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Quando a água sobe, o solo cede e o sistema falha

O Brasil diante do desafio estrutural da gestão do risco de desastres

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido à repetição de cenas que já não podem mais ser tratadas como exceção: cidades alagadas por chuvas intensas, encostas cedendo sobre áreas urbanas, pontes e vias interrompidas, escolas fechadas ou transformadas em abrigos improvisados, comunidades inteiras isoladas. Em diferentes regiões do país — do Sul ao Norte, do litoral às áreas serranas e metropolitanas — os desastres de natureza hidrológica, geotécnica e climática vêm se agravando em frequência, intensidade e impacto social.

Embora os eventos extremos sejam cada vez mais visíveis, a origem dos desastres vai muito além da chuva intensa, do transbordamento de rios ou da instabilidade do solo. O que transforma um evento físico em desastre é a combinação entre risco, vulnerabilidade, exposição e falhas de governança. Onde o planejamento urbano é frágil, a ocupação do solo é desordenada e as políticas públicas são desarticuladas, os impactos tendem a ser mais severos — e, sobretudo, evitáveis.


Enchentes, deslizamentos e colapsos urbanos: um padrão recorrente

As enchentes urbanas deixaram de ser um fenômeno restrito a grandes bacias hidrográficas. Hoje, pequenos cursos d’água canalizados, sistemas de drenagem subdimensionados e impermeabilização excessiva do solo fazem com que bairros inteiros fiquem submersos após poucas horas de chuva intensa. Paralelamente, deslizamentos de encostas afetam áreas ocupadas sem estudos geotécnicos adequados, muitas vezes por populações que não tiveram acesso a alternativas seguras de moradia.

O colapso de infraestruturas — como estradas, redes de água e esgoto, equipamentos públicos e escolas — amplia os efeitos desses eventos. Em diversos municípios, escolas precisam suspender aulas por danos estruturais, alagamentos ou por estarem localizadas em áreas de risco, comprometendo o direito à educação e a proteção de crianças e adolescentes.

Esses episódios evidenciam que o problema não é apenas climático. Trata-se de um desafio sistêmico, que envolve escolhas históricas de ocupação do território, desigualdades sociais persistentes e limitações técnicas e institucionais dos entes públicos.


Capacidades institucionais: o elo mais frágil da cadeia de prevenção

Apesar dos avanços em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta e obras de infraestrutura, muitos municípios brasileiros ainda enfrentam um gargalo central: a insuficiência de capacidades técnicas e institucionais para prevenir, preparar, responder e se recuperar de desastres.

Em grande parte do país, equipes são reduzidas, acumulam funções e carecem de formação específica em gestão do risco de desastres. A coordenação entre setores — defesa civil, planejamento urbano, educação, saúde, assistência social e obras — frequentemente ocorre de forma reativa, apenas após o impacto já instalado.

A experiência recente demonstra que tecnologia e infraestrutura, embora fundamentais, não operam sozinhas. Sem profissionais capacitados para interpretar dados, planejar ações preventivas, articular políticas públicas e tomar decisões sob pressão, os sistemas falham justamente quando são mais necessários.


Profissionais qualificados: uma necessidade transversal

A redução efetiva dos impactos dos desastres exige profissionais preparados em diferentes frentes estratégicas:

  • Gestão pública e coordenação institucional, capazes de integrar políticas, orçamentos e planos de ação;
  • Proteção e Defesa Civil, com domínio técnico, visão territorial e capacidade de articulação intersetorial;
  • Planejamento urbano e territorial, orientado pela redução de riscos e pela adaptação às mudanças climáticas;
  • Resiliência de cidades e infraestruturas, envolvendo engenheiros, arquitetos e técnicos com abordagem sistêmica;
  • Segurança e resiliência no ambiente escolar, garantindo que escolas sejam espaços seguros antes, durante e após eventos adversos;
  • Educação e formação comunitária para a redução do risco de desastres, fortalecendo a cultura de prevenção e autoproteção.

Gestores públicos, engenheiros, educadores, técnicos e agentes da defesa civil ocupam, nesse contexto, um papel estratégico. São eles que transformam diretrizes em ações concretas e que fazem a ponte entre o conhecimento técnico e a realidade das comunidades.


Pessoas no centro da resiliência

Os desastres deixam claro que a resiliência não se constrói apenas com obras ou equipamentos, mas com pessoas capacitadas, instituições fortalecidas e processos bem estruturados. Investir em formação qualificada não é um custo adicional, mas uma condição para reduzir perdas humanas, sociais e econômicas.

À medida que os eventos extremos se intensificam, cresce também a urgência de alinhar políticas públicas, planejamento territorial e educação para a redução do risco de desastres — especialmente em nível local, onde os impactos são sentidos de forma mais direta.


Chamada para ação: formação alinhada às necessidades do país

Diante desse cenário, está aberta uma manifestação de interesse institucional para profissionais e interessados em formações nas áreas de:

  • Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil (GPPDC)
  • Cidades Resilientes
  • Escolas Resilientes
  • Educação para a Redução do Risco de Desastres

A iniciativa tem como objetivo mapear demandas formativas reais e orientar a oferta de cursos alinhados às necessidades concretas dos municípios, das escolas e dos sistemas públicos brasileiros.

Profissionais da gestão pública, da engenharia, da educação, da defesa civil e áreas afins são convidados a participar, contribuindo para a construção de percursos formativos que fortaleçam a capacidade institucional do país frente aos desafios crescentes do risco de desastres.

Investir em pessoas hoje é a base para reduzir impactos amanhã.