23 hectares da Fazenda Experimental da UFJF servirão de abrigo para uma floresta da Mata Atlântica, daqui a alguns anos (Foto: Leandro Mockdece)

“Agora não vê nada de cima, daqui a um ano, essas mudinhas vão sobressair à braquiária, daqui a dois, já vão ser arbustos, e daqui a três anos, muitas já serão uma árvore um pouco maior e assim sucessivamente.” É assim que o professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) André Megali Amado descreve o crescimento das cerca de 40 mil mudas plantadas na Fazenda Experimental da UFJF. A expectativa é promover no entorno da represa Chapéu d’Uvas o reflorestamento da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do Brasil, que já perdeu 70% de sua extensão original.   

O trabalho iniciou em outubro de 2021, mas a primeira etapa deve ser finalizada ainda no mês de março de 2022. A iniciativa integra o projeto Raízes para o Futuro, desenvolvido pelo Núcleo de Integração Acadêmica para Sustentabilidade Socioambiental (Niassa) em parceria com a concessionária Via 040, e pelo projeto BEF-Atlantic, uma colaboração entre o Niassa e a Universidade Técnica de Munique (TUM) que tem possibilitado uma série de pesquisas e investigações. 

“A Fazenda é o ‘equipamento de campo’ do Niassa, núcleo composto por integrantes das mais diversas áreas do conhecimento da UFJF que busca soluções de sustentabilidade para a Mata Atlântica. Pode-se dizer que lá é o canteiro de ideias”, resume. Além de fazer a compensação ambiental das suas atividades, os pesquisadores propuseram realizar um experimento inovador de restauração florestal em larga escala, utilizando conceitos relacionados à biodiversidade, que estão sendo debatidos na literatura internacional. 

Professor André Amado espera que a Fazenda também contemple atividades de educação ambiental (Foto: Leandro Mockdece)

Seis dos 23 hectares plantados foram destinados a esse experimento que “busca avaliar se uma restauração com grande número e combinação de diferentes espécies consegue restabelecer os serviços ecossistêmicos de forma mais eficiente”. Para a pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa (Propp) da UFJF, Mônica Ribeiro, reflorestar terras devastadas da mata mineira é um desafio que deve ser superado aplicando os vastos conhecimentos científicos que hoje possuímos. 

“Historicamente essa região teve seu solo desgastado pela produção de café em larga escala e depois, com seu declínio, essas áreas foram transformadas em pastos e capoeiras. Restou-nos essa paisagem de hoje, com toda nossa biodiversidade ameaçada. As ações de reflorestamento conduzidas por acadêmicos e pesquisadores de nossa Universidade demonstram a dimensão do papel social que possuímos”, complementa, parabenizando a todos os envolvidos.

A pró-reitora também menciona o alinhamento aos ODS da agenda 2030 da ONU, ao aplicar conhecimentos científicos para a geração de desenvolvimento sustentável. Conforme selo exclusivo, a pesquisa citada nesta matéria está alinhada aos ODS 6 (Água Potável e Saneamento), 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima), 15 (Vida Terrestre) e 17 (Parcerias e Meios de Implementação). O professor Fabrício Carvalho, que coordena o Raízes para o Futuro ao lado de Amado, pondera que o reflorestamento ambiental traz impactos positivos em praticamente todas as áreas, não se limitando a esses ODS.

Espécies nativas e benefícios ecológicos

No registro, muda de Ipê Amarelo, árvore que pode atingir 15 metros de altura na fase adulta (Foto: Carolina Pires)

Responsável por atividades essenciais à população, como abastecimento de água, agricultura, pesca, geração de energia elétrica e turismo, a Mata Atlântica abrange cerca de 15% do território nacional, em 17 estados, e ocupa a área em que vive cerca de 70% da população, abrigando três dos maiores centros urbanos do continente sul americano, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica. Por isso, é o ecossistema brasileiro que mais sofreu os impactos ambientais dos ciclos econômicos da história do país. 

Este é o terceiro projeto de reflorestamento focado nas teorias de Biodiversidade e Funcionamento de Ecossistemas (BEF – sigla do inglês Biodiversity and Ecosystem Functioning) realizado no Brasil, sendo que o primeiro foi feito na Caatinga, com início em 2016, e o segundo também é relativo à Mata Atlântica, mas no estado de São Paulo. Estão sendo plantadas somente espécies nativas do bioma, preferencialmente de ocorrência dessa região. Ao todo, são 24 espécies, como a quaresmeira, os diversos tipos de ipê, a embaúba, a paineira, o bico de pato, a aroeira-pimenta, o jequitibá-rosa, entre tantas outras.  

Parte das 40 mil plantas foi produzida no viveiro de mudas da Fazenda Experimental do Niassa e outra parte foi adquirida com produtores especializados em árvores nativas da Mata Atlântica, já que na região não foram encontradas matrizes de sementes de todas as espécies necessárias. 

Segundo Amado, após poucos anos, já é possível verificar uma floresta se formando, mas a sua funcionalidade – ou seja, seus serviços ecológicos mais amplos – deverá ser acompanhada por mais tempo. “A gente brinca que está plantando água, uma vez que ao reflorestar as minas voltam a brotar. Você pode olhar ali onde tem um relevo mais baixo, muito provavelmente era área de escoamento de minas que secaram”, disse ao apontar para determinado lugar na paisagem. 

Viveiro de mudas da Fazenda Experimental da UFJF tem capacidade de armazenar cerca de 20 mil exemplares. Na imagem, estufa é irrigada por sistema automatizado (Foto: Carolina Pires)

Com relação ao tempo para se desenvolver uma floresta madura, ele considera que é muito difícil de determinar, “depende muito mais da composição das espécies que chegam na área do que da idade dela”. Ele explica que existe o processo chamado sucessão ecológica que tem início numa área aberta, que vai ser colonizada por plantas de crescimento rápido, como as rasteiras e gramíneas, depois chegam as pioneiras, que se estabelecem logo e produzem algumas flores, e aí vão sendo lentamente substituídas por outras, de maior tamanho, mas crescimento mais lento. 

Técnicas inovadoras 

Obrigatório desde 1965, devido a Lei Federal 4.771, o reflorestamento prevê a compensação de áreas devastadas, que pode ser feita pelo plantio de sementes ou mudas de árvores nativas ou da manutenção da vegetação já existente. Há diversas técnicas para o plantio, preparação do solo e das mudas. No entanto, as práticas do mercado não preveem estratégias alinhadas às características das diferentes espécies e o funcionamento ecológico a longo prazo. 

“O que se pratica atualmente é seguir com uma fileira de mudas e vai plantando indefinidamente, são linhas e linhas, todas alinhadas; só que não tem muita importância a sequência das árvores, se tem duas iguais ou diferentes juntas, e normalmente são usadas espécies que têm crescimento muito rápido, que não são as que dominam em uma floresta madura e estabelecida com fauna e flora funcionando em equilíbrio”, observa.

Com isso, o diferencial do reflorestamento realizado na Fazenda Experimental da UFJF está justamente na coordenação de diferentes dinâmicas e cenários para avaliação do processo de crescimento dessas plantas. Para isso, foram demarcadas 183 áreas, formadas por um retângulo de 299 metros quadrados. Cada um recebe um tratamento diferente, chamado de tratamento controle: “tem parcelas dessas que têm, por exemplo, somente ipê amarelo plantado, outras que têm misturas. Então, quando elas começarem a florescer, a gente vai ter manchas de áreas coloridas com essa floração”. 

A partir de mapeamento das áreas demarcadas, a equipe assegura o plantio seguindo planejamento prévio (Imagem: Niassa)

docente explicita que quando se tem uma espécie apenas é algo mais homogêneo, quando tem três ou mais, é uma arquitetura um pouco mais complexa. “Isso cria o que a gente chama de nichos, que são condições específicas para o estabelecimento de outras espécies. Quanto maior a quantidade de espécies, maior deverá ser a quantidade de nichos disponíveis, e mais rápida vai ser a regeneração natural, processo conhecido como recrutamento de novas espécies”, afirma. 

“A embaúba, por exemplo, atrai muitas aves, pequenos mamíferos, cria a possibilidade de dispersar outras sementes por meio dessa fauna. O que chegar é bem-vindo, faz parte do trabalho. Em fevereiro, fotografamos fezes de lobo-guará cheia de sementes de lobeira, uma espécie que também ocorre na região; então, fatalmente, vai ter a chegada de outras espécies, simplesmente porque esses animais irão retornar para cá e vão ocupar a área de vegetação.” 

A mitigação do aquecimento global é um dos benefícios do reflorestamento, já que a liberação excessiva de dióxido de carbono (CO2) é um dos principais agravadores do efeito estufa; as árvores, pela fotossíntese, absorvem o dióxido de carbono e o converte em biomassa, resultando no crescimento das plantas. Mas há ainda um outro fator associado que são os cupins de montículo, apelidados pela equipe do projeto BEF-Atlantic como chaminés de pasto, pois são responsáveis por cerca de 1 a 3% das emissões globais de metano. O plantio vai reverter esse fenômeno e contribuir para reduzir o impacto dos gases de efeito estufa. 

Controle e monitoramento

Por ser um processo de longo prazo, será preciso acompanhar de perto a evolução das espécies plantadas. Segundo o docente, será feita uma varredura em todas as mudas para determinar a taxa de sobrevivência, que normalmente gira em torno de 70 a 80%. “As plantas que não estiverem viáveis vamos substituir e continuar acompanhando o desenvolvimento ao longo do tempo”, aponta.

Para facilitar a identificação dos espaços, foram colocados vergalhões com placas de identificação (Foto: Carolina Pires)

Um dos problemas mais comuns nessa fase é o avanço de ervas daninhas, especialmente da braquiária, que recobre muito rápido e acaba suprimindo as plantas. Para minimizar, ele revela que é preciso fazer a preparação do solo, primeiro com máquina para ter um acesso melhor às camadas menos superficiais e depois com o pessoal da capina que realiza um coroamento ao redor dessas mudas plantadas para que o mato não as abafe e permita a entrada de luz para seu crescimento saudável. 

As mudas serão monitoradas pela empresa Via-040 pelos próximos três anos como etapas da ação de compensação ambiental junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A equipe da UFJF fará o monitoramento, em princípio, mensal para avaliar a sobrevivência das mudas e realizar medições a cada três meses e depois a cada seis meses. 

“Nosso principal monitoramento será de longo prazo, de décadas, pois, além do crescimento das mudas até virarem árvores, estamos interessados em verificar o retorno de fauna e de nascentes de água que haviam secado, entender o processo de sequestro de carbono da atmosfera pelas árvores e pelo solo, além de diversas outras funções ecológicas que irão se reestabelecer”, assegura.

Trabalho a muitas mãos 

Parte das atividades é executada pelo pessoal contratado pela Via-040, com operadores de máquinas e agentes preparando o solo e fazendo o plantio. Outra parte, mais voltada à organização e montagem da parte experimental, é de responsabilidade da equipe da UFJF. 

Estudantes da graduação e da pós-graduação estão envolvidos no projeto e contribuem ativamente para o plantio (Foto: Carolina Pires)

“No campo, estamos sempre coordenando as etapas, com o empenho direto de dois doutorandos e diversos alunos de mestrado e de graduação. Todos os dias, uma equipe marca com bambus as posições de cada muda a ser plantada. Outra faz a limpeza do capim e o coroamento para colocação das plantas. Por fim, outro grupo traz as mudas e as plantam para os locais exatos, previamente programados”, relata. 

André Amado pontua que, desde dezembro de 2021, quando iniciou este trabalho, há sempre uma equipe de no mínimo quatro pessoas, podendo chegar até 12 integrantes. Além desse grupo, contamos com o apoio de pesquisadores de universidades da Alemanha, parceiros no projeto: Leonardo Teixeira, da Universidade Técnica de Munique, e Gustavo Paterno, da Universidade de Gottingen. Ambos participaram desde o planejamento, aquisição de recursos até as atividades no campo.

Sobre o valor total da atividade de reflorestamento, a gestão dos recursos fica a cargo da empresa parceira, enquanto a Universidade presta o suporte acadêmico e científico. Apesar do investimento privado, ainda há desafios que precisam ser superados para a plena ocupação do espaço da Fazenda pela UFJF. 

“A locomoção da equipe para as áreas de plantio é um dos principais obstáculos, associado às variadas demandas de manutenção da sede. Estamos nos esforçando para estabelecer um gerenciamento de recursos que traga mais autonomia de gestão ao Conselho do Niassa, fundamental para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e demais ações acadêmicas”, salienta a pró-reitora Mônica Ribeiro.   

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