Fachada do bar Stonewall, que deu origem aos movimentos LGBTQ+ nos dias de hoje (Foto: Marcelo do Carmo)

Gabriel Duarte
Bolsista de treinamento profissional*

O tradicional bairro nova-iorquino Greenwich Village já foi lar de grandes nomes do cânone cultural: o escritor Edgar Allan Poe, o cantor John Lennon, a editora-chefe da revista Vogue, Anna Wintour, e grande parte dos poetas da geração beat. Nas primeiras horas do dia 28 de junho de 1969, a região novamente se tornava um epicentro cultural: no pequeno bar Stonewall Inn, os frequentadores, em sua maioria homossexuais, cansaram das constantes invasões policiais ao local e começaram uma revolta. 

Em meio à efervescência cultural da década de 60, esse levante foi catalisador na luta pelos direitos LGBTQ+ nos Estados Unidos, se tornando um símbolo que extrapolou as fronteiras do país. A revolução completa 50 anos em 2019 e, para celebrar a data, convidamos o professor coordenador do projeto de extensão responsável pela Semana Rainbow, Marcelo do Carmo. Ele avalia o legado e a controvérsias de Stonewall. 

As primeiras horas da manhã

Registro feito em julho de 1969. (Foto: Larry Morris / The New York Times)

Antes de tudo, o professor Marcelo chama atenção para o contexto sócio-cultural da época. Em junho de 1969, a sociedade ocidental vivia o auge da contracultura; diversos movimentos de contestação social debatiam os valores tradicionais e criaram trabalhos que repercutiram décadas a fio nas artes plásticas, na literatura e na música; o histórico Festival de Woodstock estava há poucos meses de acontecer. Nova York, especialmente o bairro Greenwich Village, estava submergida nessa efervescência.

Até então, não havia nada de especial no Stonewall Inn: um pequeno bar chefiado pela máfia (aspecto comum para estabelecimentos do submundo norte-americano e europeu da época) que sofria constantes batidas policiais. Muito além dos delitos mafiosos dos donos, as autoridades também tinham interesse nos frequentadores. Em 1969, em Nova York, assim como na maior parte dos Estados Unidos, era ilegal ser homossexual. As chamadas “leis da sodomia” reinavam soberanas em todos os estados, com exceção de Illinois. Segundo a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), esse conjunto de leis – derivado de dogmas religiosos e coloniais – foi projetado para coibir qualquer ato sexual consensual que não tivesse o intuito da procriação. Desta forma, constituíam a base jurídica para um sistema de opressão à comunidade LGBTQ+. “As batidas eram uma tentativa reiterada de fechar o bar, de abafar esses movimentos e de manter um status quo contra as questões homossexuais. Nessas invasões policiais periódicas, estavam havendo muitas agressões e prisões de gays e travestis. Em uma determinada noite, elas resistiram”, explica o professor. 

De acordo com um resgate histórico feito pela BBC, era uma noite quente de verão e o Stonewall Inn estava lotado, como era de se esperar em uma noite de sexta-feira. A confusão eclodiu na madrugada de sábado, quando a polícia invadiu o local e expulsou cerca de 200 pessoas do estabelecimento. A reportagem afirma que o público era um dos mais variados: de gays, lésbicas e travestis até drag queens e adolescentes em situação de rua. Cansada das constantes invasões, a multidão decidiu não recuar. Tomando conta da Christopher Street, onde o bar é localizado, os clientes do Stonewall Inn iniciaram um confronto que entrou para a história. 

Os detalhes daquela noite variam de acordo com os relatos. Segundo a revista Time, os manifestantes revidaram de maneira violenta: objetos, que iam de moedas a tijolos, foram atirados contra as autoridades, parquímetros foram arrancados das calçadas; alguns participantes teriam formado diversas kicklines (um tradicional passo de dança que consiste nos dançarinos se alinhando e dando chutes no ar) para impedir o avanço policial e, até mesmo, uma tentativa de incendiar o local com os policiais ainda dentro.

A drag queen Marsha P. Johnson é uma das integrantes mais ilustres da manifestação, sendo considerada uma das pessoas que iniciaram a revolta. (Foto: Reprodução)

Ao virar um símbolo sem registros oficiais, as narrativas sobre o que aconteceu naquela noite em Stonewall agregaram diversas especulações que são tidas como verdadeiras. Em um vídeo recente, o jornal The New York Times reuniu pesquisadores e pessoas que participaram do protesto para analisar a veracidade dessas afirmações, assim como avaliar os motivos pelos quais elas foram integradas no imaginário coletivo. Entre os temas abordados está a identidade quase mitológica de quem atirou o primeiro tijolo e deu início à revolta. Muitos atribuem o feito à drag queen Marsha P. Johnson, mesmo ela já tendo declarado em entrevista que só chegou ao local após o tumulto já ter começado. Outra especulação debatida no vídeo é a de que o sentimento de luto após a morte da atriz Judy Garland – cujo funeral aconteceu em Nova York, nas vésperas do protesto – teria inflamado o espírito revolucionário da multidão. Segundo os entrevistados pelo jornal, tal declaração é originada de uma infame coluna do jornalista conservador Walter Troy Spencer, que estaria ironizando o movimento daquela noite.

Experiência coletiva

Para muitos autores, a rebelião de Stonewall é o momento em que a homossexualidade deixa de ser uma realidade ou ação individual e passa a ser uma experiência coletiva. Essa visão é controversa. “Há uma discussão muito grande se a pedra fundamental é Stonewall”, explica o professor Marcelo do Carmo. Ele comenta que, para as visões contrárias, Stonewall não foi o primeiro esforço na luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+, muito menos o mais efetivo. Na França, por exemplo, a participação de estudantes homossexuais foi fundamental na onda de protestos de Maio de 1968, que marcou a história do país como uma renovação de valores socioculturais, levando cerca de nove milhões de pessoas para as ruas. Entre os participantes célebres pode-se citar o filósofo e ativista Guy Hocquenghem, cuja obra toca constantemente no tema da sexualidade. 

A primeira parada de Nova York aconteceu na Christopher Street, rua em que o bar é localizado. (Foto: Diana Davies / New York Public Library)

Ainda assim, a rebelião em Nova York é responsável por uma das manifestações mais tradicionais da comunidade LGBTQ+ mundial: as paradas. Em 1970, ativistas organizaram desfiles pelas ruas das principais cidades norte-americanas, com o intuito de comemorar o primeiro aniversário de Stonewall e manter vivos os sentimentos de orgulho e esperança que explodiram naquela noite no bar. Quase cinquenta anos depois, as paradas do Orgulho LGBTQ+ acontecem anualmente em mais de 40 países. “Elas são um avanço, ou uma consequência, da percepção daquela experiência, que era então individual e subterrânea, para o orgulho em se expressar. As paradas são muito importantes, porque elas mantêm a visibilidade. Elas exteriorizam esse orgulho”, explica o professor. 

Muito além de Stonewall, Marcelo comenta a importância de preservar a memória de outras iniciativas que fizeram história. No extremo oposto dos Estados Unidos, a cidade de São Francisco já estabelecia suas bases como a “capital gay” do mundo desde a Primeira Guerra Mundial. A cidade foi palco de inúmeras demonstrações políticas ao longo das décadas: desde a fundação do primeiro movimento em defesa dos direitos das lésbicas, o grupo Daughters of Bilitis, nos anos 1950; até a ascensão do político Harvey Milk, primeiro homem abertamente gay a ser eleito a um cargo público da Califórnia, em 1978 – tendo sido assassinado menos de um ano após a sua posse. “As ações em São Francisco são muito mais contundentes. Se a gente fala de conquistas, São Francisco avançou mais”, comenta. Elas obtiveram bons resultados: em 2018, um estudo do Tax Policy Center revelou que a cidade é a que detém a maior taxa de casais homoafetivos do país.

As edições do jornal podem ser acessadas através do acervo digital disponibilizado pelo Portal Dignidade. (Foto: Reprodução)

Já no Brasil, em constante contato com o ativismo são-franciscano, o jornal Lampião da Esquina se tornou dos principais nomes da imprensa alternativa durante o abrandamento da censura da ditadura militar. Fundado por jornalistas abertamente gays, como Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, a publicação funcionou entre 1978 e 1981, denunciando os abusos do regime vigente e abordando, sem pudores, temas irreverentes e tabus para a época. Aqui mesmo em Juiz de Fora, história estava sendo feita: em 1976, acontecia pela primeira vez o pioneiro concurso de beleza Miss Brasil Gay. “É claro que houve influência, é claro que eles beberam na fonte, mas havia um espírito tupiniquim nessas iniciativas”, avalia Marcelo.

O legado

Após 50 anos, Stonewall ainda se faz relevante. No começo deste mês, a polícia de Nova York pediu desculpas pela repressão no bar. Segundo os jornais que estiveram presentes na coletiva, o comissário James O’Neil afirmou que as ações tomadas naquela noite “foram um erro” e que os “atos e as leis eram discriminatórios e tirânicos”. Em 2019, o local se tornou o epicentro para as programações do Mês do Orgulho LGBTQ+ em Nova York. Além disso, sua influência pode ser vista ao redor do mundo: em São Paulo, por exemplo, a revolta foi o tema da Parada do Orgulho deste ano. Recentemente, o professor Marcelo esteve no histórico bar. Ele relata um pouco da sua visita e comenta da importância de ações para manter o legado de Stonewall: 

Marcelo comenta que a manutenção da luta e das revoltas de Stonewall como um símbolo é um exemplo a ser seguido. “É difícil manter um bar por cinquenta anos, mas ele se manteve, literalmente, como uma bandeira fincada. Se ele tivesse morrido, talvez essa história tivesse morrido. Se nós não tivéssemos essa memória, onde será que nós estaríamos? Ou melhor, para onde será que nós voltaríamos?”. Ele vê com otimismo o apelo midiático e turístico do local e comenta que essa atenção talvez seja fundamental. “Eu acredito que isso vá repercutir em políticas públicas de inclusão e até em mudanças de paradigmas.”

Mesmo que em contextos completamente diferentes, Marcelo comenta que o exemplo que a comunidade LGBTQ+ pode tirar de Stonewall é o esforço para mudar os valores culturais de maneira intrínseca à luta por mudanças na legislação. O professor  reflete sobre um dos avanços mais recentes: a decisão do Supremo Tribunal Federal de tornar crime qualquer discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. “Aí está uma questão: criminalizar resolve o problema? Estamos aumentando a população carcerária, mas isso não deveria vir acompanhado de uma ampliação de políticas públicas? Nossa realidade é outra e as nossas fragilidades são diferentes. Mas uma coisa é certa: nós ainda temos muito que caminhar.” 

“Música faz as pessoas se unirem”

Na canção intitulada “June”, a banda britânica Florence + the Machine relembra os “pesados dias de junho, quando amar virou um ato de desafio” – um verso ambivalente, que pode ser associado tanto às revoltas em Stonewall, quanto ao massacre na boate Pulse, em 2016, na cidade de Orlando. Inspirados nas palavras de Madonna, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) criou uma playlist que celebra a cultura LGBTQ+. Muito além da representatividade, o foco da lista é a música como forma de expressão de desejos e angústias de uma comunidade que foge da normatividade socialmente imposta.  

A terceira edição da Semana Rainbow acontece entre os dias 7 e 18 de agosto. Enquanto a programação não vem, aproveite as canções que reunimos: 

*As matérias são editadas por jornalistas da Diretoria de Imagem Institucional