As mulheres sempre fizeram parte da história do cinema, mas até hoje invisibilizadas, são pouco conhecidas do público e nem sempre aparecem em listas de filmes imperdíveis, nos festivais e nas premiações pelo mundo. Na última edição do Oscar, o debate ganhou repercussão quando a academia deixou de fora diretoras mulheres da lista de indicados para melhor filme. A luta pela igualdade de gênero, assim como a de raça, fez parte dos discursos que pediram equiparação de salários e reconhecimento.  

É preciso reescrever essa história do cinema, o que felizmente já se está fazendo

“Digamos que as mulheres têm pouco espaço, ou melhor, aparecem pouco na história do cinema por vivermos em uma sociedade machista, mas elas existem e são muito mais do que imaginamos. Quando Hollywood passou a ser lucrativa, isso lá no início do século XX, as mulheres foram alijadas do processo de produção, justamente por ser rentável. De todo modo, elas sempre existiram e é preciso reescrever essa história do cinema, o que felizmente já se está fazendo”, reflete a professora do Instituto de Artes e Design, Alessandra Brum. 

A opinião é a mesma da doutoranda e coordenadora de Comunicação do Festival Primeiro Plano, Marília Lima. “Não são poucas as mulheres que fazem cinema. O que acontece é uma invisibilidade dessas mulheres no mercado audiovisual, em festivais de cinema e também no campo discursivo.” Para as pesquisadoras, a denúncia social mais ampla impulsiona o movimento dentro de Hollywood, escancarando o que está por trás de seu glamour. 

Acredito que há uma tomada de consciência de que essa luta envolve todas as mulheres e outras minorias como forma de romper um sistema viciado dominado por homens, brancos e heterossexuais, em sua maioria

“Acredito que há uma tomada de consciência de que essa luta envolve todas as mulheres e outras minorias como forma de romper um sistema viciado dominado por homens, brancos e heterossexuais, em sua maioria. Hollywood é a indústria onde ficam claras as desigualdades entre gêneros. A união dessas mulheres já quebra um dos preceitos sexistas sobre a ausência de amizade e empatia entre elas. Estamos vivendo um ótimo momento de sororidade onde se constrói fortemente um campo de disputa que desestabiliza antigos preceitos e abre espaço para a participação de uma multiplicidade de gente”, resume Marília.

Segundo a professora Alessandra Brum, as mulheres são maioria nos cursos de cinema e audiovisual e não se contentam em serem coadjuvantes. Na sala de aula, não há funções específicas para homens ou mulheres nem espaço para machismo. No Primeiro Plano, Marília garante que a participação também é bastante expressiva, seja na autoria, na participação nas oficinas ou como espectadoras.

Fazendo justiça, então, às produções de mulheres no cinema e no audiovisual, Alessandra Brum e Marilia Lima reuniram suas indicações de filmes e séries para descobrir, revisitar e valorizar o trabalho feminino de alta qualidade. 

Clássicos dirigidos por mulheres 

O cair das folhas (de Alice Guy-Blaché, 1912) – “Considerada a primeira mulher diretora, realizou diversos filmes, e alguns estão disponíveis no Youtube. O filme mostra a relação de afeto entre duas irmãs” (Marília Lima). 

A sorridente Madame Beudet (de Germaine Dulac, 1923) – “Mostra a insatisfação de uma esposa com seu marido repressor e um tanto violento. Germaine Dulac está entre os nomes da vanguarda impressionista francesa seguindo as influências do surrealismo” (Marília Lima).

Cléo das 5 às 7 (de Agnès Varda, 1962) – “Por ter sido freqüentemente esquecida  pelo movimento da Nouvelle Vague”, diz Alessandra. “A história é sobre uma cantora que espera o resultado de um exame que pode mudar sua vida. É ótimo filme para ter contato com o talento de uma das principais diretoras do cinema francês e também com as experimentações do movimento francês”, acrescenta Marília.

Amor Maldito (de Adélia Sampaio, 1984) – Primeiro filme dirigido por uma mulher negra (Alessandra Brum).

A Hora da Estrela (de Suzana Amaral, 1985 ) -“Suzana Amaral conseguir transpor para a tela a sensibilidade da obra de Clarice Lispector de forma tão delicada, forte e sensível. Isso sem falar na atuação de Marcélia Cartaxo no papel de Macabéa” (Alessandra Brum).

Carlota Joaquina (de Carla Camuratti, 1995) –  “A diretora fez um filme de época com baixíssimo orçamento, se utilizando de recursos materiais reciclados e amplamente difundidos no carnaval no Brasil” (Alessandra Brum). 

A mulher melancia (de Cheryl Dunye, 1996) – “É um falso documentário sobre a busca pela a história de uma atriz negra do cinema mudo norte-americano. O filme coloca em debate essa ausência de registros que construiria uma outra história do cinema fora dos moldes tradicionais. Dá visibilidade para o cinema produzido por mulheres negras e lésbicas” (Marília Lima).

Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2001) – “Pela discussão que provoca em relação a validade da História e a importância da história oral para a escrita da história” (Alessandra Brum).

Cinema e audiovisual contemporâneo

Uma longa viagem (de Lúcia Murat, 2011). O documentário é encenado por Caio Blat a partir das cartas enviadas pelo irmão da diretora a família. “A partir dessa experiência pessoal é possível ter um bom retrato da família brasileira de classe média no período da ditadura militar no Brasil” (Alessandra Brum). 

Trabalhar cansa (de Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011). “Por mostrar o qual aterrorizante pode ser o nosso cotidiano. A dupla de diretores nos lembra que a parceria sem distinção de gênero pode ser muito frutífera” (Alessandra Brum)

Pariah (de Dee Rees, 2011) –  Uma adolescente lésbica negra enfrenta as dificuldades de afirmar sua sexualidade para a família. “Rees diz que o filme é baseado na sua própria experiência de ‘saída do armário’. É um ótimo filme para entender e criar empatia sobre os temas LGBTQ” (Marília Lima).

Que horas ela volta? (de Ana Muylaert, 2015). “É interessante por retratar as mudanças recentes da sociedade brasileira e seus conflitos sociais” (Alessandra Brum).

Como nossos pais (de Laís Bodansky, 2017) – No filme, temas complexos como o feminismo, a morte, tecnologia e relações pessoais são entrelaçados de forma simples e clara (Alessandra Brum). 

Lazzaro Felice (de Alice Rohrwacher, 2018) – “Para nos lembrar o quanto podemos ser cruéis com pessoas que só tem o bem no coração. Para refletir o que podemos ser ou o que não devemos ser” (Alessandra Brum). 

High Life (de Claire Denis, 2018) – “Um filme de ficção científica que fala sobre o isolamento de um grupo em uma nave espacial. A estética fluída de Denis nos faz experimentar um filme menos voltada para contar uma história e mais preocupado em criar sensações. Para quem não conhece a diretora, é um bom filme para ter contato com suas realizações” (Marília Lima)

Era o Hotel Cambridge (de Eliane Caffé, 2016), que mostra as histórias de moradores de uma ocupação em São Paulo. 

The Morning Show (série, de Kerry Ehrin, 2019) – “O tema envolve a má conduta sexual de um âncora de um telejornalismo. É uma série interessante pela forma como as personagens femininas vão ganhando força à medida que tomam consciência do sistema em que estão inseridas. Além disso, ela demonstra como a indústria midiática ainda é um instrumento potente de construção de ideologias e preceitos” (Marília Lima).