Moradoras do assentamento, Francisca Inácio Gonçalves (esquerda) e Antônia Feliciano assistem atentas ao documentário, que conta com os seus depoimentos. (Foto: Sebastião Jr)

Lutar. Quem integra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) aprende desde muito cedo a conjugar esse verbo e começa a entender também que em seu vocabulário será uma das palavras mais utilizadas ao longo de toda a vida. É justamente essa trajetória de luta e resistência de dezenas de famílias camponesas de um assentamento de Governador Valadares que um documentário produzido por uma ação extensionista do campus avançado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) quer contar e registrar.

O filme ‘Luta e Vidas no Assentamento Oziel’ reconstrói, ao longo de quase 30 minutos e a partir dos depoimentos dos próprios moradores da comunidade, como foi o processo de desapropriação, em 1963, das terras onde hoje está localizado o assentamento para a reforma agrária, o despejo desses trabalhadores e trabalhadoras pelo governo, em 1994, e o marcante episódio da marcha das famílias até Belo Horizonte, dois anos depois da expulsão, para protestar contra o avanço dos latifundiários e exigir a posse definitiva daquele tão sonhado pedaço de chão.

Filme ajuda a compreender melhor a luta pela terra no Brasil

Terezinha Sabino de Souza fez parte do mutirão que seguiu em fileira até a capital mineira naquela terça-feira, 26 de março de 1996. Moradora e personagem importante de todas as lutas do assentamento, a educadora afirma que ter participado da construção do documentário e vê-lo pronto é como “um grande presente”, além de uma oportunidade para colocar a história daquela comunidade “no ouvido, na boca e no coração” de muitas pessoas que não sabiam da existência e da batalha das quase 50 famílias que hoje vivem no local e que até mesmo desconfiavam do movimento.

Terezinha Sabino e Bráulio Magalhães na abertura da sessão de exibição do documentário. (Foto: Sebastião Jr)

Ainda de acordo com Terezinha, o documentário “é uma ferramenta de análise, estudo e compreensão do que significa a luta pela terra e de como que a gente constrói uma relação de ser humano com a natureza e se apropria desse bem natural, que é tão importante para os trabalhadores e trabalhadoras. Então vai ensinando cada um de nós, cada criança, cada adulto, cada jovem a valorizar o trabalho de quem lutou antes, quem continua lutando e, a partir disso, se colocar também na luta.”

A ideia do documentário surgiu na ‘Frente Pró-Armazém do Campo’, um projeto de extensão do campus focado em questões ligadas à ecologia, alimentação agroecológica e autonomia e gestão de movimentos sociais ligados à terra, como é o caso do MST. Segundo o coordenador da iniciativa, professor Bráulio Magalhães, após conhecer a realidade do assentamento e sua história de mais de três décadas, a equipe do projeto – que terminou no início deste ano – sentiu a necessidade de produzir algo que, ao mesmo tempo funcionasse como um registro desse legado e uma espécie de “laboratório social” para a universidade.

“Fizemos oficina de plantas medicinais, onde eles [moradores do assentamento] ministraram sobre o tema para a comunidade acadêmica. Aconteceu um evento com todas as místicas do movimento no campus. Fizemos encenação teatral, mobilização e montagem lá no assentamento. Com esse contato eu senti um vazio no registro, porque teríamos o projeto, mas ele não seria contínuo. E o assentamento tem uma história que, estando lá, a gente conheceu mais profundamente, e foi com isso que resolvemos fazer o documentário, que foi uma construção desse nosso debate”, explica Magalhães.

Andrew Carlos Amaral Oliveira, do curso de administração, é um dos estudantes da UFJF-GV no projeto, e participou ativamente da concepção do filme. “Essa experiência, com certeza, agregou em minha vida valores que serão primordiais na formação como pessoa, cidadão e profissional, pois em todas essas esferas um olhar humanista é necessário. A empatia é a chave da nossa evolução como espécie. Dessa forma, o assentamento foi um novo paradigma de vida em coletividade e isso me marcou grandemente. É possível viver em uma sociedade mais justa, plural e digna, e o Oziel é um exemplo prático e dinâmico disso”, afirma o discente.

A história é contada pelos próprios personagens do movimento

Toda o processo de produção, roteiro, filmagens e edição do documentário ficou a cargo da ‘Tuia Comunicação’. Para Nagel Medeiros, responsável pela agência juntamente com Brian Lopes Honório, o projeto foi mais uma confirmação da “vocação para a temática social” que eles já experimentaram em outros trabalhos. “Unir a técnica ao interesse real é uma situação de trabalho que nem sempre se tem a sorte de vivenciar”, afirma. Ainda segundo Medeiros, para ela, em particular, o trabalho foi ainda mais especial, já que ao longo da vida profissional teve uma ligação estreita com o MST e com o assentamento, que inclusive foi tema de sua dissertação de mestrado.

O filme foi exibido para a comunidade acadêmica da UFJF-GV no dia 4 deste mês. (Foto: Sebastião Jr)

Sobre a estética e formato do documentário, Medeiros explica que adotaram a metodologia de micro-história, que leva em conta o cotidiano e as subjetividades. “Optamos por deixar que os próprios assentados contassem sua história, por meio de narrativas e não entrevistas fechadas, o que enriqueceu, e muito, o roteiro que foi sendo construído”, detalha.

Para a sua efetivação, ‘Luta e Vidas no Assentamento Oziel’ contou com recursos de uma emenda parlamentar do deputado federal Leonardo Monteiro (PT-MG) e o apoio da vereadora de Governador Valadares Gilsa Santos (PT). Além disso, professores e estudantes de diversos cursos do campus se articularam no projeto para garantir que o documentário se tornasse realidade.

Para assistir ao documentário, clique aqui.