Análise científica | Dados, desastres relacionados à água e gestão de riscos
Estudo publicado em 2026 analisa quase 60 mil registros de desastres relacionados à água no Brasil e chama atenção para um desafio central da gestão de riscos: compreender os dados sem confundir aumento dos registros com aumento automático da ocorrência de desastres.
📝 Nota editorial
Este artigo apresenta uma análise educacional elaborada a partir do estudo científico “Water-related disasters in Brazil: an assessment from 1991 to 2024”, publicado em 2026 na revista Environmental Research Letters. O texto busca discutir implicações dos resultados para a gestão de riscos, a proteção e defesa civil e o planejamento para a resiliência. As interpretações apresentadas neste artigo não substituem a leitura integral da publicação científica.
📌 Em síntese
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Environmental Research Letters apresenta um amplo panorama dos desastres relacionados à água no Brasil entre 1991 e 2024. A pesquisa analisou 59.658 registros oficiais envolvendo inundações, tempestades, movimentos de massa e secas, utilizando principalmente dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil [1].
🌎 Trinta e quatro anos de desastres relacionados à água
Os números apresentados pela pesquisa ajudam a dimensionar a relevância do tema para o Brasil.
📋 59.658 registros
Ocorrências oficiais de inundações, tempestades, movimentos de massa e secas analisadas entre 1991 e 2024.
Entretanto, talvez uma das contribuições mais importantes do estudo esteja justamente no cuidado necessário para interpretar esses números.
📈 O aumento dos registros não conta toda a história
A série histórica apresenta crescimento expressivo no número de desastres registrados.
Uma leitura imediata poderia associar essa tendência exclusivamente à intensificação dos eventos extremos e às mudanças climáticas.
A realidade, porém, é mais complexa.
💻 O Brasil também passou a registrar melhor os desastres
Os autores destacam que a capacidade brasileira de registrar desastres mudou significativamente ao longo das últimas décadas.
O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) representou um avanço importante na sistematização das informações, mas sua adoção pelos municípios ocorreu de forma gradual.
Isso significa que parte do crescimento observado nas estatísticas está relacionada à melhoria dos instrumentos de registro e à ampliação da capacidade institucional dos municípios para documentar os impactos dos desastres.
O próprio estudo realizou uma análise estatística de mudança na série temporal.
Embora 2013 tenha marcado o início operacional do S2ID, a ruptura estatisticamente mais significativa foi identificada em 2019, período em que a plataforma já apresentava maior consolidação entre os municípios brasileiros.
Mais registros não significam, necessariamente, que todo o crescimento observado corresponda a mais desastres na mesma proporção.
Da mesma forma, poucos registros não significam ausência de risco.
⚠️ O silêncio dos dados também precisa ser interpretado
Outro aspecto relevante destacado pelos pesquisadores é a desigualdade na capacidade dos municípios de produzir informações sobre os desastres.
Municípios com estruturas de Defesa Civil mais organizadas, equipes capacitadas e melhores recursos institucionais podem apresentar maior quantidade de registros simplesmente porque possuem melhores condições de identificar, documentar e comunicar as ocorrências.
Por outro lado, municípios com baixa capacidade institucional podem vivenciar eventos adversos e impactos significativos sem que essas informações sejam plenamente incorporadas às bases nacionais.
A ausência de registros, portanto, não permite concluir automaticamente que determinado município não tenha enfrentado desastres.
🏛️ A capacidade institucional também interfere na informação
A própria pesquisa menciona estimativa segundo a qual cerca de 1.660 municípios brasileiros não possuem Defesa Civil organizada.
Esse problema cria um desafio importante para a gestão de riscos.
Os mapas e bancos de dados disponíveis não representam apenas a distribuição territorial das ameaças e dos impactos.
Em alguma medida, eles também refletem a capacidade institucional dos municípios de observar, registrar e comunicar os desastres.
Para interpretar corretamente uma base histórica de desastres, é necessário compreender também como, quando e por quem os dados foram produzidos.
🔗 Os desastres raramente acontecem de forma isolada
O artigo também chama atenção para uma limitação importante dos sistemas tradicionais de classificação de desastres.
Eventos extremos podem envolver diferentes ameaças simultâneas ou encadeadas.
Uma chuva intensa, por exemplo, pode provocar saturação do solo, movimentos de massa, obstrução de sistemas de drenagem, alagamentos, interrupção de vias e isolamento de comunidades.
🌧️ Uma chuva, diferentes processos e múltiplos impactos
Apesar dessa complexidade, os sistemas oficiais frequentemente precisam associar uma ocorrência a uma categoria predominante.
Essa forma de organização facilita a classificação e a sistematização dos dados, mas pode não representar integralmente a dinâmica territorial de eventos complexos.
Os pesquisadores destacam limitações dos registros disponíveis para representar eventos concorrentes e defendem a necessidade de uma abordagem multiameaças (multi-hazard).
⛰️ Saturação do solo e movimentos de massa
A água modifica as condições do terreno e pode contribuir para instabilidades em encostas.
Essa discussão é particularmente relevante diante das mudanças climáticas.
A gestão contemporânea de riscos não pode considerar apenas eventos isolados. É necessário compreender as relações entre ameaças, exposição, vulnerabilidades e capacidades locais, além dos possíveis efeitos em cascata produzidos por eventos extremos.
🗺️ Um país amplamente exposto aos desastres relacionados à água
Os resultados demonstram a abrangência territorial do problema.
Dos 5.570 municípios brasileiros, 5.097 registraram pelo menos um desastre relacionado à água entre 1991 e 2024. Isso corresponde a 91,51% dos municípios do país.
📊 Diferentes ameaças, diferentes padrões de impacto
☀️ Secas
Representam a maior quantidade de registros, com 31.984 ocorrências, correspondendo a aproximadamente 54% dos eventos analisados.
Também concentram a maior parcela das perdas econômicas, estimadas em US$ 72,5 bilhões.
🌊 Inundações
Estão associadas ao maior número de mortes: 2.662 óbitos, aproximadamente 56% das fatalidades registradas entre as quatro categorias analisadas.
📍 O Sudeste e a concentração de impactos fatais
No Sudeste, as inundações foram responsáveis por 5.285 registros e 1.632 mortes.
Os movimentos de massa contabilizaram 1.003 ocorrências e 579 mortes, evidenciando a relevância desses processos para a gestão de riscos na região.
📚 Dados são fundamentais, mas precisam ser interpretados
O estudo reforça a importância da consolidação de sistemas nacionais de informação sobre desastres.
Sem dados, torna-se extremamente difícil planejar políticas de prevenção, definir prioridades territoriais ou avaliar os resultados das ações de redução de riscos.
Entretanto, bancos de dados não são representações neutras e completas da realidade.
A qualidade da informação depende da capacidade de identificar o evento, realizar levantamentos, classificar adequadamente os processos envolvidos e registrar seus impactos.
Também depende da existência de equipes locais capacitadas e de estruturas institucionais capazes de manter essas informações atualizadas.
Fortalecer os órgãos municipais de proteção e defesa civil significa também melhorar a capacidade do país de conhecer seus próprios riscos.
🔄 Do registro do desastre ao planejamento para a resiliência
A principal contribuição da pesquisa talvez esteja em demonstrar que a informação sobre desastres precisa ser compreendida como parte do próprio processo de gestão de riscos.
Registrar ocorrências é fundamental.
Mas o desafio atual é avançar da simples contabilização dos eventos para uma compreensão territorial integrada.
🧩 Integrar dados para compreender o território
Avançar na gestão de riscos exige relacionar os registros históricos de desastres com diferentes dimensões da realidade territorial.
Também é necessário reconhecer que um território pode estar submetido simultaneamente a diferentes ameaças e que os impactos de um evento podem desencadear novos problemas.
🧠 Transformar dados em conhecimento e conhecimento em decisão
A construção de cidades mais resilientes depende não apenas de responder melhor aos desastres já ocorridos.
Depende de transformar dados em conhecimento territorial e conhecimento em decisão pública.
🎓 O que o estudo ensina para a gestão de riscos?
O estudo sobre os desastres relacionados à água no Brasil entre 1991 e 2024 oferece uma importante contribuição para o debate sobre informação, planejamento e redução de riscos.
Seus resultados mostram a dimensão dos impactos acumulados no país, mas também evidenciam os limites das informações disponíveis.
1. Crescimento dos registros exige interpretação
Mudanças nos sistemas de informação e na capacidade de registro dos municípios podem influenciar significativamente as séries históricas.
2. Ausência de registro não significa ausência de risco
Territórios com menor capacidade institucional podem estar sub-representados nas bases oficiais.
❓ Pergunta final
Quando observamos um mapa histórico de desastres, estamos vendo apenas onde os desastres ocorreram — ou também onde existia capacidade institucional para identificá-los, registrá-los e transformá-los em informação?