Release | Crise climática, ocupação urbana e gestão de riscos
Professor da UFJF alerta que desastres em Juiz de Fora resultam de fragilidades históricas e ocupação inadequada
Em entrevista ao programa “Cidade em Pauta”, Jordan Henrique Souza analisou a tragédia de fevereiro, criticou a naturalização dos desastres e defendeu mobilização social, planejamento urbano e fortalecimento da Defesa Civil.
📝 Nota editorial
Este texto é uma síntese jornalística e educacional elaborada a partir da entrevista concedida pelo professor Jordan Henrique Souza ao programa “Cidade em Pauta”, em vídeo disponibilizado no YouTube. Não se trata de nota oficial de nenhum órgão.
📌 Em síntese
Juiz de Fora, MG — Em entrevista ao programa “Cidade em Pauta”, o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Engenharia Civil, Jordan Henrique Souza, apresentou uma análise sobre a crise climática e os desafios enfrentados pelo município após a tragédia de fevereiro. Com experiência na Defesa Civil, o docente enfatizou que os desastres não são meramente eventos climáticos, mas resultado da combinação entre fragilidades estruturais, ocupação inadequada do território e políticas públicas que, por décadas, ignoraram alertas técnicos [1].
⚠️ A falácia do “desastre natural”
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica ao uso da expressão “desastre natural”. Para Jordan, é necessário mudar a terminologia e a percepção pública sobre tragédias associadas a chuvas, enchentes e deslizamentos. Embora o evento meteorológico, como a chuva intensa, seja um processo da natureza, a exposição de pessoas a áreas de risco é resultado de decisões humanas, históricas e institucionais.
O professor destacou que não se deve naturalizar a morte de cidadãos sob o rótulo de “desastre natural”. Para ele, a ocupação de encostas, margens de rios e áreas suscetíveis a alagamentos não pode ser tratada como inevitável. Trata-se de um processo vinculado à forma como as cidades foram construídas, muitas vezes sem planejamento adequado, sem controle efetivo do uso do solo e sem políticas de redução de vulnerabilidades.
A chuva pode ser um fenômeno natural, mas o desastre se forma quando populações vulneráveis são expostas ao risco por ausência de planejamento, infraestrutura e proteção social.
— Síntese da análise apresentada por Jordan Henrique Souza
Segundo o docente, as políticas urbanísticas no Brasil historicamente privilegiaram aspectos estéticos e de “urbanidade” em detrimento da gestão de riscos. Nesse sentido, a vulnerabilidade deve ser compreendida como uma construção social, produzida ao longo do tempo por desigualdades, omissões e escolhas de planejamento.
📜 Alertas antigos e fragilidades históricas
Jordan também resgatou referências históricas para demonstrar que os riscos enfrentados por Juiz de Fora não são novos. Durante a entrevista, mencionou um estudo de 1893, no qual um especialista francês já apontava a necessidade urgente de drenagem no Morro do Imperador, atual Morro do Cristo, além de preocupações com áreas alagadiças na região norte do município.
Para o professor, esse tipo de registro mostra que parte dos problemas atuais foi anunciada há muito tempo. A tragédia recente, portanto, não pode ser lida apenas como consequência de um evento extremo isolado, mas como resultado de fragilidades acumuladas ao longo da história urbana da cidade.
🧱 Limites da engenharia e estruturas não projetadas para contenção
Na entrevista, o professor explicou que muitas estruturas que falharam na última tragédia, como muros de divisa, não foram concebidas para atuar como obras de contenção. Segundo Jordan, esse ponto evidencia a importância de compreender os limites da engenharia, especialmente quando estruturas simples passam a receber cargas e pressões para as quais não foram projetadas.
O docente também ressaltou que projetos de engenharia trabalham com parâmetros, limites de carga e horizontes de recorrência. Quando um município enfrenta volumes extremos de chuva, como os mais de 600 milímetros registrados no contexto da tragédia, estruturas frágeis, improvisadas ou inadequadamente implantadas tendem a entrar em colapso.
Muros de divisa não são, necessariamente, estruturas de contenção. Quando passam a cumprir uma função para a qual não foram projetados, o risco aumenta.
— Síntese da explicação técnica apresentada na entrevista
🏚️ Desigualdade, autoconstrução e exclusão técnica
Um ponto central da fala de Jordan foi a relação entre risco e desigualdade social. O professor destacou que, enquanto bairros de maior renda costumam contar com assessoria de profissionais especializados, moradores de áreas vulneráveis frequentemente recorrem à autoconstrução por falta de condições financeiras e ausência de suporte técnico.
Ao mencionar a realidade da “Dona Maria” e do “Seu João”, no alto das encostas, Jordan chamou atenção para o fato de que muitas famílias constroem suas moradias sem acompanhamento de engenheiros, arquitetos ou geotécnicos. Essa exclusão técnica amplia a vulnerabilidade e aprofunda a exposição ao risco.
Nesse contexto, o professor defendeu a retomada do poder de polícia administrativa do município, com controle mais rigoroso das ocupações e maior capacidade de intervenção pública antes que situações de risco se consolidem.
🤝 Mobilização social e fortalecimento da Defesa Civil
Para o próximo período chuvoso, Jordan fez um alerta realista: devido à complexidade das intervenções necessárias, muitas obras de grande porte não estarão prontas a tempo. Diante desse cenário, ele apontou que a solução imediata passa pela mobilização social, pela comunicação de risco e pelo fortalecimento dos núcleos comunitários de Defesa Civil.
A preparação da população, segundo a análise apresentada, deve envolver orientação clara, rotas de fuga, pontos de apoio, protocolos de evacuação, canais confiáveis de comunicação e participação ativa das comunidades. A tecnologia e os alertas oficiais são importantes, mas só salvam vidas quando são compreendidos e acompanhados de organização local.
📢 Comunicação permanente com a Defesa Civil
Ao encerrar sua participação, Jordan Henrique Souza reforçou que o risco em Juiz de Fora é permanente. Para ele, a pergunta não é se novos eventos extremos voltarão a ocorrer, mas quando eles ocorrerão. A recomendação central é que a população mantenha comunicação constante com a Defesa Civil e priorize a preservação da vida acima de bens materiais.
“Não é uma questão de se isso vai acontecer de novo, mas de quando vai acontecer de novo.”
— Jordan Henrique Souza, durante entrevista ao programa “Cidade em Pauta”
A mensagem final é de cautela e responsabilidade coletiva: diante de um cenário climático mais severo e de vulnerabilidades urbanas acumuladas, a gestão de riscos deve ser tratada como política pública permanente, e não apenas como resposta emergencial após tragédias.
🎓 Sobre o professor
Jordan Henrique Souza é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Engenharia Civil. Atua em temas relacionados à gestão de riscos, defesa civil, planejamento urbano, geotecnia, comunicação de risco e políticas públicas voltadas à prevenção, preparação, resposta e recuperação diante de desastres.
❓ Pergunta final
A tragédia de fevereiro deve ser tratada apenas como uma emergência superada ou como um alerta definitivo para reconstruir a relação de Juiz de Fora com seu território, suas áreas de risco e suas políticas de prevenção?