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Gestão de riscos, cooperação internacional e soberania técnico-científica


Por que fortalecer universidades públicas brasileiras é tão importante quanto importar metodologias, imagens e tecnologias

Prof. Jordan Henrique de Souza

A gestão de riscos e desastres tornou-se uma das agendas mais urgentes do século XXI. Eventos extremos, deslizamentos, inundações, erosões, colapsos de infraestrutura, estiagens prolongadas e múltiplas formas de vulnerabilidade urbana desafiam municípios, estados, universidades, defesas civis e comunidades em todo o país.

Diante desse cenário, a cooperação internacional pode desempenhar papel relevante. Intercâmbios técnicos, acesso a bases de dados, imagens de alta resolução, metodologias consolidadas, formação de equipes e parcerias entre instituições são instrumentos importantes para ampliar capacidades nacionais.

No entanto, é necessário formular uma pergunta incômoda, mas indispensável: quando a cooperação internacional fortalece as capacidades locais e quando ela apenas reforça uma lógica de dependência técnico-científica?

Ciência, cooperação e valorização das capacidades nacionais

Essa pergunta não deve ser entendida como rejeição ao conhecimento produzido em outros países. Ao contrário: a ciência avança pelo diálogo, pela circulação de métodos e pela cooperação entre instituições. O problema surge quando o conhecimento externo é tratado, de antemão, como superior, inovador ou mais legítimo, enquanto capacidades já existentes no Brasil permanecem subfinanciadas, invisibilizadas ou acionadas apenas de forma complementar.

Em gestão de riscos, essa discussão é especialmente sensível. Mapear áreas suscetíveis a deslizamentos, produzir cartas de perigo, interpretar imagens de satélite, elaborar diagnósticos territoriais, realizar trabalhos de campo, construir planos de contingência e formular políticas preventivas não são tarefas desconhecidas pelas universidades públicas brasileiras.

Também não são estranhas a institutos nacionais, centros de pesquisa, órgãos geológicos, defesas civis, laboratórios de geotecnia, grupos de sensoriamento remoto, pesquisadores em planejamento urbano, saúde coletiva, educação, engenharia, geografia, arquitetura, comunicação e ciências sociais.

O Brasil tem conhecimento técnico

O que frequentemente falta é financiamento continuado, estrutura institucional, valorização profissional, integração entre políticas públicas e condições permanentes de trabalho.

Cooperação internacional não pode substituir capacidade nacional

A cooperação internacional é bem-vinda quando amplia capacidades locais. Ela se torna problemática quando substitui, hierarquiza ou invisibiliza conhecimentos já produzidos no território.

Em gestão de riscos, o conhecimento territorial é decisivo. Uma imagem de alta resolução pode revelar cicatrizes, taludes, cursos d’água, ocupações, cortes e padrões de drenagem. Um modelo digital de terreno pode indicar declividades, concavidades, rupturas de relevo e áreas de concentração de fluxo. Um método estatístico pode estimar suscetibilidades. Um protocolo internacional pode organizar etapas de diagnóstico.

Mas nenhum desses elementos, isoladamente, compreende o território.

O risco não está apenas na encosta. Está também na forma de ocupação, na ausência de drenagem, no histórico de intervenções, na precariedade habitacional, na informalidade fundiária, na memória dos moradores, no padrão de mobilidade, no acesso aos serviços públicos, nas decisões de planejamento urbano e na capacidade institucional de agir antes do desastre.

Esse conhecimento não se importa pronto. Ele é produzido no contato com o território, nas universidades locais, nas equipes municipais, nos órgãos públicos, nas comunidades, nas escolas, nas unidades de saúde, nas defesas civis e nos processos de participação social.

Continuidade, financiamento e adaptação local

Por isso, uma política séria de gestão de riscos não pode depender apenas de projetos pontuais, visitas técnicas ou convênios de curta duração. Ela precisa de continuidade. Precisa formar pessoas. Precisa manter laboratórios. Precisa financiar pesquisa aplicada. Precisa remunerar equipes. Precisa transformar conhecimento em rotina institucional.

Além disso, é preciso reconhecer que tecnologias, metodologias e protocolos não circulam no vazio. Eles são produzidos em contextos culturais, institucionais, jurídicos, territoriais e históricos específicos. O que funciona bem em um país não necessariamente será adequado a outro sem mediação crítica, adaptação e validação local.

A forma de ocupação urbana, a relação entre população e Estado, os padrões de informalidade, a capacidade administrativa dos municípios, os instrumentos legais, a cultura de prevenção, o acesso à moradia e até a confiança social nas instituições variam profundamente entre países. Em gestão de riscos, importar uma metodologia sem compreender essas diferenças pode produzir diagnósticos tecnicamente sofisticados, mas socialmente frágeis. Por isso, cooperação internacional não deve significar simples transferência de soluções, mas construção compartilhada, situada e culturalmente sensível.

A assimetria da inovação

Há uma assimetria recorrente na forma como a inovação é narrada. Muitas vezes, uma técnica, base de dados ou metodologia só recebe visibilidade quando chega associada a uma instituição estrangeira, ainda que temas semelhantes já venham sendo pesquisados há anos em universidades brasileiras.

Esse fenômeno não se limita à gestão de riscos. Ele atravessa diversas áreas do conhecimento. Mas, no campo dos desastres, seus efeitos podem ser particularmente graves, porque a falta de reconhecimento das capacidades nacionais compromete a construção de políticas públicas permanentes.

Quando uma tecnologia externa é apresentada como solução inédita, corre-se o risco de apagar trajetórias locais de pesquisa, extensão, formação e atuação territorial. Corre-se também o risco de reforçar a ideia de que o país precisa sempre importar diagnóstico, metodologia e autoridade técnica, em vez de financiar adequadamente quem já trabalha com esses problemas a partir da realidade brasileira.

Esse processo pode ser compreendido como uma forma de colonialismo técnico-científico. Não se trata de rejeitar o conhecimento produzido em outros países, nem de formular uma acusação dirigida a pessoas, instituições ou nações específicas. Trata-se de reconhecer uma estrutura simbólica e institucional na qual o conhecimento externo tende a ser mais valorizado, legitimado e financiado do que o conhecimento produzido internamente, especialmente quando este vem de universidades públicas, grupos locais e equipes que atuam diretamente em territórios vulnerabilizados.

O risco dos projetos-vitrine

Projetos de cooperação podem gerar resultados importantes. Podem trazer dados, capacitação, equipamentos, metodologias e novas redes de colaboração. O problema aparece quando a visibilidade do projeto se torna maior do que sua capacidade de deixar legado.

Em gestão de riscos, o critério principal não deve ser a solenidade da parceria, a origem internacional da metodologia ou a sofisticação do discurso tecnológico. O critério deve ser o legado público.

Ao final de uma cooperação, é preciso perguntar:

A metodologia ficou disponível para as equipes locais?
Os dados foram compartilhados de forma aberta ou, ao menos, institucionalmente acessível?
Os produtos gerados podem ser usados pela Defesa Civil, pelo planejamento urbano, pela habitação, pela saúde e pela educação?
Houve formação de técnicos brasileiros?
As universidades públicas nacionais participaram como protagonistas?
A comunidade foi ouvida?
Os mapas dialogam com o território real?
O município ganhou capacidade permanente ou apenas recebeu um relatório?
O projeto fortaleceu a soberania técnico-científica ou ampliou a dependência?

Essas perguntas são fundamentais porque a gestão de riscos não pode ser tratada como vitrine. Ela não se resume a imagens de satélite, mapas coloridos, painéis digitais ou missões técnicas. Esses instrumentos são úteis, mas só produzem proteção real quando conectados a políticas públicas, orçamento, manutenção, fiscalização, educação, planejamento urbano, comunicação de risco e participação social.

A tragédia não espera a publicação do relatório final

A população em área de risco não é beneficiada apenas pela existência de um diagnóstico. Ela precisa que o diagnóstico se transforme em ação.

Tecnologia sem política pública não reduz risco

Há uma tentação contemporânea de transformar toda discussão sobre riscos em discussão sobre tecnologia. Fala-se em inteligência artificial, imagens de alta resolução, sensores, drones, satélites, modelos preditivos, plataformas digitais e monitoramento em tempo real.

Esses recursos são importantes. Ignorá-los seria um erro. Mas também é um erro acreditar que tecnologia, sozinha, reduz risco.

Uma imagem de satélite pode melhorar o diagnóstico. Um modelo pode indicar áreas críticas. Um sistema de alerta pode antecipar uma situação perigosa. Mas, se o município não tem equipe, se a Defesa Civil está precarizada, se o planejamento urbano não incorpora os mapas, se não há política habitacional, se a drenagem não é mantida, se a população não participa e se os dados não orientam decisões, a tecnologia se transforma em ornamento.

O risco de desastre é socialmente produzido. Portanto, sua redução exige mais do que instrumentos técnicos. Exige governança, financiamento, continuidade e justiça territorial.

A universidade pública como capacidade permanente

A universidade pública tem papel central nesse processo. Ela produz conhecimento, forma profissionais, desenvolve metodologias, executa projetos de extensão, apoia municípios, avalia políticas públicas e constrói pontes entre ciência e sociedade. Em muitos casos, é a universidade que permanece no território quando os projetos pontuais terminam.

Por isso, qualquer agenda séria de cooperação internacional deveria incluir, necessariamente, o fortalecimento das universidades públicas brasileiras e das instituições nacionais de ciência, tecnologia e inovação.

Soberania de dados e soberania de interpretação

A discussão sobre gestão de riscos também é uma discussão sobre soberania de dados.

Quem produz os dados?
Quem define os critérios de análise?
Quem controla o acesso às imagens?
Quem interpreta o território?
Quem valida os mapas?
Quem decide quais áreas são prioritárias?
Quem transforma o diagnóstico em política pública?

Em um mundo marcado por plataformas digitais, satélites comerciais, bases proprietárias e sistemas de inteligência artificial, o controle sobre dados territoriais tornou-se estratégico. Países que não investem em suas próprias capacidades de observação, processamento e interpretação tendem a se tornar dependentes de pacotes tecnológicos externos.

Isso não significa recusar dados internacionais. Significa garantir que eles sejam incorporados a uma estratégia nacional de fortalecimento técnico, científico e institucional.

A soberania não está em fechar portas. Está em negociar de forma madura, cooperar sem subordinação e assegurar que o conhecimento produzido sirva ao interesse público.

Soberania técnico-científica

No campo dos riscos e desastres, soberania técnico-científica significa capacidade de conhecer o próprio território, formar seus próprios quadros, manter seus próprios sistemas, interpretar seus próprios dados e tomar decisões com base em evidências, participação social e responsabilidade pública.

O papel das universidades federais

As universidades federais brasileiras possuem enorme potencial para contribuir com a redução de riscos e desastres. Elas estão distribuídas pelo território nacional, conhecem realidades regionais diversas, formam profissionais em áreas estratégicas e acumulam experiência em pesquisa, ensino e extensão.

Engenharia, geografia, arquitetura e urbanismo, geologia, ciência da computação, saúde coletiva, serviço social, pedagogia, comunicação, direito, administração pública e ciências ambientais são apenas algumas das áreas envolvidas nessa agenda.

Reduzir riscos exige interdisciplinaridade. Exige diálogo entre o cálculo da estabilidade de encostas e a realidade social das famílias que vivem nesses locais. Exige compreender chuvas extremas, mas também compreender por que determinadas populações ocupam áreas vulneráveis. Exige mapear suscetibilidades, mas também construir políticas de adaptação, educação, alerta, reassentamento, obras e proteção social.

Poucas instituições têm tanta capacidade de articular essas dimensões quanto as universidades públicas.

Ainda assim, muitas vezes essas instituições são chamadas a atuar sem financiamento adequado, sem bolsas suficientes, sem infraestrutura compatível, sem continuidade de projetos e sem reconhecimento proporcional à relevância de seu trabalho.

Cooperação sim, dependência não

O debate não deve ser colocado em termos simplistas. Não se trata de escolher entre cooperação internacional e investimento nacional. O país precisa dos dois.

A cooperação internacional pode ser virtuosa quando promove intercâmbio real, acesso a dados, formação de equipes, desenvolvimento conjunto de metodologias e fortalecimento institucional. Ela pode ajudar a acelerar processos, ampliar repertórios e aproximar o Brasil de experiências relevantes em outros contextos.

Mas a cooperação deve ser complementar, não substitutiva. Deve fortalecer capacidades locais, não ocupá-las. Deve reconhecer a produção científica nacional, não apagá-la. Deve compartilhar dados e métodos, não criar dependência. Deve envolver universidades públicas brasileiras como parceiras estratégicas, não como espectadoras.

Princípios para uma cooperação ética em gestão de riscos

1. Fortalecer instituições nacionais e locais.
2. Garantir transferência efetiva de conhecimento.
3. Compartilhar dados, produtos e metodologias sempre que possível.
4. Envolver universidades públicas e equipes técnicas brasileiras desde a concepção do projeto.
5. Valorizar o conhecimento territorial e comunitário.
6. Produzir resultados aplicáveis às políticas públicas.
7. Deixar capacidade instalada após o encerramento da cooperação.
8. Evitar narrativas que tratem o conhecimento externo como solução superior por princípio.
9. Contribuir para a autonomia técnica do país.
10. Transformar diagnóstico em ação preventiva.

Sem esses princípios, a cooperação corre o risco de se transformar em espetáculo institucional: muita visibilidade, pouco legado.

Gestão de riscos é política de Estado

O Brasil precisa superar a lógica reativa dos desastres. Não basta mobilizar recursos depois da tragédia. É necessário investir antes: em prevenção, planejamento, monitoramento, educação, infraestrutura, habitação, drenagem, ciência, tecnologia e participação social.

Isso exige tratar a gestão de riscos como política de Estado, não como agenda episódica.

Convênios internacionais podem contribuir. Mas não substituem orçamento público regular, carreiras técnicas estruturadas, universidades financiadas, laboratórios equipados, bolsas de pesquisa, sistemas de informação integrados e municípios com capacidade de implementar ações.

A valorização da ciência nacional não é uma questão corporativa. É uma questão de soberania, eficiência e justiça social. Quando o conhecimento produzido nas universidades públicas é subfinanciado ou ignorado, perde-se a oportunidade de construir soluções enraizadas na realidade brasileira.

Para além da importação de soluções

A gestão de riscos no Brasil não precisa ser pensada como importação de soluções prontas. Ela deve ser construída como combinação entre conhecimento global, ciência nacional e experiência territorial.

O país pode aprender com o mundo, mas também tem muito a ensinar. A complexidade urbana brasileira, a diversidade socioambiental, a experiência acumulada em defesa civil, os trabalhos de extensão universitária, os sistemas nacionais de monitoramento, os grupos de pesquisa e as práticas comunitárias formam um patrimônio técnico e social que não pode ser tratado como secundário.

A pergunta que deve orientar as próximas décadas não é apenas: “qual tecnologia podemos trazer de fora?”

A pergunta mais importante é: “como transformar conhecimento em capacidade pública permanente?”

Conclusão: aprender com o mundo, investir no Brasil

A cooperação internacional é necessária e bem-vinda quando construída em bases horizontais, transparentes e comprometidas com o fortalecimento das capacidades locais. Mas ela não pode servir como substituta para o investimento nas universidades públicas brasileiras, nos institutos nacionais, nas defesas civis e nas equipes municipais.

O Brasil não precisa escolher entre dialogar com o mundo e valorizar sua própria ciência. Precisa fazer as duas coisas. Mas precisa fazê-las com equilíbrio, soberania e responsabilidade.

Em gestão de riscos, o verdadeiro avanço não está apenas em obter imagens mais detalhadas, importar metodologias ou realizar missões técnicas. O avanço está em construir uma política pública capaz de transformar dados em decisão, ciência em prevenção e conhecimento em proteção da vida.

A gestão de riscos do futuro não será construída apenas com tecnologia. Será construída com soberania técnico-científica, financiamento contínuo, compromisso público e respeito aos territórios.

Cooperar é importante. Depender é perigoso.

Fortalecer a ciência pública brasileira é indispensável.

Esse talvez seja o maior desafio: não apenas mapear áreas de risco, mas enfrentar o risco de um país que reconhece a importância da ciência somente quando ela vem de fora.