CRÔNICA INSTITUCIONAL | ENGENHARIA PÚBLICA E REDUÇÃO DO RISCO DE DESASTRES
Uma ocorrência acompanhada ainda durante a graduação, em janeiro de 2004, transformou a forma de compreender a engenharia e mostrou que prevenir um desastre pode significar encontrar, a tempo, um elo capaz de ser rompido.
📝 Nota editorial
Este texto parte de uma memória pessoal ocorrida em Juiz de Fora, em janeiro de 2004. As referências científicas foram incorporadas posteriormente para relacionar aquela experiência de campo a conceitos hoje consolidados na redução do risco de desastres, sem substituir ou reinterpretar retrospectivamente aquilo que foi vivido naquele momento.
📌 Em síntese
Em janeiro de 2004, ainda estudante de Engenharia Civil, acompanhei no bairro Nossa Senhora Aparecida, em Juiz de Fora, uma ocorrência na qual um muro tombou sobre uma casa de placas e produziu vítimas. A sequência física parecia compreensível: chuva, água concentrada, encosta, muro e moradia. A dimensão humana, porém, era muito maior que qualquer explicação técnica. Daquela experiência nasceu uma ideia que atravessaria minha trajetória profissional: o desastre pode ser compreendido como uma corrente de causas e vulnerabilidades. Se conseguirmos identificar e romper um de seus elos antes que a sequência se complete, talvez possamos evitar a perda que viria depois.
🏗️ Antes da Defesa Civil, eu imaginava as obras
Durante a graduação em Engenharia Civil, eu imaginava para mim um futuro bastante convencional. Achava que seria engenheiro de obras. Talvez trabalhasse com topografia, levantamentos, projetos e construção. Gostava daquela engenharia concreta, mensurável, em que distâncias podiam ser medidas, estruturas calculadas e problemas técnicos resolvidos.
Era esse o horizonte que eu enxergava para a profissão.
Até janeiro de 2004.
Naquele mês, ainda como estudante de Engenharia Civil, fui ao bairro Nossa Senhora Aparecida, em Juiz de Fora, acompanhar uma ocorrência que acabaria mudando profundamente a maneira como eu compreendia a engenharia e, de certa forma, o rumo que daria à minha vida profissional.
Um muro havia tombado sobre uma casa de placas. Houve vítimas.
Para um estudante de engenharia, parte do que havia acontecido parecia relativamente compreensível. Observando o local, era possível reconstruir uma sequência de acontecimentos. Um telhado direcionava a água da chuva para uma encosta. Na base daquela encosta havia um muro. A água lançada sobre o terreno contribuía para alterar suas condições. O muro não resistiu. Tombou sobre a moradia.
Do ponto de vista da engenharia, eu conseguia enxergar uma sequência causal.
Tecnicamente, aquilo estava relativamente claro para mim. Socialmente, nem um pouco.
“Foi provavelmente naquele dia que comecei a descobrir que compreender o mecanismo físico de um desastre está muito longe de significar compreender o desastre.”
🔎 Quando o cálculo encontra pessoas
Na época, eu ainda não conhecia a literatura sobre vulnerabilidade social, governança de risco ou redução do risco de desastres. Não conhecia modelos conceituais destinados a explicar por que determinados eventos produzem consequências tão diferentes sobre grupos distintos da sociedade.
Décadas mais tarde, encontraria na literatura científica palavras e conceitos capazes de organizar parte daquilo que havia percebido intuitivamente naquele lugar.
Em 1976, Phil O’Keefe, Ken Westgate e Ben Wisner publicaram na revista Nature o texto Taking the naturalness out of natural disasters, que se tornaria uma referência clássica nos estudos de desastres. Os autores chamavam atenção para a necessidade de ir além da explicação baseada exclusivamente no fenômeno físico e considerar as condições sociais e econômicas que influenciam os impactos sobre as populações.
Essa discussão avançaria enormemente nas décadas seguintes. A terminologia contemporânea da redução do risco passou a compreender o desastre a partir da interação entre eventos perigosos, exposição, vulnerabilidade e capacidade. A chuva pode desencadear um processo; a intensidade da perda, entretanto, depende também de quem está exposto, em quais condições e com quais possibilidades de antecipação, proteção e resposta.
Em janeiro de 2004 eu não conhecia esses conceitos. Eu via chuva. Via uma encosta. Via um muro. Via uma casa. E via pessoas. Começava a perceber, porém, que olhar apenas para os primeiros elementos jamais seria suficiente para compreender os últimos.
⛓️ O desastre como uma corrente
Talvez a principal ideia que tenha surgido para mim naquele dia seja muito simples: o desastre é como uma corrente.
Um elo se conecta ao outro. A chuva cai. Um telhado concentra a água. Essa água é direcionada inadequadamente. Atinge uma encosta. As condições do terreno se modificam. Na base da encosta existe um muro. Próximo daquele muro existe uma moradia. Dentro daquela moradia existem pessoas.
Mas, quando ampliamos o olhar, descobrimos que a corrente pode ter começado muito antes.
Por que a água era lançada naquele ponto? Havia infraestrutura de drenagem adequada? A condição do muro poderia ter sido identificada anteriormente? Alguém percebia aquele risco? Havia informação disponível? Havia fiscalização? Havia capacidade institucional para intervir? A família possuía alternativas? Que processos de ocupação produziram aquele território? Que condições sociais fizeram com que determinadas pessoas estivessem expostas justamente ali?
A cada pergunta, aparece um novo elo.
Anos depois, encontrei uma aproximação entre aquela metáfora e o modelo Pressure and Release, conhecido como PAR, apresentado por Wisner, Blaikie, Cannon e Davis. O modelo procura mostrar como causas profundas, pressões dinâmicas e condições inseguras podem se articular até o encontro com uma ameaça e produzir o desastre. Minha corrente não nasceu de um livro. Nasceu olhando para aquele terreno. A literatura, posteriormente, ajudou a compreender por que aquela intuição fazia sentido.
💡 Da sequência física à produção social do risco
Uma ocorrência pode ser observada a partir de sua mecânica imediata — chuva, escoamento, solo, estrutura —, mas a redução do risco exige ampliar o campo de análise. Infraestrutura, ocupação urbana, renda, acesso à informação, governança, fiscalização, percepção de risco e capacidade institucional também participam da construção das condições que antecedem uma perda.
🛡️ Romper um elo antes que a corrente se feche
Foi dessa percepção que surgiu uma ideia que carrego comigo desde então: se conseguirmos romper um dos elos dessa corrente, talvez consigamos evitar o desastre.
Não podemos impedir que chova. Não podemos eliminar todas as encostas. Não podemos impedir todos os fenômenos potencialmente perigosos.
Mas talvez possamos corrigir uma drenagem. Identificar antecipadamente a instabilidade de um terreno. Reforçar ou retirar uma estrutura inadequada. Evitar uma ocupação. Reassentar uma família quando necessário. Realizar uma vistoria. Produzir um mapa. Implantar monitoramento. Emitir um alerta algumas horas antes. Capacitar um agente público. Preparar uma comunidade para reconhecer sinais de perigo. Fazer a informação correta chegar à pessoa correta no momento correto.
Cada uma dessas ações pode representar a interrupção de uma sequência que, se continuasse, produziria uma perda.
Essa forma de compreender o problema dialoga diretamente com aquilo que seria consolidado internacionalmente no Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015–2030. Suas prioridades incluem compreender o risco, fortalecer sua governança, investir na redução do risco para resiliência e ampliar a preparação para uma resposta eficaz.
🛡️ Prevenção é agir antes da emergência
Reduzir riscos não significa esperar a ocorrência e responder com eficiência. Significa também intervir nos fatores que produzem exposição e vulnerabilidade, qualificar decisões públicas, ampliar capacidades locais, conhecer o território e agir enquanto ainda existe tempo para impedir que diferentes condições se conectem em uma tragédia.
💔 Os gritos que ficaram
Nenhuma referência bibliográfica, entretanto, explica completamente o que aconteceu comigo naquele dia.
Durante as ações de busca e salvamento, ouvi os gritos de desespero de uma mãe diante de uma enorme perda.
Mais de vinte anos se passaram. Eles ainda ecoam nos meus pensamentos.
Existem experiências profissionais que terminam quando voltamos para casa. Outras permanecem conosco. Aquela permaneceu.
Eu era apenas um estudante começando a conhecer a profissão e, diante daquela cena, surgiu uma pergunta muito simples: por que ser apenas mais um engenheiro de obras se eu poderia dedicar pelo menos uma parte da minha vida a tentar evitar que aquilo acontecesse novamente?
Não havia naquela reflexão nenhuma pretensão grandiosa. O pensamento era muito mais modesto.
Se durante toda uma trajetória profissional nosso trabalho conseguisse evitar uma única vítima, já teria valido a pena. Uma vida. Uma família que não precisasse receber determinada notícia. Uma mãe que não precisasse dar aquele grito. Talvez isso já fosse suficiente.
“Se conseguirmos evitar uma única vítima, uma única que seja, já terá valido a pena.”
🧠 Também vi um grande engenheiro chorar
Existe outra imagem daquele janeiro de 2004 que jamais esqueci.
Naquele mesmo contexto, vi chorar um grande engenheiro, um profissional com vasta experiência.
Para um estudante, aquela também foi uma aula.
Na universidade somos preparados para calcular, medir, analisar, diagnosticar e decidir. O engenheiro aprende a buscar racionalidade diante dos problemas. Espera-se frequentemente do profissional técnico uma postura de segurança e controle.
Mas quem trabalha com desastres entra em contato com algo que nenhuma formação puramente técnica consegue tornar banal. Há famílias desesperadas. Há destruição. Há medo. Há sofrimento. Há decisões difíceis. E, algumas vezes, há morte.
Existem imagens, sons e histórias que não ficam no local da ocorrência quando a equipe vai embora. Elas nos acompanham.
A literatura científica demonstra que profissionais expostos repetidamente a emergências, operações de resgate e situações traumáticas podem sofrer impactos importantes sobre a saúde mental. A revisão sistemática e meta-análise realizada por Berger e colaboradores identificou prevalência relevante de transtorno de estresse pós-traumático entre trabalhadores de resgate e reforçou a necessidade de medidas preventivas e atenção continuada a esses profissionais.
Eu não conhecia esses estudos naquele dia. Mas vi um engenheiro experiente chorar. E compreendi alguma coisa: quem cuida de pessoas em situações de desastre também precisa ser cuidado.
⚠️ O impacto sobre quem responde
A preparação institucional para desastres também precisa considerar quem trabalha na resposta. Engenheiros, agentes de Defesa Civil, bombeiros, profissionais de saúde, equipes técnicas e voluntários podem acumular experiências emocionalmente intensas. Cuidar desses profissionais não é um tema periférico: é parte da capacidade institucional necessária para manter equipes saudáveis e aptas a proteger outras pessoas.
🏘️ A vulnerabilidade tem endereço
Com o passar dos anos, outra compreensão tornou-se cada vez mais evidente para mim: os riscos não se distribuem de maneira uniforme pelas cidades.
As mesmas chuvas não produzem as mesmas consequências para todos. A mesma ameaça não significa o mesmo risco para pessoas com condições distintas de moradia, renda, infraestrutura, informação, mobilidade, acesso a políticas públicas ou possibilidade de deixar preventivamente um determinado lugar.
Os estudos de Cutter, Boruff e Shirley ajudaram a consolidar a discussão sobre vulnerabilidade social a ameaças ambientais, mostrando que características demográficas, socioeconômicas e territoriais interferem na capacidade das populações de antecipar, resistir e se recuperar de eventos adversos.
No contexto brasileiro, Hummell, Cutter e Emrich analisaram espacialmente a vulnerabilidade social aos riscos, evidenciando diferenças expressivas entre os territórios. Saito e colaboradores, por sua vez, analisaram a população urbana exposta a deslizamentos, inundações e enxurradas no Brasil, reforçando a dimensão humana dos riscos associados à ocupação urbana.
Portanto, quando falamos de redução do risco, não estamos discutindo apenas geologia, hidrologia, estruturas ou drenagem.
Estamos discutindo também desigualdade, acesso à cidade, habitação, infraestrutura e as diferentes possibilidades que as pessoas possuem para escolher onde morar e como se proteger. Estamos discutindo, em última análise, justiça social.
🏛️ Engenharia Pública
É por isso que passei a compreender a atuação em Defesa Civil também como uma forma de Engenharia Pública.
A Engenharia Pública que imagino não é simplesmente a engenharia financiada pelo Estado. É a engenharia colocada conscientemente a serviço do interesse público.
É utilizar conhecimento técnico para que o direito à segurança não dependa exclusivamente da capacidade econômica de cada pessoa. É fazer com que topografia, geotecnia, estruturas, drenagem, cartografia, sensoriamento remoto, geoprocessamento, sistemas de informação e tantas outras áreas do conhecimento deixem de ser apenas instrumentos técnicos e passem a contribuir diretamente para proteger vidas.
Talvez por isso minha relação com algumas ferramentas da engenharia tenha mudado ao longo do tempo.
Um mapa deixou de ser apenas um mapa. Pode mostrar onde estão pessoas que precisam de atenção antes de uma chuva.
Uma coordenada deixou de ser apenas um par de números. Pode representar uma família, uma ocorrência, uma área suscetível ou um ponto onde uma decisão precisa ser tomada.
Uma vistoria deixou de ser apenas um documento. Pode identificar um risco antes que ele se transforme em perda.
Um banco de dados deixou de ser apenas um sistema administrativo. Pode permitir que centenas ou milhares de ocorrências revelem padrões que antes ninguém conseguia enxergar.
Uma obra de drenagem deixou de ser apenas infraestrutura. Pode ser justamente o elo que conseguimos retirar da corrente.
🗺️ Informação também protege vidas
Conhecer ameaças, exposição, vulnerabilidades e capacidades permite transformar dados em decisões. Mapas, sistemas de informação, monitoramento, levantamentos de campo e registros de ocorrências ganham valor quando ajudam instituições e comunidades a reconhecer riscos e agir antes que uma situação crítica se transforme em emergência.
🚨 A Defesa Civil não começa quando toca a sirene
Por muito tempo, a imagem social da Defesa Civil foi construída principalmente ao redor da emergência: a viatura, a fita de isolamento, a sirene, a interdição, a enchente, o deslizamento, o abrigo, a equipe trabalhando debaixo de chuva.
Tudo isso é necessário. Mas tudo isso já acontece quando muitos elos da corrente foram conectados.
A Defesa Civil que precisamos construir começa muito antes.
Começa no planejamento urbano. Na drenagem. Na habitação. Na engenharia. Na manutenção. Na assistência social. Na saúde. Na educação. Na legislação. No conhecimento científico. Na fiscalização. Na organização das informações. No mapeamento. Na comunicação de risco. No monitoramento. Na preparação das comunidades. Na formação dos profissionais. Na estruturação institucional dos municípios.
E, principalmente, na capacidade de transformar conhecimento em decisão pública antes que o desastre aconteça.
🔍 Compreender o risco
Identificar ameaças, exposição, vulnerabilidades e capacidades existentes no território antes da ocorrência.
🏛️ Fortalecer a governança
Articular instituições, responsabilidades, informações, planejamento e capacidade decisória para que o risco seja tratado como política pública permanente.
🛠️ Investir na redução do risco
Executar intervenções estruturais e não estruturais que reduzam exposição, vulnerabilidade e probabilidade de perdas.
📣 Preparar pessoas e instituições
Criar capacidades para monitorar, comunicar, alertar, responder e recuperar com maior segurança quando um evento perigoso ocorrer.
🤝 Nenhuma profissão enxerga todos os elos
Essa visão também modifica a relação entre técnicos e comunidades.
As pessoas que vivem nos territórios não podem ser consideradas apenas destinatárias de ordens ou alertas. Elas conhecem sinais, histórias, transformações e dinâmicas locais que muitas vezes não aparecem em nossos mapas.
Experiências brasileiras estudadas por Marchezini e colaboradores mostram a importância de sistemas participativos de alerta, ciência cidadã e diálogo intergeracional na redução do risco. Esse tipo de abordagem reforça que comunidades não são apenas objetos de uma intervenção técnica; são também produtoras de conhecimento sobre seus próprios territórios.
O engenheiro sabe algumas coisas. O geólogo sabe outras. O meteorologista, outras. O profissional da assistência social possui outro olhar. O agente de Defesa Civil acumula conhecimento construído na prática. E quem vive há décadas naquele território também pode perceber elementos que nenhum de nós encontrará simplesmente olhando uma tela de computador.
Reduzir riscos exige que esses conhecimentos conversem.
🎓 Do campo para a universidade
Minha trajetória profissional acabou passando pela Defesa Civil, pela topografia, pela engenharia, pelos sistemas de informação, pelo geoprocessamento, pela pesquisa e, finalmente, pela universidade.
Talvez exista um fio conectando todas essas experiências.
A pergunta continua sendo a mesma daquele janeiro de 2004: onde está o elo que ainda podemos romper?
No início, eu procurava esse elo diante de uma ocorrência. Um muro. Uma encosta. Uma drenagem. Uma edificação.
Depois comecei a percebê-lo também nos processos administrativos. Na informação que não circulava. No dado que não existia. Na legislação que não era conhecida. Na ausência de planejamento. Na dificuldade de transformar conhecimento técnico em decisão.
E, progressivamente, fui percebendo outro elo extremamente importante: a formação das pessoas que tomam essas decisões.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais a universidade se tornou uma continuação natural daquele caminho iniciado no campo.
Quando formamos um profissional para atuar na Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil, nosso alcance deixa de estar limitado à ocorrência que nós próprios conseguiríamos atender. Aquele profissional retornará ao seu território, participará de decisões, estruturará processos, produzirá ou utilizará informações, analisará riscos, dialogará com comunidades e articulará diferentes áreas do poder público.
Talvez identifique uma drenagem inadequada. Talvez organize um banco de dados. Talvez reconheça antecipadamente uma condição perigosa. Talvez consiga melhorar um plano de contingência. Talvez contribua para uma evacuação na hora certa. Talvez transforme a maneira como uma instituição inteira trabalha.
E talvez nunca saibamos quantas tragédias deixaram de acontecer por causa disso.
“Existe uma característica silenciosa na prevenção: quando ela funciona plenamente, seu resultado mais importante é justamente aquilo que não aconteceu.”
🌱 O valor invisível da prevenção
Não existe fotografia da casa que não caiu.
Não existe manchete sobre a família que não morreu.
Não existe cobertura jornalística da encosta estabilizada antes do período chuvoso, da drenagem corrigida antes da próxima tempestade, da vistoria que identificou o problema a tempo ou da decisão administrativa que impediu a ocupação de uma área inadequada.
É muito mais fácil contar perdas do que contabilizar aquilo que a prevenção conseguiu evitar.
Mas são precisamente essas perdas que não ocorreram que dão sentido à redução do risco.
🧩 De um muro para uma compreensão muito maior
Hoje consigo olhar retrospectivamente para aquele estudante de janeiro de 2004.
Ele enxergava uma sequência relativamente simples: chuva → telhado → água → encosta → muro → casa → vítimas.
Era uma leitura de engenharia.
Com o passar dos anos, essa sequência tornou-se muito maior: ameaça → exposição → vulnerabilidade → território → desigualdade → infraestrutura → percepção de risco → informação → governança → capacidade institucional → prevenção → preparação → resposta.
O muro continuou existindo. A chuva continuou existindo. A encosta continuou existindo. Mas descobri que havia muitos outros elos que eu ainda não conseguia enxergar naquele primeiro dia.
Talvez seja isso que mais de duas décadas trabalhando e estudando o tema tenham me ensinado: desastres são problemas complexos demais para caberem dentro de uma única profissão.
A engenharia é fundamental. Mas não basta.
A redução do risco precisa conversar com as ciências sociais, saúde, educação, meteorologia, geologia, geografia, direito, administração pública, comunicação, planejamento urbano, tecnologia e, sobretudo, com as comunidades. Não se constrói resiliência apenas com concreto. Também se constrói com conhecimento, instituições, confiança, participação, memória, preparação e decisão política.
❤️ A pergunta para a qual a engenharia não tem resposta
Há, entretanto, uma pergunta para a qual toda essa trajetória profissional e acadêmica nunca conseguiu produzir uma resposta.
Às vezes penso naquela mãe.
Não sei se algum dia voltarei a encontrá-la.
Mas frequentemente me pergunto o que eu poderia lhe dizer se um dia ela estivesse diante de mim.
Poderia explicar tecnicamente o que aconteceu naquele terreno. Poderia falar sobre drenagem, água, solo, estabilidade, estruturas, vulnerabilidade e gestão de risco. Poderia mostrar livros, artigos científicos, mapas e modelos que hoje me permitem compreender muito melhor aquilo que aconteceu.
Nada disso devolveria aquilo que ela perdeu.
Talvez, diante dela, todas essas palavras perdessem a importância. Talvez eu não tivesse nada a dizer. Talvez pudesse apenas ouvi-la.
Mas, se tivesse que lhe contar alguma coisa, talvez pudesse dizer que seus gritos não terminaram naquele janeiro de 2004.
Um estudante de Engenharia Civil os ouviu. E nunca os esqueceu.
Eles atravessaram os anos. Acompanharam aquele estudante quando se tornou engenheiro. Estiveram presentes quando trabalhou com Defesa Civil. Quando entrou em uma sala de aula. Quando estudou riscos. Quando produziu mapas. Quando desenvolveu sistemas. Quando participou da formação de profissionais. Quando escreveu sobre prevenção.
E, de alguma maneira, ajudaram aquele estudante a decidir o tipo de engenheiro que gostaria de tentar ser.
Não alguém capaz de impedir todos os desastres. Isso seria impossível.
Mas alguém disposto a continuar procurando o elo que ainda pode ser rompido antes que a corrente se feche.
❓ Pergunta final
Se conseguirmos enxergar os elos que conectam ameaça, vulnerabilidade, território, decisões e pessoas, quantas perdas ainda poderemos evitar antes que uma nova corrente se feche?
Talvez nunca saibamos o nome de todas as pessoas que a prevenção conseguiu proteger. Mas continuo acreditando naquilo que pensei, de forma muito mais simples, naquele janeiro de 2004: se todo esse trabalho conseguir evitar uma única vítima, uma única que seja, já terá valido a pena.
👤 Sobre o autor
Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza
Coordenador da Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF
Professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF. É engenheiro civil formado pela UFJF, mestre e doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal Fluminense, com especializações em Engenharia de Segurança do Trabalho e Gestão Pública Municipal. Sua atuação prática e de pesquisa concentra-se em geotecnologias, mapeamento de suscetibilidade e redução de riscos de desastres, articulando engenharia, informação territorial, gestão pública e formação profissional.
🔗 Fontes de referência
- Taking the naturalness out of natural disasters – O’Keefe, Westgate e Wisner, Nature, 1976.
- Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030 – United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNDRR), 2015.
- Social Vulnerability to Environmental Hazards – Cutter, Boruff e Shirley, Social Science Quarterly, 2003.
- Social Vulnerability to Natural Hazards in Brazil – Hummell, Cutter e Emrich, International Journal of Disaster Risk Science, 2016.
- Urban population exposed to risks of landslides, floods and flash floods in Brazil – Saito e colaboradores, Sociedade & Natureza, 2019.
- Rescuers at risk: prevalence and correlates of PTSD in rescue workers – Berger e colaboradores, Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 2012.
- Participatory Early Warning Systems: Youth, Citizen Science, and Intergenerational Dialogues on Disaster Risk Reduction in Brazil – Marchezini e colaboradores, International Journal of Disaster Risk Science, 2017.
- WISNER, B.; BLAIKIE, P.; CANNON, T.; DAVIS, I. At Risk: Natural Hazards, People’s Vulnerability and Disasters. 2. ed. London: Routledge, 2004.