesquisa
A investigação, conduzida com a participação de Mendes, acompanhou 55 pacientes adultos, entre dezembro de 2024 a maio de 2025, com casos confirmados no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Foram analisadas amostras de sangue, saliva e urina, além dos testes moleculares e sequenciamento genético do vírus. “O surto de Piau foi muito bem documentado porque conseguimos acompanhar uma população pequena, organizada, e seguir esses pacientes ao longo do tempo. Isso é raro e extremamente valioso do ponto de vista científico”, afirma Mendes.
Entre os principais resultados do estudo estão a alta frequência de dor de cabeça intensa, febre e mal-estar, além de um dado que chamou a atenção dos pesquisadores: cerca de um terço dos pacientes apresentou recorrência dos sintomas após um período de melhora.
“A clínica é soberana. A gente diagnosticava o Oropouche, mas os pacientes continuavam com dor de cabeça, mal-estar, sintomas neurológicos. Isso mostrou que a doença se mantém por mais tempo do que imaginávamos”, explica o professor. Segundo ele, o vírus pode permanecer em locais chamados de “santuários”, como o sistema nervoso, o que ajuda a explicar a persistência dos sintomas.
Outro achado relevante foi a detecção do vírus na urina por mais de 40 dias, mesmo quando ele já não era mais identificado no sangue. “Se a gente testar apenas o sangue, muitos casos vão passar despercebidos. A urina e a saliva ampliam muito a janela de diagnóstico e são fundamentais para melhorar a vigilância”, destaca Mendes.
O estudo também levanta a hipótese de outras formas de transmissão além do vetor, já que o vírus foi identificado em secreções como saliva, urina e sêmen. “Isso muda completamente a forma como pensamos a prevenção e o controle da doença. Ainda estamos investigando, mas são achados que exigem atenção”, alerta.
Expansão para o Sudeste e alerta epidemiológico
A partir de 2023, pesquisadores passaram a observar a circulação de uma nova linhagem recombinante do vírus fora da Amazônia, com registros em estados como Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em alguns casos, o comportamento da doença chamou a atenção das autoridades sanitárias. “O que acendeu o alerta foi o surgimento de casos com manifestações mais graves fora da região Norte, inclusive com registros de óbito na Bahia, algo que não era comum na literatura”, afirma o professor.
Na região Sudeste, um dos episódios investigados ocorreu no município de Piau (MG), cidade de pequeno porte e com forte atividade agrícola, especialmente na produção de banana, que se mostrou um ambiente favorável para a proliferação do maruim. “Piau tem características ambientais muito parecidas com outras áreas onde já havia surto, como regiões do interior do Rio de Janeiro. A produção agrícola, mata preservada e a circulação de pessoas criam um cenário propício para o vírus se estabelecer”, explica.
Vigilância, SUS e novos desdobramentos
Para o professor, a participação da UFJF foi estratégica por sua posição geográfica e pelo papel da universidade como referência regional em saúde. “A UFJF é um polo de formação, pesquisa e assistência. Quando surgiu algo diferente na região, a Universidade foi acionada, articulou parcerias e ajudou a dar uma resposta rápida à população”, afirma.
Como desdobramento da pesquisa, está em fase de implementação na Universidade um ambulatório especializado em medicina de viagem, zoonoses e doenças infecciosas emergentes, que deve atender pacientes da região e fortalecer a produção científica. “A febre do Oropouche ainda tem muitas respostas em aberto. Criar um centro de acolhimento, diagnóstico e pesquisa é fundamental para entender melhor a doença e preparar o SUS para esse e outros desafios”, conclui.
