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O alerta não começa no celular: o que uma ferramenta da UNDRR revela sobre os sistemas de alerta no Brasil

ARTIGO ANALÍTICO | PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL

A expansão de tecnologias de disseminação de mensagens no Brasil reforça uma questão decisiva: alertas eficazes dependem de risco conhecido, instituições preparadas, comunicação compreensível, participação social e capacidade real de resposta no território.

📌 Em síntese

A ferramenta MHEWS, vinculada ao Disaster Resilience Scorecard for Cities da UNDRR, ajuda a mostrar que sistemas de alerta não se resumem à emissão de mensagens por celular, SMS, sirenes ou outros canais. Seu foco está nas perguntas que antecedem e sucedem a transmissão: o risco era conhecido, a decisão foi tomada no tempo adequado, a mensagem era clara, a população confiou nela e conseguiu agir? Em contexto de ampliação da capacidade nacional de monitoramento e disseminação, o desafio brasileiro passa a ser transformar recursos tecnológicos em proteção efetiva no nível local, com governança, participação comunitária, acessibilidade, aprendizagem institucional e capacidade de coordenação entre diferentes atores.

📱 O alerta visível é apenas a parte final do sistema

Quando um alerta de emergência aparece repentinamente na tela do telefone celular, acompanhado de som e vibração, é comum associar esse momento ao próprio funcionamento do sistema de alerta. Para quem recebe a mensagem, esse é o elemento mais perceptível de toda a estrutura de proteção e defesa civil. No entanto, o alerta não começa nesse instante. Antes de qualquer envio, é necessário conhecer o risco, monitorar condições, interpretar dados, reconhecer limiares, estimar impactos, decidir pela emissão, delimitar a área ameaçada, redigir uma mensagem compreensível e selecionar os canais adequados para disseminá-la.

Também não se pode dizer que o processo se encerra quando a mensagem é transmitida. Depois do envio, permanece a pergunta central: as pessoas receberam, compreenderam, confiaram e conseguiram adotar a ação necessária para se proteger? Essa mudança de perspectiva aparece com nitidez no Adendo sobre Sistemas de Alerta Antecipado Multirriscos — MHEWS, associado ao Disaster Resilience Scorecard for Cities, da Estratégia Internacional das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres — UNDRR.

A ferramenta foi concebida para apoiar governos locais e outros atores na identificação de avanços e lacunas dos sistemas de alerta multirriscos e em sua incorporação às estratégias locais de redução de riscos e resiliência. Na avaliação que motivou esta reflexão, os 39 itens estavam sem resposta; portanto, a pontuação exibida não representa o desempenho de qualquer município. O interesse está nas perguntas propostas, porque elas oferecem um roteiro valioso para refletir sobre a realidade brasileira.

“Um alerta não é uma mensagem. É o resultado visível de todo um sistema de gestão de riscos.”

📡 Ter canais de envio não basta para caracterizar um sistema de alerta

O Brasil avançou significativamente nos mecanismos de disseminação de alertas. Desde 1º de outubro de 2025, o Defesa Civil Alerta está disponível em todo o território nacional. A tecnologia utiliza Cell Broadcast, permitindo direcionar mensagens a aparelhos compatíveis conectados às redes móveis nas áreas selecionadas, sem necessidade de cadastro prévio. Além disso, alertas podem ser enviados por SMS, WhatsApp, Telegram, televisão por assinatura e outros serviços digitais.

Esse avanço é extremamente importante, mas ele amplia a responsabilidade de discutir tudo o que acontece antes e depois da transmissão. Um sistema de alerta pode ser compreendido, de forma simplificada, como uma cadeia composta por conhecimento do risco, monitoramento, previsão, tomada de decisão, produção do alerta, disseminação, compreensão, ação e avaliação. A falha de apenas um elo pode comprometer o funcionamento do conjunto, ainda que os demais componentes sejam tecnologicamente robustos.

Assim, um radar pode operar adequadamente e os dados não chegarem a quem decide. A previsão pode estar correta e a decisão ser tardia. A decisão pode ser adequada e a mensagem, incompreensível. A mensagem pode chegar ao telefone, mas o morador não saber para onde ir. Ou ainda: a população pode compreender a orientação, confiar nela e, mesmo assim, não possuir condições físicas, econômicas ou logísticas para agir. É por isso que um sistema de alerta não pode ser reduzido à tecnologia utilizada para enviar o aviso.

⚠️ Ponto de atenção estratégico

Ampliar a capacidade de disseminação é necessário, mas não suficiente. Sem integração entre conhecimento territorial, protocolos decisórios, instituições locais, linguagem clara e apoio à resposta, a mensagem enviada pode não se converter em comportamento protetivo.

🗺️ O conhecimento do risco é a base do alerta eficaz

Entre os aspectos avaliados pelo MHEWS está a existência de dados e informações consolidados sobre riscos. Não se trata apenas de saber onde chove mais ou onde um rio transborda. A ferramenta considera a existência de repositórios com informações sobre eventos anteriores, perdas e danos, ameaças, exposição, vulnerabilidades, capacidades de enfrentamento e cenários futuros, preferencialmente apoiados por sistemas de informações geográficas.

Esse ponto merece atenção no contexto municipal brasileiro. Um alerta territorialmente adequado exige saber quem e o que está exposto naquele território. Duas áreas podem receber a mesma precipitação e produzir consequências muito distintas. Uma pode dispor de drenagem adequada, edificações mais resistentes, população com facilidade de deslocamento e múltiplas vias de acesso. Outra pode concentrar moradias precárias, pessoas idosas ou com deficiência, encostas instáveis, vias estreitas e famílias sem meios próprios para evacuação rápida. A ameaça pode ser semelhante; o risco, não.

A legislação brasileira acompanha esse entendimento ao atribuir importância à identificação de ameaças, suscetibilidades e vulnerabilidades, ao monitoramento e à produção de alertas antecipados. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil também orienta as comunidades quanto a comportamentos de prevenção, resposta e autoproteção. Em consequência, o alerta eficaz começa muito antes da emergência: ele começa pelo conhecimento acumulado sobre o território.

📊 O que a ferramenta leva em conta

O instrumento da UNDRR examina se há base informacional sobre eventos passados, perdas e danos, ameaças, exposição, vulnerabilidades, capacidades de resposta e cenários futuros, de modo a sustentar decisões mais precisas e territorialmente coerentes.

📚 Registrar ocorrências só tem valor pleno quando gera aprendizado

Outro aspecto relevante do MHEWS é a ligação entre eventos ocorridos e registros de perdas e danos. A ferramenta pergunta se eventos perigosos são sistematicamente registrados e se essas informações retornam ao próprio sistema para melhorar futuras avaliações e alertas. Trata-se de uma lógica simples, mas transformadora: documentar uma ocorrência não deveria servir apenas para registrar o que aconteceu, e sim para produzir aprendizado institucional.

Depois de uma inundação, por exemplo, é possível perguntar se a área prevista realmente inundou, se a água alcançou locais não esperados, qual foi o intervalo entre o alerta e o impacto, se as pessoas receberam a mensagem, se houve evacuação, quais grupos tiveram mais dificuldade, se os abrigos funcionaram, se as rotas permaneceram acessíveis e se o evento revelou novas áreas de risco. As respostas devem retroalimentar mapas, planos de contingência, procedimentos operacionais, protocolos de comunicação e decisões futuras.

🚨 Lacuna crítica

Um evento que não produz aprendizado institucional aumenta a probabilidade de repetição das mesmas vulnerabilidades no episódio seguinte. Sem retroalimentação, o sistema registra danos, mas não evolui.

📣 A última milha envolve receber, compreender e agir

Uma das discussões mais importantes do instrumento está relacionada à chamada última milha. Em muitos contextos, ela é tratada como o desafio de fazer uma informação tecnicamente produzida chegar à pessoa exposta ao risco. O MHEWS, porém, explicita que essa etapa é mais complexa. A ferramenta pergunta se as comunidades recebem, compreendem e agem com base nas informações de alerta, sugerindo mecanismos de avaliação como exercícios, pesquisas posteriores aos alertas e comparação entre população exposta e comportamento observado.

Esses três verbos não são equivalentes. Uma instituição pode demonstrar que determinada mensagem alcançou milhares de aparelhos, mas isso responde apenas à dimensão do recebimento. Permanece a necessidade de saber se a gravidade foi compreendida, se a área ameaçada foi claramente identificada, se o local seguro era conhecido, se a terminologia técnica fazia sentido para o morador e, sobretudo, se a pessoa conseguiu fazer aquilo que lhe foi recomendado.

Por isso, a efetividade do alerta não deveria ser medida apenas pela quantidade de mensagens transmitidas. Um indicador mais relevante é a capacidade de transformar informação em comportamento de proteção.

“Receber o alerta é apenas o primeiro passo; sua função só se completa quando a informação se converte em ação protetiva.”

♿ A mesma mensagem não atende igualmente a todas as pessoas

A ferramenta também destaca acessibilidade e inclusão nos sistemas de comunicação. São consideradas diferenças relacionadas à idade, deficiência, idioma, condições sociais, acesso à energia, acesso à internet e outras situações que podem interferir tanto no recebimento quanto na compreensão e na capacidade de resposta. Isso desloca a pergunta central: em vez de indagar apenas se o alerta foi enviado, torna-se necessário perguntar para quem ele realmente funciona.

Uma pessoa surda recebe a informação de forma adequada? Uma pessoa com deficiência visual consegue acessar o conteúdo? Um idoso sozinho tem condições de executar a orientação? Uma pessoa com mobilidade reduzida consegue percorrer a rota recomendada? Uma família sem veículo pode abandonar determinada área? Uma população com baixo grau de escolarização compreende a terminologia utilizada? Existem alternativas se falharem a energia elétrica ou as redes de telecomunicações?

Essas questões ajudam a compreender por que redundância não é desperdício em sistemas de alerta. A própria ferramenta valoriza o uso de diferentes meios de disseminação, como sirenes, telefonia, rádio, televisão, redes sociais, voluntários e visitas porta a porta. O melhor sistema não é necessariamente o mais sofisticado, mas aquele que continua protegendo pessoas quando uma tecnologia específica deixa de funcionar.

🛡️ Redundância como capacidade protetiva

Combinar múltiplos canais de comunicação amplia alcance, resiliência e confiabilidade. Em contextos de risco, a sobreposição de meios pode compensar falhas tecnológicas, barreiras de acessibilidade e limitações de mobilidade ou conectividade.

🏘️ Comunidade não deve aparecer apenas como destinatária final

Uma das contribuições mais instigantes do MHEWS para o debate brasileiro está na participação comunitária. A ferramenta diferencia sistemas nos quais a comunidade apenas participa daqueles em que ela exerce papel efetivamente ativo, além de perguntar sobre a existência de redes comunitárias e de voluntários integradas à disseminação de alertas, às ações antecipatórias e à resposta.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a Lei nº 12.608/2012, que atribui aos municípios, entre outras responsabilidades, manter a população informada sobre áreas de risco e protocolos de prevenção e alerta, realizar exercícios simulados e estimular a participação de entidades privadas, associações de voluntários, organizações não governamentais e associações comunitárias nas ações do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

A relevância dessa abordagem é evidente porque moradores conhecem dimensões do território que dificilmente aparecem por completo em bases oficiais. Sabem onde a água chega primeiro, identificam residências com pessoas acamadas, conhecem escadarias escorregadias, percebem alterações em nascentes, lembram áreas onde o terreno já se movimentou e reconhecem quais moradores necessitam de ajuda. O conhecimento técnico e científico continua indispensável, mas o conhecimento local pode complementá-lo de modo decisivo.

💡 Participação com função ativa

A comunidade pode contribuir para a construção do conhecimento do risco, para a preparação, para a comunicação e para a resposta local, em vez de aparecer somente ao final da cadeia como receptora passiva de mensagens emitidas pelo poder público.

🤝 Confiança e credibilidade também são infraestrutura do alerta

A ferramenta inclui um indicador específico de confiança e credibilidade, perguntando em que medida a população e outros atores confiam nas mensagens emitidas pelas autoridades. Trata-se de uma das dimensões menos visíveis e, ao mesmo tempo, mais difíceis de construir. Um sistema pode contar com sensores, computadores, especialistas, redes de comunicação e protocolos; ainda assim, se a população não acreditar nele, uma parte essencial da cadeia deixa de funcionar.

A confiança não é produzida no momento do evento. Ela se forma anteriormente, pela presença institucional no território, pela consistência das orientações, pelo diálogo com a população, pelos exercícios realizados e pela experiência acumulada com alertas anteriores. Esse ponto também ajuda a compreender o risco do excesso de alertas pouco úteis, genéricos ou sem orientações claras. Quando tudo é apresentado como emergência, corre-se o risco de que nada seja percebido como realmente urgente.

Comunicação de risco, portanto, não é apenas informar a existência de uma ameaça. É transmitir informação compreensível, territorialmente relevante e associada a uma ação possível. A própria ferramenta pergunta se as mensagens explicam claramente impactos e riscos e se orientam sobre o que deve ser feito.

“Quando tudo é comunicado como urgência, perde-se a capacidade de distinguir aquilo que exige ação imediata.”

🧪 Simulados servem para revelar falhas antes do evento real

A avaliação da UNDRR pergunta se os sistemas são regularmente testados por meio de exercícios e simulações envolvendo comunidade, empresas e instituições, e se as falhas identificadas nesses processos resultam em melhorias. Isso altera a percepção sobre o papel dos simulados. Eles não deveriam ser tratados como demonstrações institucionais, mas como testes efetivos do sistema.

Se uma sirene não é ouvida em determinado trecho, identifica-se uma vulnerabilidade. Se moradores não sabem para onde seguir, identifica-se outra. Se a rota de fuga não comporta a quantidade prevista de pessoas, surge nova limitação. Se um abrigo não consegue ser aberto rapidamente, o teste revela mais um ponto crítico. E, se diferentes instituições acreditam possuir a mesma responsabilidade — ou se nenhuma delas se reconhece responsável — talvez tenha sido encontrada uma das falhas mais importantes de todas.

Um bom exercício não é necessariamente aquele em que tudo funciona perfeitamente. Em muitos casos, seu principal mérito está justamente em descobrir problemas antes que um evento real os exponha em condições mais graves.

🏛️ Sustentabilidade institucional importa tanto quanto tecnologia

Outro mérito do MHEWS é deslocar a atenção da aquisição de equipamentos para sua sustentabilidade. A ferramenta analisa capacidade institucional, orçamento, manutenção da infraestrutura, funcionamento de centros de monitoramento, segurança estrutural, redundância e continuidade dos serviços. Essa discussão é especialmente relevante na administração pública, pois comprar um equipamento é algo muito diferente de manter capacidade permanente para operá-lo.

Uma estação requer manutenção. Um sistema informatizado precisa ser atualizado. Um centro operacional depende de profissionais. Protocolos precisam ser conhecidos. Equipes necessitam de capacitação. Sensores precisam continuar transmitindo. Baterias precisam funcionar quando falta energia. Bases de dados precisam permanecer acessíveis quando a rede principal falha. E tudo isso precisa atravessar mudanças de governo e de gestores.

Por isso, sistemas de alerta dependem tanto de instituições resilientes quanto de equipamentos resilientes.

📡 Monitoramento

Observar ameaças exige infraestrutura contínua, manutenção, atualização tecnológica e pessoal qualificado para interpretar dados em tempo oportuno.

🧭 Decisão

Protocolos, competências institucionais e responsabilidades bem definidas são indispensáveis para que o alerta seja emitido no tempo adequado e com base em critérios conhecidos.

📨 Comunicação

A mensagem precisa ser clara, territorializada, acessível e vinculada a orientações viáveis, de modo a favorecer compreensão e ação.

🔄 Aprendizado

Registros, exercícios e avaliações posteriores devem alimentar correções em mapas, planos, rotinas operacionais e estratégias de comunicação.

🇧🇷 A capacidade nacional está crescendo, mas a proteção é local

Há avanços importantes em curso no país. Em março de 2026, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais — Cemaden passou de 1.133 para 1.295 municípios monitorados. O órgão informa como meta alcançar os 2.095 municípios brasileiros suscetíveis a desastres geo-hidrológicos considerados prioritários para monitoramento. Em paralelo, a implantação nacional do Defesa Civil Alerta ampliou de maneira expressiva a capacidade de disseminar informações emergenciais diretamente para a população.

Esses avanços são estruturantes. Ainda assim, a ferramenta da UNDRR ajuda a formular a pergunta seguinte: como transformar uma crescente capacidade nacional de monitoramento e disseminação em crescente capacidade local de proteção? O alerta produzido por uma instituição nacional precisa encontrar, no território, instituições capazes de interpretar o contexto local, comunicar adequadamente, mobilizar recursos, orientar a população, apoiar pessoas vulneráveis e tomar decisões. Tecnologia nacional e capacidade municipal não competem; elas precisam se complementar.

🏗️ Capacidade local como condição de efetividade

Monitoramento em escala nacional e disseminação ampla de mensagens só produzem proteção consistente quando articulados a instituições municipais preparadas, recursos disponíveis, protocolos operacionais e apoio às populações mais vulneráveis.

📘 O Plano Nacional reforça uma visão sistêmica do alerta

Essa discussão ganhou ainda mais relevância com o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil — PN-PDC 2025–2035. O Decreto nº 12.652, de 7 de outubro de 2025, estabelece entre as diretrizes do Plano o fortalecimento dos órgãos de proteção e defesa civil, a profissionalização técnica, a atuação interfederativa e intersetorial, a participação da sociedade civil e a gestão da informação e da comunicação.

Entre seus objetivos estão expandir e aperfeiçoar os sistemas de monitoramento e alerta antecipado, capacitar comunidades e agentes governamentais e não governamentais, ampliar a formação profissional, integrar dados e aprimorar a comunicação de riscos e desastres. O documento converge com a ideia de que sistemas de alerta devem ser compreendidos para além da tecnologia, envolvendo igualmente governança, planejamento, recursos humanos, orçamento, informação, comunicação, participação social e capacidade institucional.

🎓 O que isso revela sobre a formação em gestão pública em proteção e defesa civil

A discussão dialoga diretamente com a formação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil. Um sistema de alerta multirriscos evidencia a natureza interdisciplinar desse campo. Há engenharia no estudo de estruturas, encostas, drenagem e infraestrutura; meteorologia, hidrologia e geologia na análise das ameaças; geotecnologia na produção de mapas e integração de informações territoriais; e tecnologia da informação e telecomunicações no monitoramento de dados e na disseminação de mensagens.

Mas há também um conjunto decisivo de questões de administração pública: quem é responsável, qual instituição decide, se há protocolo, se existe orçamento, quem mantém o sistema, como diferentes órgãos compartilham dados, como incorporar a população, como avaliar resultados, como transformar diagnóstico em planejamento, como garantir continuidade administrativa, como definir prioridades e como aprender após cada evento. Essas são perguntas essencialmente relacionadas à gestão pública do risco de desastres.

Isso ajuda a compreender a pertinência do tema para um curso de especialização em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil — GPPDC. Formar profissionais para esse campo não significa apenas ensinar o que fazer quando um desastre acontece. Significa desenvolver capacidade para compreender sistemas complexos, articular instituições, planejar políticas públicas, interpretar riscos, comunicar incertezas, organizar recursos e construir condições para que decisões sejam tomadas antes que uma ameaça se transforme em desastre.

Um detalhe da ferramenta da UNDRR sintetiza bem essa lógica: após os indicadores, a avaliação solicita meios de verificação, ações necessárias para alcançar maior resiliência, instituição responsável e prazo. Em outras palavras: diagnosticar, comprovar, planejar, responsabilizar e estabelecer prazo. Isso é gestão.

❓ Pergunta final

Se o Brasil amplia sua capacidade de monitorar ameaças e enviar mensagens em escala nacional, estamos ampliando na mesma medida a capacidade local de transformar esses alertas em compreensão, confiança e proteção efetiva para as populações expostas?

👤 Sobre o autor

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza

Coordenador da Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF

Prof. Dr. Jordan Henrique de Souza é Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil da UFJF e Professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da UFJF. Engenheiro Civil pela UFJF, Mestre e Doutor em Engenharia Civil pela UFF, possui especializações em Engenharia de Segurança do Trabalho e Gestão Pública Municipal. Atua como pesquisador com foco em geotecnologias, mapeamento de suscetibilidade e redução de riscos de desastres, articulando ensino, pesquisa e reflexão aplicada sobre capacidade institucional, planejamento territorial e proteção de populações expostas.

🔗 Fontes de referência

  • United Nations Office for Disaster Risk Reduction — UNDRR. Disaster Resilience Scorecard for Cities e Multi-Hazard Early Warning Systems Addendum (MHEWS).
  • Brasil. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012, com alterações posteriores. Política Nacional de Proteção e Defesa Civil — PNPDEC.
  • Brasil. Decreto nº 12.652, de 7 de outubro de 2025. Princípios, diretrizes e objetivos do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil.
  • Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Defesa Civil Alerta.
  • Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais — Cemaden. Expansão da rede de monitoramento em 2026.