Autor(es): Emerson Berg Jorge Pereira (ebergp@gmail.com)
Revisores
- Victor Oliveira
- Wesley de Barros
Entre os dias 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) sediou, pelo oitavo ano consecutivo, uma das maratonas de criação de jogos mais aguardadas: a Global Game Jam (GGJ) 2026. Organizado pelo projeto de extensão INOVAGames, o evento reafirmou seu papel como um ponto de encontro para a comunidade criativa de Juiz de Fora e região, mantendo-se fiel ao seu espírito colaborativo e inovador.
Um Formato Híbrido e Acolhedor
A edição de 2026 manteve o formato híbrido. Enquanto dezenas de “jammers” ocuparam o Laboratório L205 do Prédio REUNI no campus, uma parcela da comunidade participou remotamente, conectada via Discord. Esta estrutura demonstrou a maturidade do evento em integrar diferentes realidades, permitindo que tanto veteranos quanto novatos pudessem colaborar, seja de suas casas ou no burburinho do campus, que contou com infraestrutura completa, incluindo laboratório Linux com Unity3D e Godot, espaços de descanso e áreas para criadores de jogos de tabuleiro e controles alternativos.
A Preparação: Oficinas de Aquecimento
Um dos grandes acertos da organização foi a manutenção das “Oficinas de Aquecimento” na semana que antecedeu a jam (a partir de 19 de janeiro). A tradição do INOVAGames, rica em materiais de edições anteriores (disponíveis em seu canal no YouTube), garante que os participantes tenham acesso a um verdadeiro curso intensivo. Tópicos que vão de “Introdução à Unity” e “Narrativas em Jogos” a “Game Design centrado no Usuário” e “Criação de Portfólio” preparam o terreno, nivelando o conhecimento e inspirando os criadores antes mesmo do anúncio do tema.
O Tema e a Explosão Criativa: A Magia das Máscaras
Com o anúncio do tema global “Máscaras” em 26 de janeiro, a sede da UFJF mergulhou de cabeça no desafio proposto. Nas 48 horas seguintes à abertura, os participantes transformaram o conceito em uma impressionante variedade de interpretações, provando que um mesmo tema pode gerar infinitas possibilidades criativas quando visto por diferentes olhares.
A produção dos 13 jogos registrados pelo grupo da GGJ UFJF revela como a máscara foi explorada em múltiplas camadas. Alguns grupos focaram no objeto físico e seus poderes, como em “Magi Trium” — que mistura a tradição brasileira da Folia de Reis com fantasia sombria, permitindo ao jogador alternar entre as máscaras dos três Reis Magos para enfrentar criaturas corrompidas — e no charmoso “Manjubas mask – A legenda de Zyldo”, um jogo de puzzles e exploração onde a coleta de “máscaras do poder” é essencial para avançar.
Outros criadores preferiram explorar a dimensão psicológica e espiritual do tema. O perturbador “The King of Rats” utiliza uma máscara amaldiçoada como gatilho para a desconstrução gradual da humanidade do protagonista em uma narrativa de horror. Já “The Masks Rituals” leva o jogador a uma dimensão distorcida onde é preciso completar desafios entregando máscaras a espíritos, enquanto “Fallen Mask” oferece poderes misteriosos a um sobrevivente perdido em uma caverna ancestral.
O horror e a exploração também ganharam destaque com “spooky masks adventure”, um jogo 2D top-down que coloca o jogador em uma mansão assombrada infestada por espíritos malignos. Com uma atmosfera envolvente e segredos escondidos, o jogo utiliza as máscaras como elemento central da narrativa e da progressão, desafiando o protagonista a desvendar os mistérios do local.
Houve espaço também para abordagens metafóricas e sociais. O sensível “A máscara através do tempo” usa o símbolo para representar as transformações em um relacionamento afetivo entre mulheres, mostrando como “usamos diferentes máscaras” ao longo da vida e em nossos afetos. “Face the Consequence!” traz uma crítica social ácida em um jogo de exploração onde é preciso roubar os rostos (máscaras sociais) de frequentadores de uma festa corporativa para alcançar e deter o CEO.
A diversão e o desafio também marcaram presença. “Escape the Circus!” combina a coleta de três máscaras especiais com puzzles para escapar de um circo liminar. No campo dos jogos analógicos, “MaskHunters” inovou ao propor uma experiência de tabuleiro onde os jogadores constroem o mapa estrategicamente posicionando plataformas e inimigos. O teatro e a performance inspiraram “Respected Audience”, que mergulha nas intrigas e rivalidades por trás das cortinas de um grande espetáculo, onde cada personagem usa sua máscara social.
A variedade de gêneros — horror, puzzle, aventura, narrativa, estratégia — demonstra a riqueza do evento. Mesmo projetos mais simples ou conceituais, como “Death’s Totem” (sobre uma tribo recuperando as máscaras de um deus travesso) e o encantador “B.E.L.L.” (sobre Mirabell, que precisa criar uma nova máscara após um acidente), contribuíram para um mosaico criativo que honrou o tema.
Ao final, ficou claro que o tema “Máscaras” foi um convite para que os jammers olhassem para dentro de si e para o mundo ao redor. Seja como objeto de poder, ferramenta de transformação, proteção emocional ou disfarce social, a máscara revelou-se um tema fértil para a criatividade sem limites que a Global Game Jam proporciona.
Conclusão: Muito Além do Código
A Global Game Jam de Juiz de Fora 2026 consolidou-se como um ecossistema fértil para a experimentação. Mais do que a pressão das 48 horas, o evento proporcionou um espaço seguro para o erro, o aprendizado e a conexão humana. A variedade de jogos criados prova que o valor da jam não está apenas nos jogos finalizados, mas nas histórias que passam a ser contadas, nas parcerias que se formam e no portfólio que se expande.
Para quem perdeu, o Instagram @INOVAGames e o canal do YouTube do projeto são os melhores lugares para sentir o gostinho do que foi o evento e se preparar para a próxima edição. Que venha 2027!
Referências
- https://www2.ufjf.br/inovagames/atividades/game-jams/global-game-jam/global-game-jam-2026/
- https://globalgamejam.org/jam-sites/2026/ggjufjf26-universidade-federal-de-juiz-de-fora
- https://globalgamejam.org/group/31079/games