(Foto: Twin Alvarenga)

“Ainda existe uma carência na compreensão sobre o aspecto de saúde coletiva, de tratamento, prevenção e políticas públicas sobre o assunto”. Telmo Ronzani (Foto: Twin Alvarenga)

“Qual a necessidade de mais um livro sobre drogas?”. É este o questionamento feito pelo pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Telmo Ronzani, ao longo do processo de edição, escrita e organização do livro “Drugs and social context: social perspectives on the use of alcohol and other drugs”. Nesta obra, Ronzani não só indaga a mesma coisa aos leitores, como responde à própria pergunta: “É preciso apresentar um lado ainda pouco abordado quando falamos sobre drogas: o social. Geralmente, quando esse assunto é discutido, o foco é biomédico, criminológico, neurobiológico — e, nesse livro, vamos além disso.”

Olhar latino-americano

Dividida em dois eixos — “Drugs and Society” e “Drugs and Social Issues” –, a obra em inglês, disponível para venda on-line, foi publicada este mês pela Springer, maior editora científica do mundo. Recheado de olhares multidisciplinares, o livro conta com a participação de 19 pesquisadores nacionais e internacionais, de países como Uruguai, Espanha e Estados Unidos. São 14 institutos e universidades representados ao longo das páginas. “Mais do que trazer a ótica norte-americana sobre drogas — que costuma ser a hegemônica sobre o assunto –, abordamos um referencial nosso, latino-americano, para que ele seja mais difundido e reconhecido internacionalmente. Temos muito a oferecer, principalmente sobre os contextos sociais, políticos e históricos. Para entender como surgem, funcionam e são tratadas as questões sobre drogas, é necessário lidar com essas questões.”

O peso das relações sociais e culturais

Livro já está disponível

Livro publicado pela Springer já está disponível para venda on-line.

Ronzani destaca que existe uma disparidade no campo de pesquisa sobre drogas — enquanto as tecnologias das áreas de farmacologia e neurociência avançam, ainda existe uma carência na compreensão sobre o aspecto de saúde coletiva, de tratamento, prevenção e políticas públicas sobre o assunto. “É preciso focar nos indivíduos — eles são atores principais e resultados das suas próprias histórias que, por sua vez, são diretamente influenciadas pelas relações sociais que eles estabelecem. Para entender como são estabelecidas os vínculos com o corpo e com a subjetividade de cada um, é fundamental entender as relações sociais e culturais.”

O estigma social dos usuários, o acesso ao tratamento, os preconceitos, o racismo, a criminalização e a guerra às drogas são alguns dos assuntos tratados pelos artigos do livro. Em seu próprio capítulo, Ronzani demonstra como, historicamente, ações restritivas e incentivadoras acerca da produção e consumo de drogas estão intimamente interligadas ao ganho comercial e o controle de determinados grupos dentro da nossa sociedade — e, geralmente, acabam ganhando o respaldo da saúde pública. “É impressionante como o assunto permeia muito da nossa história, o que é algo que muitas vezes ignoramos ou desconhecemos. O tráfico de escravos brasileiro, por exemplo, era baseado em drogas, principalmente o álcool. A manipulação em torno das drogas, desde muito antes do que costuma ser imaginado, serve como mecanismo de controle, exploração, manutenção e exclusão. Nosso objetivo é discutir e aprofundar o conhecimento sobre essas e outras questões macrossociais.”

Solução?

“Não temos a pretensão de propor uma solução definitiva à questão das drogas — nós esperamos trazer mais foco para aspectos que não são recentes, mas que, muitas vezes, são esquecidos ou negligenciados. Não devemos repetir os mesmos erros históricos”, define Ronzani. Atuante como coordenador geral do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (Crepeia), o pesquisador reforça que o livro também será uma referência para os estudos realizados na própria Universidade. “Ele é importante para o trabalho desenvolvido aqui, uma vez que aborda um panorama que não é o clássico — o que, muitas vezes, nos leva a assimilar e consumir as pesquisas de forma pouco crítica. Espero fazer o contrário disso.”