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Antes do barro: quem conhece o risco antes de visitar o desastre?

ARTIGO DE OPINIÃO | PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL

A presença institucional nas áreas atingidas é necessária, mas a maturidade de uma política pública se revela, sobretudo, na capacidade de conhecer vulnerabilidades, agir antes da emergência e transformar risco em agenda cotidiana de governo.

📌 Em síntese

O texto discute um paradoxo recorrente na gestão pública de proteção e defesa civil: o desastre mobiliza atenção, recursos e visibilidade, enquanto o risco, que se forma antes da emergência, nem sempre recebe o mesmo tratamento político e orçamentário. A partir do Marco de Sendai e de documentos recentes da UNDRR, argumenta-se que prevenir, reduzir riscos, fortalecer a governança e preparar respostas eficazes exige presença contínua do poder público no território, articulação intersetorial e decisão política antecipada. A questão central não é apenas quem visita a área depois dos danos, mas quem conhecia suas vulnerabilidades antes, e o que foi efetivamente feito com esse conhecimento.

⚠️ O que se vê depois e o que se ignora antes

Há uma cena que se repete após grandes desastres: a chuva já caiu, o rio já transbordou, a encosta já se movimentou, casas foram destruídas, estradas interrompidas e famílias perderam bens construídos ao longo de uma vida. Em situações mais graves, vidas também foram perdidas. É nesse momento que chegam autoridades, equipes técnicas, assessorias, imprensa e câmeras. Em alguns casos, autoridades percorrem as áreas atingidas; em outros, observam de veículos ou realizam sobrevoos. Em determinadas circunstâncias, inclusive, o reconhecimento aéreo é tecnicamente adequado para avaliar rapidamente danos e orientar decisões quando há interrupção de acessos ou grande extensão territorial afetada.

O problema, porém, não está necessariamente na visita posterior ao evento. A inquietação central é outra: quem conhecia aquele território antes de o desastre acontecer? Quem acompanhava a drenagem, os cursos d’água, a ocupação das encostas, a vulnerabilidade de pontes, escolas, unidades de saúde, abrigos e demais infraestruturas essenciais? Quem havia discutido rotas de evacuação, validado planos de contingência com a realidade local e identificado pessoas que necessitariam de apoio especial em uma emergência? E, sobretudo, o que foi feito com aquilo que já se sabia?

“O desastre recebe atenção. O risco, nem sempre.”

🏛️ O Marco de Sendai e a ordem das prioridades

Existe uma diferença decisiva entre observar consequências materializadas e compreender o risco que já existia antes delas. O Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015–2030 organiza a ação internacional precisamente a partir dessa compreensão. Suas quatro prioridades são: conhecer o risco de desastres; fortalecer a governança do risco; investir na redução do risco para a resiliência; e fortalecer a preparação para resposta eficaz, incluindo recuperação que permita reconstruir melhor.

A sequência dessas prioridades é reveladora. A primeira não é reconstruir, mas compreender o risco. A segunda não é distribuir ajuda humanitária, e sim fortalecer a governança do risco. A terceira é investir em sua redução. Somente depois surge, de forma explícita, a preparação para responder adequadamente quando o evento ocorre. Isso não diminui a importância da resposta, que é obrigação fundamental do poder público, mas evidencia que a política pública de proteção e defesa civil não deveria começar quando a sirene toca, quando o rio ultrapassa determinada cota ou quando a primeira casa desaba.

⚠️ Decisão estratégica anterior à chuva

Uma política pública madura não se limita a reagir bem quando a ameaça se materializa. Ela precisa incorporar o risco ao planejamento, ao orçamento, à infraestrutura, à habitação, à manutenção e à coordenação intersetorial muito antes da emergência.

📷 O paradoxo do sucesso silencioso da prevenção

Há um problema político e comunicacional particularmente relevante na prevenção: quando ela funciona, frequentemente não há imagem para mostrar. Uma obra de drenagem que evita uma inundação não produz a mesma visibilidade de uma cidade alagada. Uma estabilização de encosta que impede um movimento de massa não gera imagens de resgate. Uma manutenção executada no momento adequado não produz o impacto visual de uma ponte destruída. Um sistema de alerta que permite evacuação antecipada pode transformar um evento potencialmente fatal em uma ocorrência sem vítimas, sem que a sociedade perceba plenamente tudo aquilo que deixou de acontecer.

Esse é um dos paradoxos centrais da redução do risco de desastres: o sucesso da prevenção pode ser silencioso. Não existe fotografia da casa que não caiu, nem transmissão ao vivo da pessoa que não precisou ser resgatada. Talvez por isso seja tão fácil construir visibilidade política depois do desastre e tão difícil construir reconhecimento público em torno do que foi evitado. No entanto, governar não pode significar apenas administrar aquilo que se tornou visível.

🚨 A armadilha da fotografia política do desastre

Máquinas, helicópteros, entrevistas e anúncios emergenciais podem ser necessários, mas tornam-se problemáticos quando contrastam com a dificuldade de mobilizar recursos para mapeamento, manutenção, fiscalização, preparação comunitária e fortalecimento institucional antes do evento adverso.

📊 Prevenção também é escolha orçamentária

Discutir redução do risco sem discutir recursos é insuficiente. O Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction 2025 chama atenção para a dimensão econômica dessa agenda. Segundo a UNDRR, quando se consideram não apenas os danos diretos oficialmente contabilizados, mas também impactos indiretos e perdas relacionadas aos ecossistemas, os custos globais associados aos desastres superam estimativamente US$ 2,3 trilhões por ano. O relatório sustenta que investir na redução do risco protege vidas, reduz perdas econômicas e contribui para a estabilidade e o desenvolvimento de longo prazo.

Esse argumento é particularmente importante porque desloca a prevenção do campo da despesa eventual para o campo do desenvolvimento. Quando uma estrada continua funcionando após um evento extremo, há benefício econômico. Quando uma escola permanece segura, há benefício social. Quando serviços de saúde mantêm sua operação, toda a sociedade se beneficia. Quando famílias não perdem suas casas, há patrimônio preservado. Quando empresas não interrompem atividades, empregos e renda são protegidos. E quando um município deixa de reconstruir repetidamente a mesma infraestrutura, pode direcionar recursos para avançar, e não apenas para recompor o que já existia.

💡 Investir em risco é investir em desenvolvimento

A redução do risco não deve ser vista apenas como preparação para uma emergência futura. Trata-se de uma agenda que preserva infraestrutura, protege serviços essenciais, reduz perdas recorrentes e amplia a capacidade de desenvolvimento sustentável dos municípios.

🛡️ Governança do risco aparece antes da emergência

A noção de governança, muitas vezes apresentada de forma abstrata, torna-se mais concreta quando observada no cotidiano da administração pública. Governança do risco existe quando se sabe quem deve fazer o quê antes de começar a chover. Ela aparece quando planejamento urbano dialoga com Defesa Civil, quando obras públicas incorporam informações sobre risco, quando assistência social conhece as populações mais vulneráveis e quando saúde, educação, meio ambiente, infraestrutura e habitação reconhecem que a redução do risco também integra suas decisões.

A UNDRR tem reforçado que a redução do risco não é apenas atividade técnica, mas componente fundamental da boa governança, relacionada à capacidade de governos protegerem pessoas, infraestrutura e economia. O levantamento de 2025 também mostra avanços na existência de estratégias nacionais e locais de redução do risco, mas ressalta um ponto essencial: não basta possuir estratégias; é necessário transformá-las em ação. Essa é uma diferença decisiva entre possuir documentos e possuir capacidade institucional.

🏛️ Integração institucional

A governança se fortalece quando diferentes órgãos compartilham dados, responsabilidades e decisões sobre o território antes da crise.

📍 Capacidade institucional

Ter plano, mapa ou norma é importante, mas o critério decisivo é saber se esses instrumentos alteram concretamente a forma de administrar o território.

👥 Participação comunitária

Comunidades não devem ser apenas destinatárias de ordens em emergências, mas participantes da construção de soluções e da comunicação do risco.

🌧️ A visita que deveria ocorrer todos os dias

Visitar o desastre antes que ele aconteça não significa promover cerimônias em áreas de risco. Essa presença prévia é menos visível e muito menos fotogênica, mas decisiva. Ela aparece na decisão sobre onde construir uma escola, na manutenção de galerias de águas pluviais, na fiscalização de ocupações, no licenciamento de empreendimentos, na conservação de estradas, na atualização cadastral de famílias, na capacitação de servidores, na comunicação do risco, no fortalecimento institucional da Defesa Civil, na instalação e manutenção de sistemas de monitoramento, na preparação de abrigos e na realização de exercícios e simulados.

Essa é a verdadeira visita prévia ao território. Ela precisa ocorrer muito antes da previsão de chuva aparecer na tela de um computador. A iniciativa Making Cities Resilient 2030, vinculada à UNDRR, traduz essa lógica para a escala municipal ao destacar, entre seus elementos essenciais, a proteção e manutenção de infraestruturas críticas, a existência e atualização de planos de preparação e contingência, sistemas de alerta e capacidade adequada de resposta.

“A Defesa Civil que desejamos fortalecer no século XXI não pode ser apenas uma estrutura eficiente para chegar depois.”

🔄 Depois do desastre, reconstruir melhor

Nada disso significa que o pós-desastre seja secundário. Depois que o evento ocorre, a responsabilidade pública é enorme: salvar vidas, atender pessoas, restabelecer serviços essenciais, garantir abrigo, reconstruir infraestrutura, recuperar atividades econômicas, apoiar famílias e comunidades e aprender com o ocorrido. A própria terminologia da UNDRR define recuperação não como mera reposição do que foi perdido, mas como restauração ou melhoria dos meios de vida, da saúde, dos sistemas e dos ativos da comunidade afetada, articulada ao desenvolvimento sustentável e à reconstrução melhor, de modo a evitar ou reduzir riscos futuros.

Isso é fundamental porque reconstruir exatamente o que existia pode significar reconstruir também vulnerabilidades preexistentes. Uma ponte destruída não deveria ser refeita automaticamente da mesma maneira se permanecem as condições que explicaram sua vulnerabilidade. Uma escola danificada não deveria retornar ao mesmo padrão de exposição. Uma comunidade repetidamente inundada não pode ser tratada indefinidamente como se cada inundação fosse uma surpresa. O conceito de Build Back Better, incorporado ao Marco de Sendai, busca justamente integrar a redução do risco aos processos de recuperação, reabilitação e reconstrução.

“Reconstruir exatamente aquilo que existia pode significar reconstruir também as vulnerabilidades existentes.”

🎯 Mais presença antes, não menos depois

A crítica desenvolvida ao longo do texto não defende menos presença institucional após o desastre. Não se trata de desejar menos autoridades nos locais atingidos, menos recursos emergenciais, menos atenção da imprensa, menos solidariedade ou menos capacidade de resposta. A proposta é outra: ampliar de forma consistente a presença do Estado antes do evento adverso. Isso significa dar à prevenção a mesma urgência que se observa diante das casas destruídas e conferir ao financiamento preventivo a mesma prioridade que frequentemente se encontra para ações emergenciais.

Também significa ouvir comunidades antes de elas aparecerem nos telejornais, lembrar da Defesa Civil durante a elaboração do orçamento e não apenas durante a chuva, e tomar decisões difíceis enquanto ainda há tempo para decidir. Um dos indicadores mais relevantes de maturidade de uma política pública de proteção e defesa civil talvez seja justamente a capacidade de abandonar a ideia de que seu principal momento começa quando o desastre acontece. Melhorar a resposta é indispensável, mas é igualmente necessário perguntar por que as pessoas continuam chegando à lama.

🛠️ Capacidade pública contínua

Fortalecer a proteção e defesa civil exige instituições municipais capazes de atuar continuamente, inclusive quando aparentemente nada está acontecendo, porque o território, as vulnerabilidades e o risco seguem se transformando.

🚁 Antes das sirenes, das câmeras e dos helicópteros

Há algo profundamente humano na presença de uma autoridade depois de uma tragédia. Olhar nos olhos das pessoas atingidas importa. Ouvir quem perdeu a casa importa. Reconhecer pessoalmente a dimensão dos danos importa. Visitar equipes que trabalham há horas ou dias em operação importa. E, em certos contextos, até mesmo sobrevoar uma extensa região atingida pode ser necessário para compreender rapidamente o que ocorreu. O problema, portanto, não está no helicóptero. O problema estaria em acreditar que a gestão do risco começa quando ele decola.

A transformação efetiva ocorrerá quando conhecer previamente uma comunidade vulnerável for considerado politicamente tão importante quanto visitá-la depois que foi destruída; quando inaugurar uma obra preventiva produzir orgulho semelhante ao de anunciar recursos emergenciais; quando manter uma infraestrutura for valorizado tanto quanto reconstruí-la; e quando evitar uma tragédia tiver tanto valor público quanto comandar sua resposta. O Marco de Sendai parte justamente da necessidade de prevenir novos riscos, reduzir os existentes e aumentar a resiliência. Traduzida em linguagem administrativa simples, a pergunta dirigida a qualquer gestor público poderia ser esta: antes de visitar o desastre, você conhecia o risco?

❓ Pergunta final

Se a presença do poder público depois do desastre é indispensável, por que ainda é tão difícil transformar o conhecimento prévio do risco em prioridade política, administrativa e orçamentária permanente?

👤 Sobre o autor

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza

Coordenador da Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza é Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF e Professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Universidade Federal de Juiz de Fora. É engenheiro civil pela UFJF, mestre e doutor em Engenharia Civil pela UFF, com especializações em Engenharia de Segurança do Trabalho e Gestão Pública Municipal. Sua atuação acadêmica e aplicada concentra-se em geotecnologias, mapeamento de suscetibilidade e redução de riscos de desastres, articulando pesquisa, formação profissional e fortalecimento institucional da gestão pública.

🔗 Fontes de referência

  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. 2025 Global Status of National Disaster Risk Reduction Strategies: Governance in Action – Towards Resilient and Risk-Informed Development. Geneva: UNDRR, 2025b.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction 2025: Resilience Pays – Financing and Investing for Our Future. Geneva: UNDRR, 2025a.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030. Geneva: United Nations, 2015.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. The Report of the Midterm Review of the Implementation of the Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030. Geneva: United Nations Office for Disaster Risk Reduction, 2023.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. The Sendai Framework Terminology on Disaster Risk Reduction: Recovery. Geneva: UNDRR, 2017.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR; MAKING CITIES RESILIENT 2030 – MCR2030. The Ten Essentials for Making Cities Resilient. UNDRR/MCR2030.