Fechar menu lateral

Elas são Sísifo do Mercado de Trabalho

A compreensão das disparidades de gênero no mercado de trabalho contemporâneo encontra uma metáfora precisa no Mito de Sísifo. Ao correlacionar as evidências empíricas do Global Gender Gap Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), com a filosofia existencialista de Albert Camus, observa-se que a trajetória profissional feminina é marcada por um “esforço sísifo” uma ascensão constante em qualificação que, todavia, enfrenta forças estruturais que impelem o progresso de volta à base. Este ensaio analisa a estagnação da paridade de gênero como uma manifestação do “absurdo” no cenário corporativo e econômico.
Na mitologia grega, Sísifo é condenado a empurrar uma pedra até o cume de uma montanha, apenas para vê-la retornar ao ponto de partida por uma força inevitável, reiniciando o ciclo eternamente. No contexto laboral de 2025, a “pedra” representa a busca por paridade econômica e acesso à liderança. Embora o relatório do WEF registre que a participação feminina na força de trabalho atingiu 41,2% em 2024, observa-se um retrocesso sistêmico no acesso ao poder decisório: apenas 28,8% dos cargos de liderança superior são ocupados por mulheres.
A ascensão do capital humano feminino, caracterizada por níveis de graduação que frequentemente superam os masculinos, configura a “subida da montanha”. Entretanto, a persistência de barreiras invisíveis neutraliza o mérito individual, transformando a progressão de carreira em um movimento circular e desgastante, onde a qualificação educacional não se traduz automaticamente em ascensão institucional.
Albert Camus define o “absurdo” como o divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário. No mercado de trabalho, esse conceito manifesta-se na contradição entre a competência demonstrada e a exclusão dos espaços de poder, o “teto de vidro”. O relatório de 2025 enfatiza um quadro de stalled momentum (impulso estagnado), evidenciando que a lacuna de gênero na liderança não é um problema de temporalidade, mas de estruturas de poder resilientes.
Ademais, a segregação setorial reforça o caráter absurdo da divisão do trabalho, a representação feminina permanece concentrada em setores focados em pessoas, como Saúde e Educação. Embora vitais, essas áreas sofrem com menores remunerações e menor escala econômica se comparadas aos setores de Infraestrutura e Tecnologia, onde a retenção de talentos femininos ainda enfrenta obstáculos críticos. A vitória de Sísifo, que para Camus residia na consciência plena de sua condição, traduz-se hoje na lucidez de que o esforço individual, isolado, é insuficiente diante de uma topografia desigual.
O fator determinante para o retorno da pedra à base da montanha reside na distribuição assimétrica do trabalho de cuidado. O documento do WEF sublinha a não linearidade das carreiras femininas, frequentemente interrompidas pela economia do cuidado. Enquanto as mulheres fazem pausas médias de 19,6 meses por responsabilidades familiares, o tempo médio para homens é de 13,9 meses.
Essa disparidade opera como a força gravitacional que impede a fixação da pedra no topo. Sem políticas públicas e arranjos organizacionais que acomodam trajetórias não lineares, a maternidade e o cuidado doméstico tornam-se penalidades profissionais. O resultado é um ciclo de reinício constante que não apenas prejudica a segurança econômica da mulher, mas drena a eficiência da economia global ao desperdiçar talentos altamente qualificados.
A articulação entre a filosofia do absurdo e os dados do Global Gender Gap Report 2025 revela que a solução para a desigualdade de gênero exige uma mudança de paradigma, a transição de uma cultura de resiliência individual para uma de reforma estrutural. Para que o esforço feminino deixe de ser um ciclo sísifo de repetição e torne-se um progresso cumulativo, é imperativo alterar a própria montanha.
A superação dessa estagnação estatística depende de intervenções sistêmicas, desde políticas de contenção da regressão profissional até a inclusão em setores estratégicos, que garantam que a pedra, uma vez no topo, ali permaneça. Somente por meio de uma reconfiguração dos arranjos socioeconômicos será possível converter a resistência consciente em equidade efetiva e sustentada.
Referências

CAMPOS, Tiago Soares. Mito de Sísifo. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-mito-sisifo-sua-conotacao-contemporanea.htm.

WORLD ECONOMIC FORUM. Global Gender Gap Report 2025: labour markets, political leadership and supporting frameworks. Genebra: WEF, 2025. Disponível em: https://www.weforum.org/publications/global-gender-gap-report-2025/in-full/labour-markets-political-leadership-and-supporting-frameworks/.