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Jornalismo, prevenção e redução de riscos: por que a pauta não pode começar apenas quando já há barro na rua

ARTIGO DE OPINIÃO | PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL

Ao ampliar o olhar para o período anterior, posterior e estrutural dos eventos críticos, a cobertura jornalística pode fortalecer a percepção de risco, qualificar o debate público e contribuir para a proteção de vidas.

📌 Em síntese

A cobertura de grandes desastres costuma ganhar força quando já há danos visíveis, famílias afetadas e operações de resposta em curso. O problema é que, ao concentrar a atenção apenas nesse momento, parte relevante do debate sobre riscos, vulnerabilidades, capacidade institucional e prevenção permanece fora da agenda pública. O argumento central deste texto é que o jornalismo pode desempenhar papel decisivo na redução do risco de desastres ao investigar o que acontece antes da chuva intensa, durante os períodos de estiagem e também no pós-desastre, acompanhando planos, obras, investimentos, preparação comunitária e reconstrução. Tornar visível o que evita danos também é uma forma de proteger vidas.

🎥 A presença indispensável da imprensa nos eventos críticos

Há uma cena que se repete em praticamente todos os grandes desastres: chuva intensa, ruas alagadas, encostas rompidas, famílias retiradas de suas casas, equipes de resgate trabalhando, máquinas abrindo acessos e autoridades concedendo entrevistas. Junto de tudo isso, estão os profissionais da imprensa. Repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e comunicadores muitas vezes chegam quando as condições ainda são difíceis, entram em áreas afetadas, conversam com moradores, mostram necessidades urgentes, divulgam alertas e ajudam a dar visibilidade a situações que, sem a cobertura jornalística, talvez demorassem muito mais a receber atenção.

Esse trabalho é indispensável. A questão proposta, porém, não é uma crítica à imprensa, mas um convite à ampliação de seu papel no campo da Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil. Se o jornalismo possui grande capacidade de mobilizar a opinião pública, talvez essa potência ainda esteja subutilizada na tarefa de tornar perceptíveis os processos, as omissões e as decisões que antecedem os desastres.

⚠️ O problema da visibilidade tardia

Quando o debate público sobre riscos só começa após os danos materiais e humanos já estarem instalados, perde-se justamente a janela mais importante para intervenção: o período em que ainda havia tempo para agir, planejar, corrigir vulnerabilidades e reduzir exposição.

📸 A prevenção quase nunca produz imagens espetaculares

Uma operação de resgate produz imagens fortes. Uma retroescavadeira removendo escombros também. Um helicóptero sobrevoando uma área atingida chama atenção. A distribuição de água, alimentos e colchões é facilmente registrada. Já a prevenção enfrenta um obstáculo comunicacional importante: quando funciona, muitas vezes nada acontece.

A obra de drenagem corretamente dimensionada resulta na rua que não alagou. A contenção executada a tempo resulta na encosta que permaneceu estável. O reassentamento de uma família resulta na casa que não desabou sobre seus moradores. O sistema de alerta corretamente estruturado resulta na evacuação realizada antes que seja necessário resgatar alguém. A prevenção bem-sucedida produz, paradoxalmente, a ausência da notícia, o que torna ainda mais importante discutir como o jornalismo pode incorporar a redução de riscos em suas pautas permanentes.

“A prevenção bem-sucedida produz, paradoxalmente, a ausência da notícia.”

🌧️ O desastre não começa quando começa a chover

Um dos avanços conceituais mais importantes da redução do risco de desastres foi compreender que os danos não podem ser explicados exclusivamente pela ocorrência de uma ameaça. Chuvas intensas, secas, ondas de calor, movimentos de massa e inundações podem funcionar como gatilhos. Mas a magnitude das consequências depende também da exposição das pessoas, das vulnerabilidades existentes e da capacidade das instituições e comunidades para compreender, reduzir e administrar esses riscos.

Essa perspectiva aparece de forma clara no Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015–2030, adotado pelos Estados-membros das Nações Unidas, que coloca entre suas prioridades compreender o risco, fortalecer sua governança, investir na redução do risco e melhorar a preparação para resposta e recuperação. Nesse sentido, uma das contribuições mais relevantes da imprensa pode ser deslocar parte das perguntas feitas depois do desastre para o período em que ainda há tempo para agir.

📊 Quatro prioridades do Marco de Sendai

Compreender o risco de desastres, fortalecer a governança do risco, investir em redução de riscos e melhorar a preparação para resposta e recuperação são eixos que ajudam a orientar tanto a gestão pública quanto a cobertura jornalística qualificada sobre o tema.

🕵️ Quando tudo é chamado de “inédito”

Depois de um grande evento, algumas palavras aparecem com enorme frequência: “inesperado”, “imprevisível”, “jamais visto”, “ninguém poderia imaginar”. Em alguns casos, é verdade que determinados fenômenos apresentam intensidades extraordinárias ou superam registros históricos. Mas a excepcionalidade da ameaça não significa, necessariamente, que a vulnerabilidade do território fosse desconhecida.

É nesse ponto que o jornalismo investigativo pode oferecer contribuição extraordinária. Antes de aceitar automaticamente a narrativa da surpresa, cabe perguntar se existiam mapas de risco, registros anteriores de ocorrências, conhecimento prévio dos pontos vulneráveis pelos órgãos públicos, recomendações técnicas, obras previstas, recursos destinados e continuidade da ocupação de áreas já identificadas como expostas. Essas perguntas mudam completamente a forma como compreendemos um desastre.

💡 Perguntas que deslocam a narrativa

Investigar se havia conhecimento técnico prévio, planejamento, orçamento, fiscalização e medidas preventivas executadas permite substituir a lógica da surpresa pela análise das vulnerabilidades e das escolhas institucionais que condicionaram os danos.

☀️ A melhor reportagem sobre Defesa Civil talvez seja feita durante a estiagem

Normalmente, as Defesas Civis recebem maior atenção justamente quando sua capacidade de resposta é colocada à prova. No entanto, um dos melhores momentos para avaliar a política pública de proteção e defesa civil pode ser exatamente quando não está acontecendo desastre algum. Durante os períodos de estiagem, é possível investigar aquilo que dificilmente recebe espaço durante uma emergência.

Nesse período, o jornalismo pode perguntar quanto o município investiu em prevenção, quais obras de drenagem foram executadas, quantas estruturas de contenção foram recuperadas, se os cursos d’água receberam manutenção, se os sistemas de alerta estão funcionando, se os equipamentos estão operacionais, se os servidores foram capacitados, se os planos de contingência foram atualizados, se comunidades em áreas de risco participaram de simulados e se os abrigos temporários foram previamente definidos e vistoriados. Essas pautas podem ser menos dramáticas, mas ajudam a compreender o que acontecerá quando chegar a próxima estação chuvosa.

🏛️ Investimento em prevenção

Avaliar orçamento, execução financeira e priorização de obras estruturais permite verificar se a gestão atua antes dos danos, e não apenas após eles.

🛡️ Preparação institucional

Sistemas de alerta, equipamentos operacionais, equipes capacitadas e simulados comunitários revelam se a estrutura de proteção e defesa civil funciona de forma contínua.

🏘️ Preparação comunitária

Conhecimento de rotas de evacuação, pontos de encontro, abrigos e protocolos locais indica se a população exposta foi de fato incorporada à política pública.

📄 Plano de contingência não deveria ser apenas um documento

Outro tema que merece atenção jornalística permanente são os planos de contingência. Ter um documento formalmente aprovado não significa, necessariamente, possuir capacidade operacional. Há uma diferença enorme entre uma prefeitura que possui um arquivo denominado “Plano de Contingência” e um território efetivamente preparado para enfrentar uma emergência.

Uma pauta jornalística pode perguntar a moradores de áreas de risco se conhecem o sistema de alerta utilizado pelo município, se sabem para onde devem ir, se conhecem as rotas de evacuação, se existe ponto de encontro definido, se participaram de algum exercício, se as escolas conhecem seus procedimentos de emergência e se os abrigos estão preparados para receber crianças, idosos e pessoas com deficiência. É nesse momento que o plano deixa de ser um documento administrativo e passa a ser confrontado com a realidade.

✅ Capacidade operacional real

Um plano só demonstra efetividade quando procedimentos, responsabilidades, fluxos de comunicação, abrigamento e rotas de evacuação são conhecidos, testados e viáveis para a população exposta.

🔧 Não podemos confundir capacidade de resposta com gestão de riscos

Botes são importantes. Viaturas são importantes. Sirenes são importantes. Equipamentos de comunicação são importantes. Máquinas também são importantes. Mas existe um risco quando esses elementos passam a representar, isoladamente, a ideia de uma Defesa Civil estruturada. Uma política moderna de redução de riscos depende de articulação muito mais ampla.

Ela envolve planejamento urbano, habitação, assistência social, saúde, educação, meio ambiente, saneamento, infraestrutura, fiscalização do uso do solo, meteorologia, geotecnologias, participação comunitária e diversas outras áreas. Uma Defesa Civil extremamente equipada pode continuar trabalhando essencialmente de forma reativa se as políticas responsáveis pela produção e redução das vulnerabilidades territoriais não estiverem integradas. Por isso, uma das perguntas jornalísticas mais importantes é se o município está apenas se preparando para responder melhor aos próximos desastres ou se está efetivamente trabalhando para reduzir os riscos que poderão produzi-los.

“Reconstruir a vulnerabilidade é uma forma extremamente cara de preparar o próximo desastre.”

🏗️ E depois que as câmeras vão embora?

Existe ainda outro momento decisivo para a imprensa: o pós-desastre. Nas primeiras horas e nos primeiros dias, normalmente há intensa cobertura. Depois, progressivamente, as equipes deixam o local. Mas a reconstrução pode durar meses ou anos. É justamente nesse período que uma das ideias centrais do Marco de Sendai ganha importância: o princípio de Build Back Better, frequentemente traduzido como Reconstruir Melhor.

Reconstruir melhor significa aproveitar a recuperação para reduzir vulnerabilidades existentes anteriormente. Não deveria significar simplesmente reconstruir exatamente a mesma infraestrutura, no mesmo padrão e com os mesmos problemas que contribuíram para os danos. Se uma ponte foi destruída, por exemplo, a pergunta não deveria ser apenas quando ela será reconstruída. Talvez seja necessário perguntar se o projeto considera as novas condições de risco, se o dimensionamento foi revisto, se a ocupação nas margens continuará igual, se a drenagem foi reconsiderada e se o problema que contribuiu para o dano foi efetivamente corrigido. Acompanhar esse processo é uma contribuição decisiva do jornalismo depois que a emergência deixa de ocupar as manchetes.

⚠️ Reconstrução sem revisão de vulnerabilidades

Reconstruir rapidamente pode ser necessário, mas reconstruir sem reavaliar projeto, uso do solo, drenagem e exposição territorial significa manter as condições que favoreceram os danos anteriores.

📰 Jornalismo também é infraestrutura de resiliência

Quando falamos em cidades resilientes, normalmente pensamos em obras, sistemas de monitoramento, Defesa Civil, planejamento urbano e capacidade institucional. Mas é pertinente incluir de maneira mais explícita outro componente: uma sociedade bem informada. A imprensa pode ajudar a formar percepção de risco, traduzir informações técnicas, questionar decisões públicas, preservar a memória dos desastres, acompanhar promessas feitas depois das tragédias e dar voz às comunidades expostas.

Nesse ponto, o conceito de agenda-setting é especialmente útil: os meios de comunicação não determinam simplesmente o que as pessoas devem pensar, mas possuem enorme capacidade de influenciar sobre quais assuntos a sociedade pensa e debate. Aplicado à redução do risco de desastres, isso abre uma possibilidade poderosa. A imprensa não precisa esperar o próximo desastre para voltar a falar de Defesa Civil; pode manter o risco na agenda pública antes, durante e depois dos eventos críticos.

🎓 Universidade e comunicação pública

A universidade pública pode fortalecer esse processo ao disponibilizar conhecimento técnico, pesquisas, dados e capacidade de análise para profissionais da comunicação, contribuindo para transformar informação qualificada em prevenção.

🔄 Talvez seja necessário inverter a pauta

Quando chegar a próxima estação seca, talvez seja o momento de fazer reportagens diferentes. Em vez de perguntar apenas quantos botes foram comprados, pode-se perguntar quantas famílias deixaram de precisar deles. Em vez de mostrar apenas as obras emergenciais depois da inundação, cabe investigar as obras preventivas executadas antes dela. Em vez de entrevistar moradores somente depois que perderam suas casas, é possível conversar com comunidades que convivem diariamente com riscos conhecidos.

Também é relevante acompanhar quanto foi investido para evitar que o desastre acontecesse, e não apenas quanto dinheiro chegou depois dele. E, quando novamente surgirem imagens de autoridades, máquinas, bombeiros, voluntários e equipes de Defesa Civil trabalhando em meio ao barro, talvez exista uma pergunta anterior que mereça ser recuperada: o que fizemos quando ainda não havia barro? Essa é uma pergunta para prefeitos, Defesas Civis, universidades, planejadores urbanos, engenheiros, gestores públicos, comunidades, órgãos de controle e também para aqueles que ajudam diariamente a construir a agenda pública. Entre eles, inevitavelmente, está a imprensa.

❓ Pergunta final

Se a prevenção bem-sucedida quase nunca gera imagens espetaculares, como sociedade, instituições e meios de comunicação podem construir uma agenda pública capaz de valorizar aquilo que protege vidas antes que a tragédia se torne manchete?

👤 Sobre o autor

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza

Coordenador da Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza é Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF e Professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Engenheiro Civil pela UFJF, é Mestre e Doutor em Engenharia Civil pela UFF, com especializações em Engenharia de Segurança do Trabalho e Gestão Pública Municipal. Atua como pesquisador nas áreas de geotecnologias, mapeamento de suscetibilidade e redução de riscos de desastres, articulando produção acadêmica, formação profissional e análise aplicada à gestão pública territorial.

🔗 Fontes de referência

  • McCOMBS, Maxwell E.; SHAW, Donald L. The agenda-setting function of mass media. Public Opinion Quarterly, v. 36, n. 2, p. 176–187, 1972.
  • UNITED NATIONS. Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. New York: United Nations, 2015.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction. Geneva: United Nations.
  • UNITED NATIONS OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION – UNDRR. Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015–2030. Geneva: United Nations, 2015.