
Tutor do programa em Juiz de Fora, o professor da Faculdade de Enfermagem Diogo Barbosa está à frente do grupo “Escutar, cuidar e comunicar: estratégias interseccionais de promoção da saúde mental e comunicação inclusiva no SUS”
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) deu início às atividades do Programa Nacional de Apoio à Permanência, Diversidade e Visibilidade para Discentes na Área da Saúde (AfirmaSUS). Cerca de 30 professores e alunos da instituição, dos dois campi, estão envolvidos na iniciativa.
Criado pelo Ministério da Saúde, o programa promove a permanência dos estudantes que ingressaram na Universidade pelas ações afirmativas e uma formação mais diversa no campo da saúde – o que se reflete nos serviços e atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a diretora de Ações Afirmativas, Danielle Teles, o programa integra ensino, serviço, pesquisa e ações afirmativas formando profissionais empáticos capazes de atender às necessidades de cada território.

“O SUS precisa ter a cara do povo brasileiro”, afirma Danielle Teles, da Diretoria de Ações Afirmativas (Diaaf).
“Para ter um SUS forte e que atenda às necessidades reais da população, o sistema precisa ter a cara do povo brasileiro. E como fazer isso? Por meio da formação de qualidade atrelada à diversidade (com incentivo à permanência) de alunos da Saúde que compõem os grupos historicamente vulnerabilizados e que mais tarde serão os profissionais que farão parte do SUS”, afirma Danielle.
Para Érika Andrade, pró-reitora de Extensão, o AfirmaSUS aproxima a UFJF da realidade dos alunos e fortalece a identidade do compromisso social da instituição. “O AfirmaSUS leva para a sala de aula um conteúdo muito vivo, que conecta as realidades da sociedade. E aí o ‘ensino, pesquisa e extensão’ deixa de ser teoria e vira prática concreta”.
“Um ponto-chave do programa é reconhecer que o conhecimento acadêmico não é o único conhecimento válido. Ele integra saberes tradicionais, comunitários, populares. E isso ajuda as pesquisas a ficarem mais ricas. O ensino fica mais crítico e a extensão deixa de ser meramente assistencialista”, reforça a pró-reitora.
O AfirmaSUS possui comitês locais de Acompanhamento e Avaliação (CLAA) em cada campi (JF e GV) e é coordenado conjuntamente pela Diretoria de Ações Afirmativas (Diaaf) e as pró-reitorias de Extensão (Proex), Graduação (Prograd) e Assistência Estudantil (Proae).
Em Juiz de Fora

Segundo Érika, o programa se torna fonte de pesquisa, elemento de educação cultural e motivo que contribui para a permanência estudantil (Foto: Carolina de Paula/UFJF)
A partir da identificação de demandas institucionais, foram selecionados como tutores do programa os professores Diogo Barbosa e Cláudio Galuppo Diniz. Eles coordenam o Grupo de Aprendizagem “Escutar, cuidar e comunicar: estratégias interseccionais de promoção da saúde mental e comunicação inclusiva no SUS”, que reúne, ainda, uma orientadora de serviços, um preceptor, dez estudantes bolsistas e três voluntários. A maior parte deles é proveniente dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Odontologia e Medicina.
As atividades começaram em novembro passado e terão duração de 24 meses. Para este primeiro ano, as ações serão voltadas à população negra. Em seguida, a iniciativa será direcionada a grupos LGBTQIA+ e a pessoas com deficiência.
Já estão sendo feitas rodas de conversa semanais com os alunos e encontros mensais com a população sobre racismo, discriminação e saúde. No campo da pesquisa, as investigações irão abordar temas como Racismo e impactos no acesso aos serviços de saúde de mulheres pretas e pardas; Racismo alimentar e Saúde oral de crianças negras. O grupo também pretende realizar um documentário sobre o acesso a serviços de saúde.
“Vamos ensinar sobre saúde oral para as crianças e coletar saliva para identificar o potencial que elas têm de desenvolver cárie. Isso porque muitas não têm acesso aos serviços de odontologia e, por conta do racismo alimentar, são mais propensas a desenvolver cárie e futuras perdas dentárias”, afirma Diogo Barbosa.
Segundo o professor, racismo alimentar é a discriminação que limita o acesso de pessoas negras a alimentos saudáveis, perpetuando desigualdades por meio de “desertos alimentares” em áreas periféricas. “Essa população é exposta a alimentos ultraprocessados em maior intensidade, o que culmina em maior número de doenças crônicas e impacto direto à saúde mental”, analisa. De modo a minimizar estes riscos, a equipe vai trabalhar com alternativas mais saudáveis de alimentação.
Também estão previstas atividades culturais por meio do programa, e a equipe vem estabelecendo parcerias para ampliar o acesso dessa população à cultura.
Em Governador Valadares
No campus-avançado de GV, o programa é denominado “Re-existir em comunidade: qualificação da formação em saúde, direito e vida nos territórios atingidos” e será gerido pelo tutor Fernando Eustáquio de Matos Junior e pela co-tutora Pollyanna Costa Cardoso, ambos do departamento de Nutrição. O objetivo é identificar demandas em comunidades de territórios atingidos por barragens e desenvolver ações de qualificação da formação em saúde.
Nesse primeiro ano, o programa vai trabalhar com povos indígenas da região. “Estamos no momento de aproximação com os gestores do SUS que atuam junto a esses povos. Vamos trabalhar em demandas identificadas para que a Universidade, de fato, contribua com a necessidade daquele território”, afirma Junior.
As atividades serão estruturadas dentro dos eixos “Fortalecimento das estratégias para ampliação do acesso aos serviços de saúde e para promoção do cuidado” e “ Valorização dos territórios tradicionais e originários no fortalecimento da participação social no SUS”.
A equipe de GV conta com dez estudantes bolsistas, dos cursos de Nutrição, Odontologia, Farmácia, Educação Física e Medicina, do Instituto de Ciências da Vida (ICV); e dos cursos de Direito e Ciências Contábeis, do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA). Todos ingressantes de ações afirmativas.
De acordo com Junior, as ações vão abordar temáticas que atravessam a trajetória desses estudantes dentro da Universidade, como discriminação, preconceito, violências em relação à raça, cor, gênero, orientação sexual e capacitismo, além de campanhas de sensibilização e oficinas de letramento com toda a comunidade acadêmica. Clube do livro, ações de divulgação em escolas e oficinas com professores do ensino médio também estão previstas para 2026.

